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Esculturas

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

A arte da natureza

Texto: Gustavo Cândido

Foi praticamente por acaso que Miharu, mais conhecido como Mi, descobriu que a natureza é uma grande escultora, encontrando a raíz de uma árvore na qual começou a trabalhar para evitar que os insetos a destruíssem. Hoje, a recuperação das raízes para ele - "eu só limpo e conservo, não mudo o que a natureza fez", lembra - é um hobby e uma terapia que produz peças lindas e que, em alguns casos, lembram formas de animais.

Jornal da Cidade - Quando o senhor começou a trabalhar com as raízes?

Miharu Takenaka - Há três meses, outro dia ainda.

JC - Por que raízes?

Mi - Hoje eu tenho uma oficina auto-elétrica, mas já fui funileiro. Nessa época eu tinha uma peça de madeira do meu pai que estava estragando. Recuperei a peça e coloquei na oficina. Desse dia em diante eu comecei a gostar de mexer com madeira. Fui a um sítio, vi uma raíz e passei a trabalhar nela. Para mim também é uma forma de terapia. Tinha muita dor de cabeça, por isso o médico recomendou que eu relaxasse mais. O trabalho com a maderia acabou com a dor de cabeça.

JC - Como o senhor consegue as raízes?

Mi - De várias maneiras, no mato, em beira de estrada, algumas pessoas que agora sabem o que eu faço também trazem para mim. Mas trabalho só com raízes, não com tocos de madeira. Eu tiro as raízes que ainda estão enterradas na terra e deixo do jeito que as encontrei, não mudo a sua forma, só dou um trato.

JC - Como o senhor trata delas?

Mi - Eu limpo primeiro, tiro toda a terra, os bichos. Depois dou uma lixada bem de leve e passo um protetor, um selador para evitar que os cupins acabem com ela. O interessante disso tudo

é que a peça está enterrada no chão e quando você tira ela pode ser assim e até lembrar alguma coisa. É uma coisa perdida no tempo que eu faço reviver.

JC - O senhor junta uma peça na outra?

Mi - Às vezes o que eu faço é uma montagem, colo ou parafuso uma peça na outra só para dar sustentação e ela poder ficar em pé, mas não mexo na forma, a madeira fica do jeito que ela

é. É claro que se os cupins tiverem comido uma parte muito grande ou ela estiver podre, eu corto fora esse pedaço.

JC - De onde veio a habilidade para trabalhar com a madeira?

Mi - Não sei, nunca mexi com isso antes daquela primeira peça. Por isso até criei minhas próprias ferramentas para limpar e tratar as peças. Dá um trabalho danado.

JC - O senhor sempre trabalha sozinho?

Mi - Sim, trabalho aqui em casa e também na oficina.

JC - Quantas peças o senhor acha que já fez?

Mi - Acho que já fiz mais de cem peças. Dei muitas de presente no fim do ano para servirem de arranjo de flores. Muitas vezes fico até de madrugada mexendo nas peças, chego, começo a trabalhar e esqueço do tempo. Assim que termino uma, começo outra, por isso nem sei quantas peças faço por semana. Enquanto tiver madeira vou continuar fazendo.

JC - O senhor pensa em vender essas peças?

Mi - Não sei. Se um dia alguém se interessar até posso pensar em vender... também não posso ficar acumulando esse monte de peças aqui em casa. Mas na verdade gosto de dar as peças de presente.

JC - E uma exposição?

Mi - Isso sim, já pensei. Algumas pessoas já se interessaram em expor essas peças junto com arranjos de flores.

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