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Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

Cinemas faturam além das bilheterias

Texto: Patrícia Zamboni

A lucrativa bilheteria das salas de cinema - essa encantadora e secular magia chamada de sétima arte - está, cada vez mais, compartilhando os dividendos de exibidores de filmes de todo o País com a arrecadação das praças de alimentação localizadas (ou "bomboniéres"), aquele espaço reservado à venda de produtos como pipoca e refrigerante instalado na entrada de cinemas dos mais diversos portes. Provavelmente, quando os irmãos Lumiére lançaram o primeiro filme da história do cinema, na França, não imaginavam que os "comestíveis" seriam os principais companheiros dos cinéfilos. Contudo, não adianta mais usar de qualquer artifício ou justificativa para entrar numa sala de cinema levando o seu próprio "lanchinho"; você será barrado.

"Num cinema como o Cine Center, que fica dentro de um shopping, além de exibir o filme para o público nós queremos dar opções para que as pessoas fiquem mais dentro do que fora dos limites do cinema. Dentro de um shopping existem vários atrativos do setor alimentício, então, investindo na bomboniére o público é atraído. Além disso, aqui no Bauru Shopping, por exemplo, tem pipoca

à venda no corredor, mas nenhuma pipoca é igual

à do cinema. Às vezes eu levo milho daqui para fazer pipoca em casa e não fica igual", diz Rosinéia Vieira, gerente do Cine Center 1 e 2 e do Cine Bauru 1 e 2. Todas as salas de cinema da cidade pertencem à Empresa Cinematográfica Araújo, com sede matriz em Botucatu.

De acordo com a gerente, a arrecadação obtida com a comercialização de produtos da "praça de alimentação" instalada nos cinemas de Bauru varia de acordo com a época do ano. A média gira em torno de 10% do faturamento nessas praças em relação

à bilheteria. As melhores "safras" são durante as férias de janeiro e julho, quando as exibidoras projetam uma série de filmes infantis e arrastam para o cinema um batalhão de crianças que não sabem mais o que fazer para se distrair durante as intermináveis tardes de folga escolar. "Uma criança gasta muito mais do que um adulto. No shopping, como tem segurança, acontece muito dos pais deixarem o filho no cinema enqüanto fazem compras. Vamos supor que essa criança receba R$ 5,00 para ficar no cinema. Enqüanto ela não vê esse dinheiro acabar, não se dá por satisfeita", observa Rosinéia, mais conhecida como Néia pelas salas de cinema da cidade. Ou seja, o público infantil

é a maior fonte de arrecadação do setor de alimentação das exibidoras de filmes, pelo menos em Bauru. O público que menos consome, segundo a gerente,

é aquele formado por apreciadores de filmes de arte. "Quando nós exibimos filmes de arte, a venda de produtos na bomboniére

é baixíssima", afirma Rosinéia Vieira.

De acordo com ela, a arrecadação de 10% do setor de alimentação frente ao faturamento da bilheteria do cinema é o mínimo que se pode ter para que a exibidora não tenha prejuízo. "Se der menos de 10%, significa prejuízo. O cálculo médio que se faz é de que seja vendido pelo menos R$ 1,00 por pessoa a cada dia, para que no final de um mês se tenha lucro", explica a gerente. Segundo ela, nunca foi registrado um caso de prejuízo na praça de alimentação dos cinemas de Bauru. Pelo menos a cota mínima de 10%, sempre é atingida. Nas épocas de férias escolares, essa arrecadação chega a triplicar, segundo Rosinéia Vieira. Porém, ela observa que já houve tempos melhores.

"Já tivemos épocas melhores na arrecadação tanto da bomboniére quanto da bilheteria. O faturamento da bilheteria nas férias deste ano, por exemplo, ficou em 70% do total obtido no ano passado. Não foi o que esperávamos. Mas não é devido aos filmes exibidos, porque tínhamos filmes para todos os gostos, inclusive uma grande variedade de infantis. Acho que o problema é, realmente, referente a uma queda generalizada do poder aquisitivo da população, infelizmente", diz Rosinéia Vieira.

Reinvestimento

Diferente do destino que se dá ao montante arrecadado na bilheteria do cinema, os valores obtidos com as vendas na praça de alimentação são aplicados em melhorias no próprio setor e nos projetos de ampliação da exibidora. Segundo a gerente Rosinéia Vieira, recentemente a empresa Araújo - que também administra salas de cinema em Marília e Maringá - inaugurou mais duas salas no novo shopping de Marília, juntando-se às outras duas já existentes; e mais três salas no cinema de um shopping em Maringá, onde também já existiam outras duas salas pertencentes à Araújo.

"A Araújo é uma empresa grande, que está sempre investindo em melhorias e na ampliação dos cinemas que administra. Aqui em Bauru os projetos ainda estão parados devido à incerteza da instalação daquele megashopping aqui na cidade. Ainda não temos sinal verde para insvestir na ampliação dos cinemas aqui, mas temos dois projetos de salas de cinema de primeiro mundo, com tela gigante, como tem nos Estados Unidos, poltronas com suporte para pipoca e refrigerante, equipamentos digitais, entre outras novidades. De qualquer forma, a arrecadação da bomboniére

é para reinvestir na própria empresa", afirma Rosinéia Vieira.

O que se pode garantir é que entrar numa sala de cinema com, pelo menos, um saquinho de pipoca, se tornou um hábito. Mesmo os mais resistentes acabam sucumbindo à tentação de se deliciar com o sabor desse grão mágico, que se transforma dando piruetas no ar. A campeã de vendas nas praças de alimentação dos cinemas de todo o País continua resistindo a todas as novidades da grande "fábrica de guloseimas", que invade o mercado consumidor incansavelmente com a mesma voracidade de quem

"engole" uma pipoca atrás da outra durante um filme de terror.

A arrecadação com a bilheteria, geralmente é divida igualmente (50%) entre distribuidor e exibidor do filme. Se for um lançamento de sucesso, que irá gerar um grande faturamento, como o "Titanic", a distribuidora fica com 60% do total diário arrecadado. Estes valores são cobrados pelo aluguel da fita. Segundo a gerente Rosinéia, a Empresa Cinematográfica Araújo trabalha com distribuidores de filmes representantes dos maiores estúdios do mundo, como Fox, Warner e Columbia. O pagamento de impostos, encargos sociais, salários dos funcionários e o dinheiro investido na manutenção das salas de cinema de Bauru provêm da arrecadação da bilheteria. Atualmente, o Cine Center e o Cine Bauru trabalham com uma média de dez funcionários, tanto no shopping, quanto no centro da cidade. Segundo a gerente, o dinheiro que tem sido investido na manutenção das salas está sendo suficiente para colocar em prática os serviços necessários a essa área. Porém, quanto maior o faturamento, mais se pode investir. No Cine Center, por exemplo, parte dessa verba é destinada, mensalmente, ao pagamento do aluguel do prédio. Já o Cine Bauru está instalado em sede própria.

Grandes números

O setor de alimentação está sendo o grande negócio dos "gigantes" do ramo cinematográfico. Segundo dados já divulgados pela imprensa, aproximadamente 30% do faturamento dos grandes exibidores vem da praça de alimentação. Em grandes centros urbanos, a tendência

é o conceito multiplex, que consiste em salas de cinema com telas gigantes e som digital, sempre acompanhados por generosos espaços reservados à comercialização de produtos alimentícios.

Para este ano, está prevista a inauguração de 160 salas com sistema multiplex pelas quatro maiores empresas exibidoras do País: Severiano Ribeiro (o maior e mais antigo grupo brasileiro, fundado em 1917, em Fortaleza), e as multinacionais Cinemark, UCI e Hoyts. A Cinemark do Brasil prevê abrir, somente este ano, cinco multiplex, em São Paulo, Brasília e Santos. O objetivo é que 30% do faturamento total seja proveniente do setor de alimentação. Nos últimos anos, o grupo Severiano Ribeiro investiu R$ 25 milhões na abertura de 59 salas multiplex.

A expectativa dos gigantes é que a arrecadação advinda do setor de alimentação e publicidade (que ainda significa somente 3% do faturamento total) signifique cada vez mais dentro do faturamento global, na medida em que o número de salas inauguradas no País vai aumentando.

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