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Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

Preço do café no Exterior preocupa produtores

Texto: Paulo Toledo

A situação da cafeicultura nacional está, novamente, em dificuldades. Com os preços internacionais do café em cerca de US$ 100,00 (R$ 170,00) e uma falta de atenção do governo brasileiro com os problemas do setor, os produtores dizem que a situação mundial poderá se deteriorar, o que forçaria uma alta. Há setores que defendem um programa de retenção das exportações para aumentar os preços. Nesta semana, houve uma conversa entre Brasil e Colômbia, os dois maiores produtores mundiais, neste sentido, mas poucos acreditam que isso será levado a frente com seriedade. Porém, as lideranças são unânimes em criticar a atual equipe do Ministério da Agricultura, que cuida do setor cafeeiro.

Maurício Lima Verde Guimarães, 61 anos, presidente do Sindicato Rural de Bauru, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e membro do Conselho Deliberativo da Política Cafeeira (CDPC), destaca que a situação do cafeicultor voltou a ser crítica, com o café cotado a US$ 100,00 no mercado internacional. Ele destaca que não existe uma explicação estatística para isso, pois neste ano a safra do Brasil

- o maior produtor mundial - será novamente pequena, com a colheita de aproximadamente 26 milhões de sacas, contra as 40 milhões que eram esperadas. Além disso, não existe excesso de café no mundo, o que deveria estar mantendo o preço em um patamar mais alto.

O presidente da Garcafé, vice-presidente do Conselho Nacional do Café (CNC) e membro do CDPC, Manoel Vicente Fernandes Bertone, 45 anos, diz que o setor cafeeiro está em uma encruzilhada, em razão da quebra da produção prevista para este ano. Para ele, o mercado internacional demorou para acreditar o que está ocorrendo no Brasil o que provocou uma redução de preços, depois de uma pequena alta, trazendo para um nível incompatível para a oferta brasileira.

Bertone lembra que ocorreram, também, problemas na Colômbia, que viu sua produção cair de 12 milhões de sacas para 9,3 milhões de sacas, numa queda de 25%. "Isso somado, você passou de uma expectativa de mercado com excesso de oferta para um mercado de falta. A tendência dos preços era subir e se manter em patamares mais elevados, desde que a situação foi identificada. No entanto, isso não se confirmou e os preços caíram, vindo a níveis que são incompatíveis com a nossa produção e com os custos dos produtores", afirmou.

Um fator que vem colaborando para o preço em baixa no mercado internacional é o fato de países asiáticos, que produzem café da variedade robusta (de qualidade inferior

à variedade arábica produzida no Brasil), estarem com uma safra muito boa.

Bertone defende que a solução para a situação atual é um programa de retenção do café. Porém, destaca que esse programa não deve prejudicar os preços aos produtores nem se constituir em cota de exportação. Ele diz que há uma expectativa de que, neste ano, o País vá cumprir suas cotas de exportações, estabelecidas pela Associação dos Países Produtores de Café (APPC). "Mas, ele (o Brasil) cumpre se o programa for do tamanho dele. Se precisar fazer algum esforço para cumprir, não faz", destacou.

De acordo com Bertone, no ano passado, o País exportou 23 milhões de sacas de café, faturando US$ 2,443 bilhões. No ano anterior, foram exportadas 18,2 milhões de sacas e faturou US$ 2,6 bilhões, ou seja, em 1999, foi exportado 26,37% (4,8 milhões de sacas) a mais e se obteve um faturamento 6,04% (US$ 157 milhões) menor. "O Brasil deu 5 milhões de sacas para o mercado. Isso é que temos de evitar, procurar se ordenar. Daí a gente idealizar um programa de retenção", afirmou, destacando que a oferta regulada proporciona a obtenção de preços melhores.

Descaso

Lima Verde disse que existe um descaso total por parte do Governo Federal em relação ao café, tanto que o CDPC não é convocado a ser reunir há cerca de três meses. O vice-presidente da Faesp diz que estatísticas mostram que o País já perdeu cerca de US$ 1,5 bilhão em exportações de café, em razão da política cafeeira equivocada que vem sendo adotada.

Lima Verde diz que nenhum país produtor acredita que o Brasil vai o Brasil vai voltar a cumprir as cotas determinadas pela APPC, apesar do embaixador brasileiro em Londres, Sérgio Amaral, ser o presidente da entidade. "O Brasil não cumpriu no ano passado e vai continuar não cumprindo. Outros países, como El Salvador, que está querendo sair da associação, Colômbia, que se recusa a falar com o Brasil, acreditam que vai virar uma política de cada um para si", destacou.

Para Lima Verde, a previsão de safra da Embrapa, que é de 26 milhões de sacas, deixa os produtores brasileiros numa situação extremamente intranqüila, já que a quebra é de 14 milhões de sacas, ou seja, uma perda de 35% em relação à previsão inicial de 40 milhões, que daria a condição de um custo mais baixo de produção. Há o agravante, ainda, dos efeitos da alta do petróleo sobre os insumos do setor, o que aumenta a apreensão.

O vice-presidente da Faesp responsabiliza o governo pela política cafeeira desastrada que vem sendo adotada. Segundo ele, o fato das decisões sobre o setor terem saído do Ministério da Indústria e Comércio e passado para o Ministério da Agricultura foi péssimo. Ele diz que o ministro Pratini de Moraes resolveu parcialmente o problema da cana-de-açúcar, que também foi para o seu Ministério e deixou o café de lado. "Ele não reúne nosso conselho. Isso me lembra dez anos atrás, quando ele chamava alguns elementos para conversar, fazia um almoço, pensava que acertava, mas, no fim, no café existe uma realidade: ninguém tem liderança de nada. Porque, na hora que o governo determina, não se tem força para poder se defender", afirmou.

Bertone, por outro lado, diz que há uma inconstância em relação à política cafeeira. Para ele, cada ministro que entra troca a equipe. Com isso, os novos membros não sabem o que vinha sendo realizado ou não concordam e acabam alterando tudo. Para ele, a solução que se esperava era uma atuação constante e decisiva do CDPC, que seria a garantia da manutenção das políticas. Porém, como o ministro não tem acionado o Conselho, o órgão não tem funcionado como deveria, perdendo a constância na formulação das decisões.

Bertone diz que o quadro é bom, fácil de administrar, porque é de escassez. Ele diz que fica imaginando como seria uma safra de 40 milhões de sacas na mão dos atuais detentores da política cafeeira. "A quanto estaríamos vendendo o café? Iria baixar muito mais. Agora, esses irresponsáveis, que acham que tem que vender por qualquer preço, na hora que o preço cair depois que a gente vender, aí eles perdem o emprego deles e nós produtores que vamos ficar pagando o preço da incompetência deles", afirmou.

Tendência

Para Bertone, o caminho prático para sair da atual situação

é a adoção de um programa de retenção, que seria usado à medida da necessidade. "O Brasil tem que ordenar sua oferta. Fazendo esse programa recupera", destaca.

Lima Verde que não acredita que o Brasil cumpra metas de programas de retenção, por outro lado, disse que o preço do café só vai subir se tiver uma previsão de um frio intenso no Brasil a partir abril. Isso porque esse clima pode prejudicar, novamente, a safra do próximo ano, o que provocaria uma situação de maior dificuldade no mercado internacional.

Hoje em dia, o Brasil exporta entre18 e 20 milhões de sacas de café por ano e consome por volta de 11 milhões, ou seja, a produção necessária é de aproximadamente 32 milhões de sacas/ano. No ano passado, safra considerada de ciclo baixo, foram colhidas 22 milhões de sacas. Neste ano, que seria o ciclo de alta, ou seja, com potencial para 40 milhões, serão produzidas apenas 26 milhões.

"De onde sai o resto? Sai dos leilões dos estoques do governo. Mas, daqui a pouco, seca essa fonte e não vai ter mais jeito. Atualmente, entre governo e Funcafé existe um estoque entre 6 e 7 milhões de sacas de café antigo, que vêm sendo leiloadas. Então, a situação está difícil. Sempre tivemos um tratamento político diferenciado, para o lado bom. Hoje estamos tendo um tratamento político diferenciado para o lado ruim", afirmou.

Em termos de produção, a expectativa dos produtores

é de que, no ano que vem, se tenha uma safra melhor do que a de 99/2000. Porém, isso só vai se confirmar após o inverno, pois a cultura é influenciada, além das geadas, pela seca e pela baixa temperatura, que podem provocar uma redução na quantidade da colheita.

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