O mestre
Texto: Gustavo Cândido
Atleta há vinte anos e professor há cinco, Marcelo Barbosa foi quem trouxe o jiu-jitsu para Bauru. Na sua academia, onde treina dezenas de alunos em cursos sobre a arte marcial e defesa pessoal, Barbosa está desenvolvendo um trabalho inédito com a inclusão de especilistas como psicóloga e terapeuta, na formação dos atletas. Ele falou sobre o assunto e sobre o jiu-jitsu para o Caderno Ser.
Jornal da Cidade - Quem teve a idéia de ter uma psicóloga e um terapeuta para trabalhar com os atletas?
Marcelo Barbosa - Fui eu quem pensei que precisávamos de um suporte profissional para as competições. Eu participo de competições de nível internacional e preciso de uma estrutura. Acabei estendendo esse serviço para os alunos da academia. Procurei profissionais especializados nas áreas que a gente precisa: nutrição, condicionamento físico e psicológica.
JC - A psicologia serve exatamente para que?
Marcelo - A psicologia é muito importante, principalmente para o professor de uma arte marcial, porque chegam pessoas muito inibidas aqui e a gente precisa soltá-las, chegam pessoas muito extrovertidas e nós precisamos controla-las. Como professor eu procurava aplicar alguma coisa com os meus alunos, mas achei melhor chamar uma profissional de psicologia esportiva para aprofundar mais o assunto. A psicologia deixa o atleta mais confiante, menos inseguro, principalmente na hora das competições.
JC - Quantas pessoas estão tendo esse apoio na academia?
Marcelo - Estamos oferecendo esse trabalho para todos os alunos que entram na academia, mesmo os que não participam de competições. Se sentirem necessidade de conversar com a psicóloga, ou falar com a terapeuta, tudo bem. Mas esse serviço está mais voltado para o pessoal que compete, no total são umas 40, 50 pessoas.
JC - Os lutadores de jiu-jitsu não têm uma boa fama por causa da inúmeras confusões e brigas envolvendo os praticantes deste esporte. A psicologia atua também trata disso?
Marcelo - A maioria das pessoas começa a fazer jiu-jitsu para brigar na rua mesmo, para causar confusão. É por isso que a gente tem de saber quem entra na academia, tem de acompanhar o seu desenvolvimento para saber se ela está dentro do nosso perfil. Se não tiver a gente tem de dispensar ela da academia. A gente não ensina como é possível machucar uma pessoa para qualquer um, porque ele pode fazer um uso errado disso. Geralmente quem pratica jiu-jitsu já vem de outra arte marcial, não são leigos no assunto, por isso temos que saber bem quem são as pessoas. Nas capitais os praticantes de jiu-jitsu têm um registro na federação para que não se envolvam em confusões na rua, caso alguma coisa aconteça ele pode ser facilmente encontrado. O que determina a atitude é a índole da cada um e não a academia, já trabalhei com ex-presidiário, com gente que brigava na rua, todos começaram a se controlar mais. Nunca presenciei um caso de um aluno que entrasse na academia e se tornasse um problema. E eu já praticou artes marciais há 20 anos.
JC - Existem muitas academias que não se importam se estão formando brigões ou não?
Marcelo - Exatamente, o problema da academias é que hoje o comércio é muito grande porque existe uma procura muito grande, todo mundo que saber se defender. Nessa onda surgiram muitas academias no Brasil todo, com falsos profissionais, pessoas que não têm nem condições de ensinar estão ensinando. São pessoas que não sabem nem socorrer um aluno caso haja algum problema, muito menos trabalhar o seu lado psicológico. Isso gera várias situações de violência. Muitas vezes ouvem dizer que a briga foi causada por um lutador de jiu-jitsu, não foi, foi por um cara que fez jiu-jitsu por dois, três meses, parou e saiu para brigar na rua. Um cara que treina sério, duas, três vezes por semana, não vai sair na rua para brigar. Ele tira todo o estresse aqui dentro da academia.
JC - Toda arte marcial tem um fundamento filosófico, uma lição para a vida, não só para a defesa pessoal. Qual é o objetivo do jiu-jitsu?
Marcelo - É trabalhar a pessoa, deixando ela com uma personalidade forte para ser uma vencedora dentro e fora os tatames, além de ser uma forma de se defender.
JC - O jiu-jitsu é uma arte de defesa?
Marcelo - Toda arte marcial foi criada para a auto-defesa, para você se defender de um suposto ataque. Não é correto desenvolver a técnica só para atacar, só para agredir as pessoas.
JC - Quais são seus títulos como atleta?
Marcelo - Sou campeão paulista do ano passado, sou campeão interestadual, quinto colocado no brasileiro de 97, tricampeão de vale tudo, campeão do internacional championship de luta alternativa e campeão mineiro de vale tudo na categoria absoluto e mais alguns título. Esse ano estou sendo convidado para disputar mais dois campeonatos no exterior, o Ultimate Championship e o Extreme Challenge. No próximo mês também vou disputar o Pan-americano na Flórida.
JC - Como é trabalhar com jiu-jitsu em Bauru?
Marcelo - Estou fazendo um trabalho pioneiro em Bauru, fui eu quem trouxe o esporte para cá, mas a gente ainda não conta com o apoio grande de ninguém, nem da prefeitura.
JC - Você acha que é por preconceito?
Marcelo - Exatamente, muitas vezes fui buscar patrocínio em empresas de Bauru, algumas me receberam bem e deram ajuda outras nem quiseram saber. O lutador hoje fica meio desacreditado por causa dessas confusões com lutadores de jiu-jitsu, como o caso mais recente do Gracie.
JC - O trabalho na sua academia também visa reverter esse quadro?
Marcelo - Exatamente, o trabalho que a gente faz na academia
é de educar e não de criar um brigão.
JC - O lutador de jiu-jitsu deve aprender a se controlar mais do que as outras pessoas na rua, justamente por ter essa capacidade de ferir alguém?
Marcelo - Sim. Eu, por exemplo, não freqüento a noite, mas sempre que saio tenho o azar de alguém esbarrar em mim, derrubar alguma bebida ou me queimar com cigarro, sem querer. Que são coisas comuns. Tem pessoas que esbarram de propósito e ficam encarando só para arrumar confusão, eu saio de perto, vou embora. É isso que os lutadores têm de fazer, têm de saber que se eles forem se envolver em brigas, podem machucar alguém muito seriamente, por isso precisam se controlar e passar por cima desses incidentes. Por mais que uma pessoa te provoque, ela não sabe o quanto
é despreparada, ela pensa que é forte, mas um atleta está sempre treinando, enquanto quem está na noite está lá para se divertir, beber e mexer com os outros.
É preciso ter essa consciência e saber cortar voltas.
A história do jiu-jitsu
"O jiu-jitsu veio da Índia e é o pai e a mãe das artes marciais japonesas como o karatê e o judô", conta Marcelo Barbosa. Segundo ele, a arte marcial foi escondida a sete chaves nos templos budistas porque visava dominar um elemento sem que se precisasse sangrá-lo ou causar grandes ferimentos. Para resumir é o uso de chaves de articulações e imobilização para parar o adversário. O objetivo era se defender de ataques e imobilizar o inimigo. O esporte chegou ao Brasil na década de 40, trazido do Japão por um diplomata, foi ele que ensinou o esporte aos irmãos Gracie, que divulgaram a técnica e tornaram o esporte famoso no País.