Fim da tarifa social duplica conta da CPFL
Texto: Márcia Buzalaf
A conta da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) causou muita confusão na porta da empresa durante o dia de ontem. Os consumidores reclamavam o valor da conta de abril que receberam, que em muitos casos cobrava mais do que o dobro dos meses anteriores.
A empresa apenas informa que o aumento das contas é devido
à cassação da liminar da Justiça Federal de Bauru, que garantia desconto aos consumidores que se enquadravam na tarifa de baixa renda, chamada tarifa social (veja o que isso significa no quadro ao lado). O Sindicato dos Energéticos de São Paulo (Sinergia-CUT) estima que 30 mil bauruenses foram excluídos da categoria de baixa renda para a CPFL.
Com o subsídio da tarifa social, vários consumidores partiram para a porta da empresa para questionar os valores que receberam. As diferenças entre os meses de março e abril são gritantes e, em algumas contas, maiores do que 100%.
A maior dificuldade das pessoas que estavam na fila era entender o porquê do aumento da conta de energia elétrica. Vários consumidores afirmavam que, mesmo depois de serem atendidos pelos funcionários da CPFL, não sabiam o motivo do aumento - só que teriam que pagá-lo.
A empresa distribuiu senha para os consumidores, mas a segurança insistiu que teria que fechar a porta às 16 horas - fim do horário para o atendimento. Os consumidores se colocaram diante da porta para tentar impedir o fechamento dela, já que a sala de atendimento da empresa estava lotada e quente.
Exemplos
Os casos de contas que dobraram o valor eram muitos, mas alguns chamavam a atenção. É o caso de Ana Beatriz Cortez de Agostinho, 19 anos, que recebeu uma conta de R$ 125,00 em abril, sendo que, em março, pagou R$ 7,50. "Eu mudei para a casa há um mês. Aí, me disseram que eu devia pagar R$ 6,70 para ficar em dia. Depois, veio um de R$ 7,50, e eu paguei também. Mas esse de R$ 125,00... Como é que a gente paga isso se ganha um salário mínimo", questiona.
O porteiro José Pereira Pinto, 47 anos, também reclamava a conta de R$ 40,00 que recebeu em abril. Em março, a energia elétrica custou, para ele, R$ 17,00. "Eu sempre pago R$ 17,00, R$ 19,00, até R$ 21,00 eu já paguei, mas R$ 40,00 é um absurdo. O que eu ganho já é pouco, um sacrifício para a gente pagar", lamenta.
Outro caso grave foi de Emanuel Pereira da Silva. Na conta de dezembro, ele pagou R$ 28,20 por 174 kWh; em janeiro, sua conta foi de R$ 25,90; em fevereiro, R$ 27,10; em março, R$ 27,80 por 194 kWh; e, este mês, recebeu uma conta de R$ 47,90.
"Pelo que eu calculei, o aumento foi de mais ou menos 71%. Quem tem este aumento no salário?", questiona.
O reverendo Nelson Barbosa, 42 anos, também reclamava seus direitos. Segundo ele, a conta de março foi de R$ 21,00 e, este mês, subiu para R$ 56,70. Adelson Lopes da Silva, 37 anos, frentista de posto, diz que passou a pagar R$ 30,30, sendo que, em março, pagou R$ 15,70.
A dona de casa Eulália Aparecida da Silva, 47 anos, garante que não mudou em nada o consumo da sua casa nem comprou equipamentos novos, mas, mesmo assim, viu sua passar de R$ 27,30 em março para R$ 60,20 em abril. "Eu não tenho máquina de lavar, eu não tenho nada. Só tenho televisão e geladeira", afirma.
A maioria das pessoas afirma que passa o dia todo fora de casa, o que faz com que o gasto não tenha se alterado. Sinivaldo de Jesus Labela, 29 anos, gráfico, afirma que passou a pagar R$ 28,00 em abril, sendo que no mês anterior havia pago R$ 19,90. "Sou só eu e minha esposa, e a gente tenta gastar o mínimo", alega.
Omissão privada
A assessoria de imprensa da CPFL se limitou a enviar uma nota dizendo que a empresa conseguiu, na Justiça, o direito de suspender a tarifa de baixa renda. Isso, o próprio JC já noticiou na última sexta-feira, dia 7. A empresa não quis informar o número de reclamações que recebeu ontem nem nos últimos dias, alegando que não tem estes dados.
O QUE É O CONSUMIDOR DE BAIXA RENDA
Para a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), o consumidor de baixa renda é aquele que tem a ligação monofásica, gasta, mensalmente, 220 kWh e tem um conjunto de equipamentos que soma 4 mil Watts, sendo que qualquer chuveiro está limitado a 2,5 mil Watts.
Isso significa que o consumidor, para ser considerado de baixa renda, não pode ter mais do que quatro lâmpadas de 60 Watts, um ferro elétrico, um aparelho televisor, uma geladeira e um chuveiro.
Tarifa aumenta mais em maio
Vale a pena lembrar que todos os consumidores da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) - ou seja, toda a população que usa energia elétrica - terão a tarifa reajustada em 6,98% na conta de maio deste ano. O reajuste foi autorizado em abril, mas será cobrado na conta do próximo mês.
O aumento de quase 7% é justificado pela empresa como sendo o repasse do aumento de vários tributos, contribuições, taxas e da inflação.