Cheiro de enxofre no ar pode acabar
Texto: Fabiana Teófilo
Nem todo odor desagradável que se sente na região sai da Lwarcel mas sabe-se que parte dele é produzido pela empresa
A fábrica de celulose Lwarcel, localizada às margens da rodovia Marechal Rondon, em Lençóis Paulista, está iniciando um projeto para tentar minimizar o odor desagradável exalado no processo de fabricação que incomoda a população vizinha. O investimento de, aproximadamente, R$ 40 milhões, é para trocar um dos principais equipamentos de produção da fábrica.
De acordo com o diretor industrial da Lwarcel, Carlos Renato Trecenti, a fábrica trabalha, atualmente, com dois fornos de recuperação química, que serão substituídos por uma caldeira de recuperação química. "O coração da fábrica será substituído por um equipamento novo", afirmou.
Trecenti disse que, com a caldeira, o odor exalado pela fábrica irá diminuir consideravelmente. "Não podemos garantir 100%, porque qualquer fábrica produz odores, mas, certamente, não incomodaremos mais a população", explicou.
Ele afirmou que a Lwarcel admite que incomoda as pessoas que vivem na região, pelo mau cheiro que causa durante seu processo de fabricação, mas explicou que a fábrica tem uma preocupação com esse problema e trabalha constantemente tentando minimizar o cheiro.
De acordo com o gerente da Agência Ambiental de Bauru da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Rogério Chini, mesmo sabendo que a empresa possui uma preocupação com o odor excessivo, a Cetesb tem que aplicar a legislação, porque é um
órgão do Governo do Estado.
Chini disse que a punição para a fábrica quando o cheiro chega em Bauru e há reclamação por parte da população, pode ser de uma advertência até multa. O valor da multa é calculado em Ufesp e pode variar de 10 a 10 mil Ufesps. Esse valor equivale, atualmente de R$ 93,00 a R$ 93 mil.
Disque-denúncias
As denúncias e reclamações da população que se sente incomodada segundo Chini, são feitas através do telefone gratuito 0800-113560.
Após a denúncia, técnicos da Cetesb, depois de constatar a presença do cheiro na cidade, entram em contato com a fábrica e, em alguns casos, aplicam a punição.
Chini explicou que a Lwarcel é uma empresa prioritária para a Cetesb e o órgão a fiscaliza periodicamente.
"Já sabemos que a empresa tem um projeto para solucionar esse problema e também sabemos o que a empresa já fez para melhorar, mas cumprimos o nosso papel e a população não pode ser incomodada", disse.
Ele afirmou, ainda, que o gás liberado pela Lwarcel não
é toxico e, portanto não faz mal à saúde.
"O único problema é o cheiro que incomoda", disse.
Trecenti explicou que recebe telefonemas quando o cheiro está mais forte e, quando isso acontece, os funcionários da fábrica realizam uma checagem em todos os equipamentos, se não encontram falhas, o procedimento da fábrica
é diminuir a produção com o objetivo de diminuir o cheiro. "É claro que com isso temos um certo prejuízo, porque cai a produção, mas esse também é o nosso trabalho, afinal de contas, nossa região acolhe nossa empresa há 13 anos", disse.
O projeto da troca dos fornos leva algum tempo para ser colocado em prática. Trecenti disse que pode demorar de dois a três anos. O motivo é que a caldeira, além de ser muito grande, 43 metros de altura (equivalente a um prédio de 20 andares), deve ser construída na própria fábrica.
"Nós vamos comprando as peças e montando a caldeira aqui mesmo na Lwarcel, por isso o processo é lento e também dependemos de fornecedores que, às vezes, atrasam na entrega das peças", contou.
A Lwarcel utiliza o processo de fabricação chamado
"kraft". Esse processo é utilizado também pelos maiores produtores de celulose do mundo, segundo Trecenti. A etapa fundamental do processo é o cozimento da madeira em uma solução de soda cáustica (NaOH) e sulfeto de sódio (Na2S). Esse processo, segundo Trecenti,
é o melhor existente e garante a boa qualidade do papel, produto final feito através da celulose.
Cheiro característico
O problema do odor, de acordo com Trecenti, é que o sulfeto de sódio, utilizado no processo "kraft", tem como elemento químico o enxofre, que é o elemento que produz o cheiro desagradável. "O olfato humano
é muito sensível ao odor do enxofre e por isso a população sente tanto", explicou.
Trecenti fez uma observação que nem todo mau cheiro que se sente em Bauru é produzido pela Lwarcel. "O odor da Lwarcel é característico e não é todo odor que está relacionado com a fábrica. A Lwarte produz esse odor forte esporadicamente", afirmou.
De acordo com Chini, os técnicos da Cetesb sabem quando o odor vem da Lwarcel, por ser um cheiro característico.
"Já conhecemos o cheiro e também pela região da cidade de onde vem a reclamação podemos constatar que é da Lwarcel", afirmou. Ele disse que, geralmente, o odor que se sente no Altos da Cidade e Jardim América
é da Lwarcel.
Trecenti explicou, também, que, nas concentrações em que os compostos odoríferos se encontram no ambiente da fábrica e nas comunidades vizinhas, os odores não representam risco à saúde.
Clima influência
O fator que mais altera a intensidade do odor na região
é a condição climática, segundo Trecenti. Ele explicou que o clima, algumas vezes, é muito desfavorável
à dispersão dos gases, principalmente em períodos de inversão térmica. A fábrica, de acordo com Trecenti, trabalha da mesma maneira 24 horas por dia, o ano todo. Ele explicou que o odor é sentido esporadicamente em momentos em que as condições climáticas são muito desfavoráveis, ou por eventuais problemas de controle, por falha humana ou de equipamentos.
A Lwarcel utiliza a madeira do eucalipto para produzir a celulose. De acordo com Trecenti, o eucalipto, que leva sete anos para crescer, possui uma excelente madeira para os tipos de papéis que mais se utiliza.
O eucalipto utilizado pela Lwarcel é plantado pela própria empresa. "Plantamos seis milhões de árvores por ano, num raio, em média, de 50 quilômetros em relação à fábrica", disse.
A celulose
A celulose não se fabrica, ela já existe nos vegetais e na madeira. O processo de uma fábrica de celulose é liberar a celulose presente na madeira, em forma de fibras que são coladas com ligninas e resinas.
Para liberar a celulose se usa um processo de cozimento da madeira, onde se remove a resina e libera as fibras que serão usadas para fazer o papel. No cozimento é onde se mistura os compostos químicos soda cáustica (NaOH) e sulfeto (Na2S) com a madeira, nesse caso do eucalipto. A celulose então se solta, mas fica misturada com esses compostos, formando um líquido chamado de licor negro, devido a sua cor.
As fibras liberadas vão para outro processo de lavagem e branqueamento para produzir um tipo de papel. O licor negro
é composto de uma fração inorgânica que são os compostos químicos e outra fração orgânica que são a lignina e as resinas das árvores. Nos fornos de recuperação ou na caldeira, esse licor
é queimado. A parte orgânica se queima gerando energia elétrica para a fábrica. Essa energia, que sai através de vapor, pode ser usada como forma de combustível. A parte inorgânica não queima e é liberada se separando do licor e assim é recuperada, podendo ser reutilizada.
Esse processo evita o impacto ambiental, porque o inorgânico, ou seja, os compostos químicos, é recuperado e reutilizado e não é necessário que seja descartado no meio-ambiente.
A fase de queima do licor, nos fornos de recuperação
é a principal causa de emissão de compostos de enxofre, onde se libera o odor que incomoda a população.
Trocando os fornos pela caldeira de recuperação, a queima do licor deve ficar estável e controlável, aumentando a qualidade da queima e diminuindo o odor exalado.
Esse é o objetivo da Lwarcel ao trocar os atuais fornos pela caldeira, mantendo uma melhor qualidade da queima para diminuir o odor.