Tratamento: alto custo e efeitos colaterais
Texto: Sabrina Magalhães
Já existe vacina contra as hepatites A e B. Mas o Governo só oferece a imunização de graça para grupos de risco e crianças com menos de um ano
"Tanto para a hepatite B quanto para a C, no caso dos portadores assintomáticos, o tratamento é feito com um medicamento caro, com inúmeros efeitos colaterais e com uma chance de sucesso que gira em torno de 20% a 50%", observa a infectologista Denise Arakaki. Segundo ela, é um tratamento longo, que dura de 6 a 18 meses, com três aplicações semanais do medicamento. Portanto, um tratamento muito difícil de ser administrado e concluído.
"Às vezes o próprio médico tem que interromper o tratamento por causa dos efeitos colaterais. Outras vezes é o paciente que desiste pelo mesmo motivo. Um trabalhador, por exemplo: o dia que você dá a medicação, ele pode ficar incapacitado para o trabalho. E aí, como
é que ele vai faltar ao serviço três vezes por semana por até um ano e meio? A empresa não consegue absorver esse funcionário. Ela não tem capacidade financeira para isso."
Segundo a médica, é comum nos consultórios o paciente pedir para postergar o tratamento, dando prioridade ao sustento da família. Ele sabe que o desemprego é uma ameaça, então, prefere arriscar a progressão da doença, que é lenta, mas manter o emprego.
Vacinas
Por outro lado, contra os dois principais tipos da doença, as hepatites A e B, existem vacinas bastante eficazes. A vacina contra a hepatite A tem 94% de eficácia, quando administrada em duas doses, com um intervalo de duas semanas. Os efeitos colaterais são febre baixa e dor no local da aplicação.
Já a vacina contra hepatite B pede três doses, com intervalos de um e seis meses respectivamente. Esta é indicada inclusive para crianças com menos de um ano de idade. Por ser feita através de reengenharia genética, tem eficácia de 95% e raramente apresenta reação. Além de imunizar contra o HBV, ajuda a evitar também a hepatite D, que só aparece associada à primeira.
Mas por serem caras (cerca de R$ 65,00 cada dose), o Governo só oferece as vacinas gratuitamente para pessoas inclusas em grupos de risco. Portanto, fazem parte do calendário oficial de vacinação de crianças menores de um ano de idade. E são administradas a todos os profissionais de saúde que lidam diretamente com sangue dos pacientes, como médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, bombeiros, etc.
Além disso, esta vacina é recomendada para pacientes que são submetidos à sessões de hemodiálise, onde é necessária a transfusão de sangue, para quem vai fazer transplante de órgãos, para pessoas que precisam receber sangue.
"E se uma pessoa descobrir ser portadora do vírus depois de doar sangue, seus familiares passam por testes e aqueles que não estiverem contaminados também ganham a vacina", comenta Arakaki.
Questionada, a médica explicou que não há um consenso sobre o tempo de duração desta vacina e da necessidade de reforço. Ela afirma que há estudos que determinam dois anos para revacinação e outros que determinam o reforço só em dez anos.
Prevenção
Além das vacinas, alguns cuidados ajudam a prevenir a contaminação por hepatite. No caso da de tipo A, é preciso cuidar da higiene, principalmente da água e dos alimentos, que devem ser muito bem lavados ou cozidos.
Já para os demais tipos de hepatite, a orientação
é manter hábitos saudáveis de vida, não compartilhando agulhas e seringas, adotando a prática do sexo seguro, reduzindo o número de parceiros e instituindo o uso de preservativo sempre.
Paralelamente a isso, outros cuidados são importantes, como não partilhar escovas de dentes, próteses dentárias, lâminas ou outros objetos de higiene pessoal que possam conter sangue e proteger as feridas e úlceras da pele para evitar possíveis contaminações.
Vale lembrar que um grande problema para o portador de hepatite
é o preconceito social. A doença não é transmitida pelo ar, portanto não há perigo de contágio por espirro ou tosse, nem pelo abraço ou beijo. Da mesma forma, não existe risco de transmissão pelo uso coletivo de pratos, talheres ou copos. Só o contato com sangue contaminado ou a ingestão de água e alimentos contaminados com a urina ou fezes de um doente é que representam riscos.
O fígado e suas funções
Parte do aparelho digestivo, o fígado é o maior
órgão do corpo humano. Sua importância, no entanto, vai muito além do processo de digestão. Ele é responsável por aproximadamente 5 mil funções vitais.
Além de fabricar a bílis, que atua na dissolução de gorduras, o fígado mantém as taxas de glicose
(açúcar) equilibradas e armazena substâncias essenciais para o bom funcionamento do organismo, como o ferro. Além disso, tem a função de renovar as hemácias
(glóbulos vermelhos) e retirar do sangue todas as impurezas, eliminando os resíduos com a formação da uréia.
Essa glândula também desempenha um papel fundamental na decomposição do colesterol e de medicamentos, na produção de hormônios e na sintetização de várias enzimas que intervêm no metabolismo.
Devido a tantas funções, quando o fígado adoece, todo o organismo fica seriamente prejudicado. Manter esse
órgão saudável, portanto, é mais que essencial.
Fonte: Revista Assefaz
Outros tipos
Febre negra é como ficou conhecida a hepatite D, causada pelo HDV, um vírus altamente dependente, que só infecta um indivíduo que já seja portador da hepatite B. Portanto, são os mesmos sintomas, as mesmas formas de prevenção, transmissão e tratamento. Este tipo de hepatite, no Brasil, é considerado endêmico na região amazônica, onde há um alto índice de portadores assintomáticos, com 90% de casos crônicos. Nos demais estados, a incidência é muito rara.
Mas estudos recentes estão identificando outros tipos de vírus que também causam inflamação no fígado. A chamada hepatite E foi encontrada em vários países, mas sempre associada a condições precárias de saneamento básico, com vias de transmissão bastante parecidas com as da hepatite A. Da mesma forma, há registros de hepatite F e G, mas ainda sem comprovações científicas.
"Em termos de hepatite, ainda estamos engatinhando", afirma a infectologista Denise Arakaki. Além de ser preciso buscar uma vacina para estes "novos" vírus, é preciso ainda buscar um tratamento mais acessível, com menos efeitos colaterais e com maiores chances de sucesso.