Geral

Pressa

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Síndrome da pressa

Texto: Gustavo Cândido

Quem não se lembra do coelho que vivia correndo de um lado para o outro no clássico desenho animado de Walt Disney,

"Alice No País das Maravilhas"? Toda vez que era parado, o simpático coelho apenas olhava para o relógio de bolso, repetia: "é tarde, é tarde, é tarde" e logo saia em disparada para outro lugar. Sem perceber, muitas pessoas se tornaram verdadeiros "coelhos da Alice" e vivem correndo de um lado para o outro, se revezando em mil atividades, sempre morrendo de pressa. Se por um lado, toda essa correria pode ser justificada pelo ritmo de vida agitado da cidade ou pela necessidade constante de batalhar pelo sustento, por outro,

é possível notar que muitas vezes a pressa na realidade

é uma construção imaginária, com a qual a pessoa se acostuma.

Quem confessa ter essa pressa imaginária às vezes,

é o vendedor Gilvan Nogueira Slaghanoufi, que diz estar sempre correndo e até já incorporou no seu dia-a-dia uma forma de andar mais rápida do que o normal. "Às vezes vejo que corri para fazer uma coisa que poderia ter esperado um pouco. É como aquela expressão de colocar a carroça na frente dos bois", explica. Para o vendedor, o trabalho

é maior razão da pressa, "é aquela ânsia de ganhar dinheiro, todo mundo acaba correndo", justifica. Apressadinhos também são o serigráfico Jair Galdino, que diz ter sempre pressa porque faz tudo sozinho e Elis

Ângela Umbelino Costa, que "sempre foi apressada na vida".

A pressa pode ser definida como agir com rapidez, ligeireza, velocidade.

É estar sempre com a sensação de que precisa resolver urgências, estar aflito ou apertado em relação ao tempo, como se 24 horas não fossem suficientes em um dia. Para o psicólogo e psicoterapeuta José Luis Cremonesi, a pressa é uma característica dos dias atuais. Num mundo onde estar informado é fundamental para se adequar às exigências sociais e do mercado de trabalho, quando as informações são cada vez mais crescentes e consideradas cada vez mais essenciais à vida social, as pessoas correm para não ficar sempre atrasadas em relação ao conhecimento, sempre devendo algo para se manterem atualizadas.

Cremonesi lembra que antigamente as crianças aprendiam o necessário para viver bem na escola e hoje já são obrigadas a estudar inglês, espanhol, computação, além de fazer um esporte ou alguma atividade artística. Ou seja: já cresce com pressa. "São tantas responsabilidades e afazeres que mal sobra tempo para a criança brincar. Essa cobrança continua na vida adulta, onde são exigidos dos profissionais cada vez mais para que não fiquem ultrapassados", diz o psicoterapeuta.

A psicóloga Elaine Olmo acredita que a tensão da vida moderna acabou transformando as pessoas em "robôs", que cumprem horários pré-estabelecidos e rigorosos, obedecendo sempre a um mesmo padrão. "Acabamos por executar comportamentos repetitivos sem parar para analisar as suas conseqüências. Esse corre-corre influencia o diálogo familiar, ocasionando danos imperceptíveis num primeiro momento, mas que no futuro poderá ocasionar um comprometimento sério nos relacionamentos, onde se acaba valorizando mais os bens materiais do que os relacionamentos", afirma.

Fuga e atenção

Existem porém, outras explicações para a pressa que não estão relacionadas à pressão da sociedade consumista ou ao trabalho.

A pressa, a necessidade de chegar a algum lugar ou atingir um objetivo antes de todos, pode ser uma forma de fuga, ou de esconder algum sentimento que possa se tornar consciente, diz Elaine Olmo. A psicóloga cita o exemplo de uma dona de casa que se entrega totalmente ao trabalho doméstico, sente-se uma escrava do trabalho, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de estar sempre se ocupando com alguma coisa. "Cada pessoa possui um ritmo de vida, quando extrapola, torna-se preocupante", explica Elaine Olmo. A pessoa que arruma mil coisas para fazer, sobrecarrega-se de atividades, pode estar armando-se de defesas para fugir de ameaças (seus conflitos psíquicos), para não ter de enfrentá-los", salienta.

Outra possibilidade apontada pela psicóloga, é que a necessidade de estar sempre fazendo algo e conseqüentemente estar sempre com pressa, pode estar relacionada com a necessidade de chamar a atenção, de se fazer perceber como sendo uma pessoa dinâmica por necessidade de aceitação das pessoas.

Para Elaine Olmo o sentimento de punição também pode aparecer em pessoas que não se permitem o descanso, fazendo que a pessoa fique em um círculo vicioso, pois

é um meio de não sentir-se angustiado e punir-se por algum sentimento de culpa. "Por outro lado pessoas que não se permitem lazer e dão sempre a desculpa de estarem ocupadas e com pressa para não fazer algo, podem ser pessoas com baixa auto-estima, insegurança e problemas emocionais, que fazem com que elas queiram se isolar do mundo. Em todos esses comportamentos, existe uma ansiedade ocasionando os sofrimentos", afirma Elaine Olmo.

Alta ansiedade

Incorporar a pressa no seu dia-a-dia e acreditar que é preciso estar sempre correndo para conseguir alguma coisa, mesmo que isso não seja verdade, pode ser um sinal de ansiedade.

"Eu acho que sou uma pessoa ansiosa, sempre fico preocupada em fazer as coisas bem rápido, quando lá no fundo sei que elas poderiam demorar um pouquinho", conta a bancária Karina Vieira.

José Luis Cremonesi diz que a pressa é pano de fundo da ansiedade, como explica Frederick Perls, autor da Gestalt-terapia: a ansiedade é um vácuo entre o passado e o futuro, toda vez que estamos no presente, com o nosso pensamento no futuro que imaginamos, querendo trazê-lo para o presente, estamos ansiosos. "Um certo grau de ansiedade é saudável, uma vez que nos leva a planejar coisas e nos motiva para as atividades a serem vividas", diz Cremonesi. Mas o psicoterapeuta destaca que a "ansiedade neurótica", tira as pessoas do foco de equilíbrio, diminuindo o contato com a realidade presente e gerando até problemas físicos, como gastrite,

úlcera, dores de cabeça e até problemas no coração.

Vencendo a pressa

Cremonesi destaca a importância de refletir sobre a administração do tempo no dia-a-dia para vencer a pressa. De acordo com o psicoterapeuta,

é preciso diferenciar o que é realmente urgente, do que pode ser deixado para depois, para que o tempo possa ser ocupado por algo de alguma importância real e se evite ficar atropelando todas as atividades como se elas fossem urgentes.

"O que é importante para uma pessoa pode não ser para outra, e é preciso refletir em até que ponto o sucesso pessoal ou profissional, depende de tanta informação vinda de dentro para fora", diz Cremonesi. Outra questão

é verificar até que ponto o "eu tenho que"

é o mesmo do que o "eu quero". A primeira alternativa escraviza e a segunda liberta. A pressa muitas vezes é o conjunto de imposições sociais que não julgamos importantes, mas que "temos que" dar conta.

"Sem pressa não tem jeito"

É o que diz o garçon Elias Sanches, que trabalha em uma churrascaria da cidade nos fins de semana. Nesse caso sua pressa é até justificável, "tenho que atender um número absurdo de clientes por mesa e não posso demorar". Elias, que é garçon há 5 anos, diz que por causa da profissão acabou adquirindo hábitos rápidos também quando não está trabalhando. "Falo rápido, ando rápido e até como mais rápido do que os outros". Como já desistiu de "ficar mais calmo", como diz, ele planeja um dia se tornar taxista, "com a velocidade que eu levaria meus passageiros, iria me tornar o melhor taxista da cidade", brinca.

Comentários

Comentários