Colecionadora mantém minimuseu
Texto: Adriana Rota
Tesouras, relógios e uma grande variedade de estatuetas de corujas fazem parte do acervo da tradicional moradora de Bauru
Quando determinado objeto deixa de ser utilitário para tornar-se uma peça de museu? Essa é uma questão que nem mesmo os colecionadores mais inveterados conseguem decifrar.
É o caso de Hilda Neves Tambara, 76 anos, que transformou instrumentos prioritariamente funcionais como tesouras e relógios em um hobby, cultivado desde a infância.
Hilda parece ser tradicional nas pequenas coisas. A começar pela localização de sua residência, na rua Agenor Meira, próxima ao calçadão da rua Batista de Carvalho - habitualmente, as pessoas fogem das regiões centrais das cidades, fortes candidatas à violência urbana.
Na decoração da casa também é possível observar essa tendência. Se não fossem alguns aparelhos relativamente modernos como televisão, som e telefone, o visitante provavelmente acreditaria estar num ambiente de muitos anos atrás. A impressão deve-se à mobília antiga, porém, conservada como se tivesse sido produzida recentemente.
Na sala, é possível ter apenas uma idéia do que será encontrado num outro cômodo, o preferido da entrevistada: é nele que se concentra a maior parte dos objetos colecionados. "Sempre gostei de velharias", diverte-se Hilda. Fotos de família e plantas, naturais e artificiais, embora apareçam por toda parte, não são consideradas objetos de coleção.
Ela contou que seus primeiros objetos foram as tesouras, grandes, pequenas, nacionais, importadas, de picote, movidas a pilha, dentre outros tipos. O interesse acabou surgindo por força do ofício. "Minha mãe trabalhava com costura. Por isso, eu comecei a mexer com tesouras aos sete anos de idade. Conheci meu marido com roupas feitas a mão", gabou-se.
Foi justamente através da família do marido - Noris Tambara, 87 anos, com quem é casada há 53 -, que uma segunda paixão surgiu: os relógios. O sogro, vindo da Itália em 1904, foi proprietário da tradicional Casa de Jóias Albino Tambara. O estabelecimento comercializava relógios de todos os tipos. "Os que não eram vendidos, acabavam ficando com a gente", contou. Indagada se não dava um "jeitinho" de evitar a venda para ficar com o objeto, garantiu que isso não ocorria.
Estatuetas de motivos variados também fazem o gosto da colecionadora, especialmente de elefantes. "Sempre vendeu bem. Virado com o bumbum para a porta, ele dá muita sorte", garantiu. Sobre as corujas, afirmou que o fato de sempre ter morado
"na roça" a colocava num contato próximo com esse animal. "Além disso, é símbolo de sabedoria".
Também foi o sogro quem instigou Hilda a começar a juntar moedas e notas, embora o destino tenha dado um empurrãozinho, quando num passeio a Pirajuí ela encontrou uma caixa cheia deles jogada no lixo. O marido, que não fez questão de herdar o "tesouro" do pai, disse que até chegou a colecionar selos, posteriormente dados para as netas. "Meu pai me dava 400 réis aos domingos e eu ia comprar selo, ao invés de comprar doce!", arrepende-se. Ele alertou que, se tem algo que irrita sua mulher é alguém mexer nas coisas dela. "O que é meu é sagrado", acrescentou à fala do marido.
A quantidade de peças é ignorada. Hilda arriscou apenas "chutar" quantas corujas, nas mais variadas apresentações
- fotos, ilustrações, bijouterias, livros, relógios, cortinas, cinzeiros, calendários, para citar apenas alguns
(poucos) - ela tem: seriam cerca de 1.600 peças. "No começo, até numerei. Mas deixei de contar tudo há muito tempo". Ela já não lembra mais qual a primeira peça de cada coleção, nem quis dizer quais as suas preferidas.
Para alimentar seu "vício", Hilda tornou-se uma costumaz freqüentadora de ferros-velhos. "A gente acha muita coisa neles", disse, entusiasmada. Ela confessou não resistir às novidades: compra qualquer coisa que tenha como motivo tesouras, corujas ou elefantes. Já chegou a ir para o Paraguai para presentear-se com mais uma peça. Agora, até as bolas que os bisnetos não querem mais estão tornando-se objeto de seu desejo. Para Hilda, tudo
é colecionável.
Sobre o destino que será dado aos seus objetos de estimação, ela espera que eles sejam conservados pela família, embora nenhum membro tenha, exatamente, a mesma paixão que ela. E se alguém pensa que é suficientemente digno para receber alguma de suas "jóias" de presente, está muito enganado: Hilda garante que não dá, não vende e não troca nada.