Leonardo Boff, o advogado dos excluídos
Texto: Daniela Bochembuzo
Um dos autores da Teologia da Libertação, teólogo teve formação humanística e intelectual iniciada no Seminário Santo Antônio de Agudos
Ele já perdeu a conta de quantos livros escreveu. Da mesma maneira, não sabe mais enumerar os prêmios nacionais e internacionais que ganhou ou ainda as cidades onde ministrou aulas, palestras e seminários. Apesar disso, esse cidadão do mundo tem uma capacidade intelectual prodigiosa, responsável por colocá-lo como um dos teólogos mais respeitados do mundo. Ele é Leonardo Boff, ex-padre franciscano e um dos criadores da Teologia da Libertação.
Na época em que foi criada, em 1966, a Teologia da Libertação mostrou que havia um setor do clero atrelado aos ideais da esquerda, ou melhor, um segmento intelectual seriamente interessado em fazer a Igreja se compromissar com os excluídos social e politicamente do mundo.
Por causa de livros publicados sobre a Teologia da Libertação e em razão de opiniões cortantes sobre a instituição católica, o Vaticano impôs a Boff, por duas vezes, o "silêncio obsequioso" O castigo previa sua renúncia
às funções de editor e redator, sendo obrigado a submeter seus textos à dupla censura. Após oito anos de liberdade cerceada, o teólogo renunciou ao ministério presbiterial e, tempos depois, à Ordem Franciscana.
Esse histórico, que inclui mais de sessenta livros publicados e o respeito internacional, motivam internos do Seminário Santo Antônio, de Agudos, a chamá-lo carinhosamente de "o homem" e a lutar por autógrafos e por uma foto ao seu lado. Isso aconteceu na última quinta-feira, quando Boff veio ao Seminário Santo Antônio prestigiar o 50.º aniversário da instituição, ministrando a palestra "Saber Cuidar - Ética do Humano Compaixão pela Terra", e concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade.
Herança
Ex-seminarista da instituição no período de 1953 a 1958, Leonardo Boff tem um carinho especial pelo Seminário Santo Antônio. Foi lá que o teólogo teve aulas com professores notáveis, entre eles o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, recém-chegado da França e repleto de métodos pedagógicos inovadores. "Dom Paulo nos iniciou na literatura grega e francesa e no teatro, principalmente. Ele foi a pessoa que, intelectualmente, mais me encaminhou para o estudo e a pesquisa", afirma Boff.
O teólogo define o Seminário Santo Antônio como um canteiro de obras intelectual e material. Nele, Boff teve contato com os clássicos humanistas, mas também com a terra. Aprendeu a arar, plantar, colher e observar as plantas e isso o marcou profundamente. E o marca até hoje, tanto que o motiva a manter contato com o homem do campo.
Essa visão franciscana, que faz Boff entender a ecologia como uma forma de resguardar vidas, é uma das facetas do seminário. "O notável daqui era a abertura que sempre houve a uma mentalidade progressista, uma visão do mundo mais aberta, menos dogmática", relembra.
A herança do Seminário Santo Antônio marcou o teólogo e o motivou a manter durante toda a vida os laços com aquilo que considera essencial: o estudo, a pesquisa, a atenção aos oprimidos e a preocupação ecológica. Dessa herança, Boff elaborou outra tese, a da ecologia da libertação.
Essa ecologia, explica, articula os dois maiores gritos do mundo atual, o do pobre e o da terra. Para Boff, os dois gritos estão oprimidos e precisam ser libertados. Dessa integração, acredita o teólogo, virá a verdadeira libertação do ser humano.
MST
A força dessa teoria levou Boff a se posicionar favoravelmente ao lado do Movimento Sem Terra (MST), organização popular com a qual mantém ligações estreitas e profundas, contribuindo para o desenvolvimento intelectual de suas lideranças.
Para Boff, a causa do MST é justa e deve ser apoiada. "Eles são os únicos neste País que questionam o modelo econômico. E não se trata apenas da questão da reforma agrária, que é inviabilizada continuamente por um movimento econômico que exclui, que cria continuamente sem-terra e conflitos na cidade e no campo. O MST vai às raízes da questão, que é a não discussão democrática do projeto Brasil", afirma.
Nesse sentido, o teólogo avalia o recrudescimento do diálogo do governo federal com o MST como um sinal de fraqueza. Da mesma maneira, a recente censura pela TVE à entrevista de João Pedro Stedile, um dos líderes do MST, é vista por Boff como a representação do desastre da política agrária e a explicação sobre subordinação do Brasil à lógica do mercado mundial, que cria um exército de excluídos. "Esse é o freio não democrático do governo ao seu verdadeiro opositor, que são os excluídos", critica.
Para Boff, a política federal atual lhe traz lembranças sobre o período ditatorial. "O governo não se dá conta de suas contradições internas, como a degradação dos salários, o aumento do desemprego, a crise na saúde e na habitação e no ensino. Isso mostra a ausência de políticas públicas claras e é uma ação de adequação do Brasil a um tipo de globalização que se dá pela via econômica e não pela via política e cultural, onde nós poderíamos ter outra presença muito mais importante", avalia.
Por causa de pensamentos como esse, Leonardo Boff é chamado de "o homem" pelos internos do Seminário Santo Antônio, mas também é definido por lideranças mundiais como "o advogado dos oprimidos", independente de qual parte do mundo esses excluídos estejam.
Raio X
Nome: Leonardo Boff
Nascimento: 14 de dezembro de 1938, em Concórdia
(SC)
Línguas estrangeiras que lê, escreve ou fala: grego, latim, alemão, inglês, italiano, espanhol, francês, holandês
Livros escritos: 64 (como autor e co-autor), nas áreas de teologia, filosofia, antropologia e mística
Cidadão honorário de: Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Concórdia (SC), Curitiba (PR), São Paulo, Osasco, Rio de Janeiro, Maceió, Romano Canavese (província de Turin, na Itália)
Prêmios acadêmicos e títulos: 10
"Castigos": imposição do silêncio obsequioso em 1983, resultando em cassação da cátedra, renúncia às funções de editor e redator, e submissão à dupla censura; processo doutrinário pela Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), em Roma, em 1984, em razão do livro "Igreja: carisma e poder"
Função atual: professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)