Apae de Agudos integra deficientes
Texto: Andréia Alevato
Entidade mostra que eles são capazes de trabalhar e já conseguiu emprego para dois deles, num supermercado
A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Agudos está inserindo seus alunos no mercado de trabalho. A iniciativa faz parte de um projeto iniciado este ano, que tem como objetivo principal a integração do portador de deficiência na sociedade.
Até agora, dois alunos da entidade estão trabalhando num supermercado da cidade. Daqui a um mês, no máximo, o terceiro deve começar a trabalhar em outra empresa de Agudos.
As primeiras oportunidades surgidas foram oferecidas aos alunos não alfabetizados. Até o ano passado, esses alunos realizavam trabalhos artesanais nas oficinas da própria entidade, que vendia a produção, como tapetes, bijouterias e cartões. "Nós vendemos o material confeccionado e o dinheiro é revertido para a Apae. Mas não há um retorno como trabalho para os alunos, porque eles não têm um salário", explicou a diretora pedagógica da Apae, Maria Sílvia De Conti.
O projeto de inclusão do portador de deficiência no mercado de trabalho é desenvolvido com base na portaria n.º 772, de 26 de agosto de 1999, e na Legislação Relativa ao Trabalho de Pessoas Portadoras de Deficiência. De acordo com a lei, o aluno pode ficar na empresa por seis meses, período de estágio, o qual pode ou não ser remunerado.
"Antes, não conseguíamos colocar o aluno no mercado de trabalho, porque não havia uma lei para nos dar respaldo, e tudo era muito burocrático. Agora, com a lei, só precisamos contar com a colaboração de empresários", explicou Maria Sílvia. Depois dos seis meses de estágio, o aluno é contratado, com salário fixo e carteria profissional assinada.
Márcio Alexandre dos Anjos, 18 anos, e Gilmara Florêncio, 25 anos, são os alunos que já estão trabalhando, desde o final do mês de abril. Eles permanecem na empresa durante meio período e ganham meio salário mínimo cada.
"Mesmo que o aluno não ganhe nada nestes seis meses de estágio, a experiência é válida. E a sociedade também poderá ver que, apesar de ter algumas limitações, o deficiente é capaz de fazer muitas coisas", completou a diretora pedagógica.
Maria Sílvia conta que, ainda durante as discussões do projeto, ela acreditava que o preconceito poderia barrar a entrada dos portadores de deficiência no mercado de trabalho:
"Eu acreditava que o preconceito seria grande e que os empresários não empregariam os portadores de deficiência, mas o resultado foi outro. Eles estão aceitando bem a idéia de trabalhar com essas pessoas", diz. E completa: "A sociedade ainda é muito preconceituosa. Muitas pessoas não conhecem a entidade e nem os trabalho desenvolvido por ela. Elas têm medo. Algumas acham que aqui é um hospital psiquiátrico, mas não é. Por isso, nós achávamos que a colocação do portador de deficiência no mercado de trabalho seria difícil", contou Maria Sílvia.
Depois de conseguir o estágio para os alunos, os profissionais da Apae de Agudos preparam psicologicamente o aluno e a família dele, porque há casos em que os pais tendem a oferecer superproteção aos filhos, além de ter receio de expor o portador de deficiência ao contato direto com a sociedade. "A família sempre trata o portador de deficiência como um eterno bebê, mas não é assim. Ele é capaz de muita coisa, só que precisa do apoio da família", completou a diretora pedagógica.
A professora do ensino profissionalizante da Apae, Gláucia Aparecida Antônia, afirmou que no início do projeto os próprios alunos não quiseram trabalhar, por medo de errar e ser repreendidos.
"Alguns alunos até disseram que não precisavam trabalhar, porque eles têm consciência da limitação deles. Eles tiveram medo do erro e da repreensão, mas aqueles que já estão trabalhando revelam felicidade e empolgação. Já fazem até planos sobre o que vão fazer com o dinheiro", afirmou Gláucia.
Emocionada, a diretora comercial do Supermercado Estrela, Elza Mesquita Guerreiro, que empregou os alunos da Apae, disse que a nova experiência é gratificante, já que expõe uma nova realidade aos patrões e funcionários do supermercado. "A experiência é nova, mas gratificante e rica para nós, patrões, e para nossos funcionários. É uma oportunidade que temos de ver e sentir que o outro, apesar de suas diferenças, tem sua capacidade. E no dia-a-dia percebemos isso", disse.
Dentro do limite de cada um deles, o supermercado presta o apoio necessário. Os dois novos funcionários, Márcio e Gilmara, trabalham em todos os setores do estabelecimento, da mesma forma que os outros funcionários. "A Gilmara não sabe ler e nem escrever, mas decora os rótulos dos produtos para identificá-los. A gente percebe o esforço de cada um diante de uma oportunidade, até mais do que aqueles que têm todas as habilidades. Vemos também que eles se sentem orgulhosos de trabalhar", completou a diretora comercial do supermercado.
A intenção da empresa é contratar os alunos da Apae após o período de experiência: "O objetivo do projeto é que o portador de deficiência se sociabilize, se integre com outras pessoas da sociedade, porque eles têm condições de manter uma vida independente fora da entidade", disse Rosângela Barbosa Grassia, psicóloga da entidade.
Atualmente, a Apae de Agudos tem 75 alunos, sendo 50 internos, que estudam na entidade, e 25 externos, que fazem apenas o tratamento terapêutico (com fonoaudiólogos, fisioterapeutas e dentistas, entre outros profissionais). A entidade está aberta à comunidade, tanto para que conheça os trabalhos desenvolvidos como para os empresários que se interessarem em contratar um portador de deficiência.