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Ser mãe

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Maternidade e beleza

Texto: Gustavo Cândido

Ser mãe não significa deixar de ser bonita como pensam muitas mulheres que abominam a gravidez porque - de acordo com elas - após o primeiro filho o corpo fica flácido e feio. A realidade é bem o contrário, muitas mulheres ficam mais belas depois de passarem dos trinta e terem filhos, como a apresentadora Xuxa ou a modelo Luiza Brunet, por exemplo. Mas estas belas mães não estão só na televisão. Muitas mulheres estão se cuidando, seguindo uma tendência que, segundo a psicóloga Regina Furigo, está aumentando, assim como a mentalidade da mulher em relação a ela mesma depois da maternidade.

A professora universitária Solange Leão é um bom exemplo. Mãe de três filhos, duas jovens de 25 e 23 anos e um rapaz de 17, ela exibe uma beleza rara para uma mulher da sua idade, 49 anos. Vaidosa, Solange conta que sempre se cuidou e mesmo durante as vezes em que engravidou, continuou usando cremes e fazendo massagem e ginástica para ficar em forma. "Nunca pensei na idéia de não ter filhos para preservar o meu corpo", conta. Ela fez os dois. Grande parte da culpa por continuar tão bela após três filhos, Solange acredita vir do fato de fazer o que gosta, principalmente no trabalho. "Dou aula, faço o que gosto que é mexer com tapeçaria e isso para mim acaba até sendo uma terapia", revela. A professora diz que também faz caminhada para manter a forma, embora admita que deveria se exercitar mais.

A micro-empresária Maria Cristina Matheus Borges, a Tina Borges, também é uma mãe que se cuida. Com a mesma idade de Solange e também o mesmo número de filhos (no seu caso, 2 homens e 1 mulher), ela faz ginástica localizada e anda de bicicleta todos os dias para manter a silhueta. Também como Solange, Tina conta que nunca pensou em não ter filhos para preservar o corpo, "sempre quis ter filhos", diz. Ex-atleta, praticante de basquete e atletismo, Tina diz que entrar forma nunca foi um problema na sua vida, "esporte para mim é um vício", revela. As duas mães descritas acima são bons exemplos de que beleza e maternidade podem caminhar juntas muito bem.

Segundo a psicóloga Regina Furigo, a maternidade implica numa quantidade muito grande de doação por parte da mulher, tanto no setor biológico como no emocional e financeiro e por isso muitas vezes a prioridade da casa acabam sendo os filhos e a mulher se deixa um pouco de lado. Quando essa questão atinge o setor estético, as características da personalidade da mulher é que vão fazer a diferença: algumas decidem que não querem engravidar para que o seu corpo não sofram alterações, enquanto outras, que são mais vaidosas, procuram se cuidar, buscando o não-envelhecimento, até porque o próximo é um passo na cadeia normal do crescimento: a pessoa é solteira, depois tem filhos e depois vira avó, o que é significativo.

Na opinião de Regina Furigo, a mulheres que se cuidam para continuarem belas após a maternidade representam uma mudança na forma de como a figura da mãe deve ser encarada. "O estereótipo da mãe que nós ainda temos é o de uma pessoa de um pouco mais de idade, gordinha e que nos delicia com seus cuidados, que cuida da gente. Essa imagem é diferente da proposta de uma mulher moderna que se cuida", diz a psicóloga. Segundo Regina Furigo essa visão tradicional e estereotipada da mulher ainda é muito forte porque a mulher vive há séculos nesse estilo: cuidando de casa, cuidando do marido e dos filhos. "Essa visão ainda está muito enraizada em todos, é por isso que para muitas mulheres a idéia de ser mãe é ser desse jeito, o que não está relacionado a se manter bela após o nascimento dos filhos. Isso povoa o imaginário feminino", explica.

Mudança de hábito e elogio

"Estamos vivendo um momento de transição dessa imagem da mãe tradicional", diz Regina Furigo, "algumas mulheres estão percebendo que podem ser excelentes mães e também cuidar do seu visual, da sua aparência, mas é uma transformação

que estamos vivendo", revela. Ainda de acordo com a psicóloga, o tempo para que essa mudança de hábito se torne real para todas as mães é imprevisível. Ela conta que muitas mulheres ainda se sentem culpadas por trabalhar fora e não terem tempo de fazer bolo ou passar a roupa do marido, por exemplo, como se isso fosse fazer muita falta.

"Aos poucos estamos incorporando essa outra imagem da mãe no nosso dia-a-dia, a da mãe que trabalha, que ganha dinheiro e também a da mãe que se cuida. É importante que as mulheres de hoje saibam que têm de dar para os filhos, mas também têm de dar a si mesmas", diz Regina Furigo.

Enquanto essa nova visão da mulher e da mãe não alcança todas as cabeças, as que já incorporaram essa mudança às suas vidas só têm obtido vantagens. "Adoro quando pensam que sou irmã da minha filha", confessa a dona de casa Maria Aparecida Santos, 37 anos, mãe de uma adolescente de 17. "Além das pessoas ficarem espantadas com a minha idade, o que é muito bom, meu marido vive me elogiando. Depois de 18 anos de casada isso é uma maravilha", diz bem-humorada.

Teimosia pela maternidade

Para tentar ter um filho, a jornalista Denise Rodrigues, 40, tomou cerca de 360 injeções de hormônio. Aliviada após a gravidez bem-sucedida, ela escreveu o livro "Socorro, Quero ser Mãe", em que tenta compreender a frustração de quem não consegue ter filhos. Além de Denise

- que tentou engravidar durante quatro anos -, foram entrevistadas as professoras Mônica Cristina Alves Opipari, 32, que teve gêmeas depois de perder um bebê no sexto mês de gravidez, e Leda Rita Cintra Ferraz, 48, que perdeu seus gêmeos, um na gravidez e o outro logo após o parto, e teve várias gravidezes interrompidas por abortos naturais antes de conseguir ter seu primeiro filho.

Pergunta - Como descobriram que não conseguiam ficar grávidas?

Denise - Nunca pensei que me casaria, que teria filhos. Aos 19 anos, engravidei e resolvi o problema com um aborto, rápido e sem culpa. O sonho de ficar grávida pintou aos 30 anos. Quando vi que não conseguia engravidar, comecei a fazer exames, e foi uma verdadeira via-crúcis, durante quatro anos.

Mônica - Não conseguia engravidar e, depois de todos os exames, descobrimos que meu marido não tinha quantidade suficiente de espermatozóides. Nós tivemos sorte, porque logo fomos a um médico que já determinou que a única chance seria o bebê de proveta. Mas o pior foi que perdi o bebê duas vezes. Da primeira, com um mês. Da segunda, com seis meses. Daí bateu o desespero.

Leda - Meu caso foi mais fácil. Com 35 anos, eu tive uma úlcera. O médico me perguntou se eu tinha algum problema na minha vida e eu, que nunca quis ter filhos, descobri que era algo que estava me fazendo falta. Assim, engravidei, eram gêmeos, mas um feto morreu durante a gravidez e o outro bebê logo após o parto.

Pergunta - Como a mulher que não consegue engravidar se sente?

Mônica - Há uma solidão muito grande. Você acha que é a única mulher no mundo que não consegue ter filhos.

Denise - Pintava a culpa pelo aborto, pinta uma coisa religiosa, de achar que Deus não quer que você tenha filhos. Não há terapia que resolva.

Leda - A auto-estima fica lá embaixo.

Pergunta - A participação do marido é importante?

Mônica - É fundamental. No meu caso, era muito complicado, porque o problema era dele, e eu que tinha que fazer o tratamento. Então ele ficava arrasado, se sentindo culpado. Nessas horas, eu queria trocar, queria que a dificuldade de engravidar fosse por um problema meu, para dar algum conforto a ele.

Denise - Meu marido teve muita paciência, porque eu fiquei muito complicada. Chorava muito, queria engravidar de qualquer jeito. Sem contar que fizemos vários tratamentos que não deram certo, como o coito programado, que é um horror. O tesão entre o casal praticamente acaba. Você não pensa mais em transar pelo prazer. Você quer transar na hora certa, no dia certo, só pensa em engravidar. A vida sexual fica péssima.

Pergunta - Como vocês se sentiam quando viam alguma grávida ou uma mãe segurando um bebê no colo?

Mônica - O mais horrível é que você vê os casais planejarem a gravidez, conseguir, ter o filho, e você ali, sempre tentando e nunca tendo uma resposta positiva. Mas eu tinha uma boa reação, via os outros casais passando na nossa frente, mas não desanimava, sempre achava que ia conseguir.

Denise - Eu chorava muito, não conseguia segurar. Um dia, tinha acabado de sair do consultório no dia em que o médico me disse que eu teria de fazer um bebê de proveta. Eu entrei no elevador e vi uma mãe segurando um daqueles É bebês Johnson". Eu caí no berreiro ali mesmo, no elevador.

Pergunta - Durante o tratamento, dá muita angústia?

Denise - No processo de bebê de proveta, a mulher sofre mais. Ela tem de ter o organismo preparado artificialmente para receber a gravidez. Eu tomei mais ou menos 360 injeções de hormônio.

Mônica - Eu tomei muito mais, porque fiquei praticamente dois anos grávida, entre a primeira que perdi até a terceira, que finalmente vingou. Primeiro, meu organismo teve uma reação exagerada ao tratamento e formou um edema em minha barriga. Com 15 dias de gravidez, eu estava com uma barriga de nove meses.

Leda - Meu tratamento foi mais fácil. Assim que descobriram que eu não produzia a quantidade correta de hormônio para engravidar, fiz uma reposição hormonal e consegui levar a gravidez até o fim.

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