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Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 7 min

Museu revela imaginação a toda prova

Texto: Eva Rodrigues

Museu em SP guarda boa mostra do que mentes criativas são capazes de pensar para solucionar problemas rotineiros

E se Tomas Edison não tivesse acreditado e levado adiante a idéia da lâmpada ou Graham Bell achasse pura "viagem" a possibilidade de conversar com alguém em qualquer lugar do mundo através de um simples aparelho? É claro que nem toda idéia é exatamente uma invenção que vá afetar a vida de todo o planeta, mas pode transformar-se em algo útil e viável sob o ponto de vista comercial

- ou não.

O Museu Contemporâneo das Invenções - ligado

à Associação Nacional dos Inventores (leia texto abaixo) -, em São Paulo, é uma boa mostra do que mentes criativas são capazes de pensar para solucionar problemas enfrentados no dia-a-dia. E algumas soluções, entre mais de 400 protótipos de peças expostos, são no mínimo inusitadas. Como um par de seios de plástico onde se coloca o leite para que o pai também possa participar da amamentação do filho - o difícil talvez seja convencer um pai a vestir tal acessório; ou o telefone-malhação, aparelho com um peso de três quilos acoplado ao fone que auxilia na ginástica ao mesmo tempo em que diminui o preço da conta telefônica

(ninguém aguenta segurar tanto peso por muito tempo).

Outras idéias têm um caráter mais prático. O Projeto Padin, do técnico eletrônico Elair Antônio Padin, prevê a instalação de uma caixa d'água para chuva em prédios - a idéia é que em

época de enchente essa água possa ser usada para a manutenção do imóvel (o projeto chegou a tramitar na Câmara Legislativa de São Paulo). Os constantes ataques a telefones públicos podem ser minimizados com o orelhão anti-vandalismo, caixa com sistema de viva-voz, sem o gancho, com três níveis de altura para falar e ouvir e controle de volume. O dono do invento, Flaury Nunes, também projetou a caixa de correio que só aceita cartas evitando o desconforto de envelopes molhados e danificados.

Idealizado por Marcelo Dourado, o desbloqueador de cinto de segurança pode ser um acessório interessante para o setor automotivo

- um dispositivo destrava o cinto de segurança entre 10 e 15 segundos depois de uma colisão.

E a imaginação dos inventores brasileiros não tem limites, indo de uma raquete a pilha para matar moscas (esquenta e torra os insetos) a gadgets de cunho religioso: um terço eletrônico em forma de bip que funciona como um contador, mostrador de orações e memorizador de contas (possibilita que se retorne ao terço do ponto em que parou) ou um cálice eucarístico automático que pinga gotas de vinho na hóstia. Numa linha mais exótica há o lavanus, espécie de bidê projetada para lavar, secar e higienizar o ânus (em um recipiente acoplado pode ser colocado talco ou outro produto). Todas essas engenhocas ainda não foram comercializadas mas aguardam alguém que "bote uma fé" e principalmente dinheiro na empreitada.

Divulgando as invenções

Mantido pela Associação Nacional dos Inventores

(ANI), o Museu Contemporâneo das Invenções surgiu em 1996. "A procura pela ANI estava aumentando muito e como as pessoas traziam protótipos das invenções resolvemos deixar esse material exposto", explica a diretora de marketing da ANI, Angela Lima. O museu costuma receber visitas de escolas e também tem um caráter itinerante com a participação em feiras nacionais e internacionais. Cerca de 400 itens compõem o acervo - algumas peças são trocadas de tempos em tempos.

Além dos protótipos que esperam interessados em produzi-los para comercialização, algumas peças que estão no museu já fazem sucesso no mercado.

É o caso dos conhecidos espaguetes superleves usados em piscinas (invenção de Adriano Sabino), que já vendem quatro milhões de peças ao ano.

Um cinto de segurança para motos (o cinto passa pelo capacete e é entrelaçado a uma fita de iluminação na cintura do motorista), idealizado por Jamil Acácio, também vem sendo comercializado pelo próprio inventor, assim como a pipoqueira de Osvaldo Priori (coloca-se uma moeda de R$ 1,00 e em um minuto a pipoca fica pronta e sem óleo!!).

ANI ajuda a comercializar invenções

A Associação Nacional dos Inventores auxilia o inventor no processo de colocação de um novo produto no mercado

Qual o caminho percorrido por uma invenção desde a sua concepção até chegar à comercialização? Essa talvez seja a tarefa mais complicada para quem está com os olhos voltados para o projeto em si e não para as idiossincrasias do mercado. A Associação Nacional dos Inventores foi fundada em 1992 justamente para auxiliar o inventor no processo de colocação de um novo produto no mercado. Ela faz pesquisas tanto de custos como de viabilidades do projeto apresentado.

Ao procurar a ANI, o inventor será orientado quanto ao registro de patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), essencial para proteger a idéia concebida de possíveis copiadores. "Depois do registro, nós montamos uma estratégia comercial e de marketing do produto e passamos a oferecê-lo ao mercado", conta Angela Lima. Ela observa, no entanto, que de todas as invenções que chegam 50% são coisas sem muita utilidade ou que não têm mercado. Das que chegam e são viáveis comercialmente, 30% se concretizam.

Nesse processo podem surgir três tipos de proposta: compra de patente; licenciamento (a patente continua no nome do inventor e a empresa explora o produto e paga royalties mensais); ou um sócio-investidor (entra com o dinheiro e o próprio inventor cuida da produção). Independente da proposta que se concretizar a ANI fica com 25% do resultado do investimento. Atualmente a Associação recebe de seis a oito inventores por dia em busca de informações, "alguns completamente

'viajantes', acreditando que descobriram algo fundamental, e nosso papel é colocá-los com os pés de volta ao chão", observa a diretora. Informações sobre a ANI podem ser obtidas através do site www.inventores.com.br

Com a fala, os inventores

"O perfil do inventor brasileiro é a necessidade. A pessoa procura a gente porque passou por um problema na família ou com alguém conhecido, pensou numa solução e achou que aquilo poderia se transformar num produto de mercado." Não foi difícil encontrar esse perfil apontado pela diretora de marketing da ANI nos inventores de carne e osso.

O bauruense Adailton Roberto Castilione, 29 anos, é o inventor da caixa de inspeção para rede hidráulica de esgotos, um produto feito em fibra de vidro e que substitui as tradicionais caixas construídas em tijolo. A solução patenteada por Castilione surgiu de uma observação no seu trabalho cotidiano. "Tinha uma firma de estacamento hidráulico e pude observar que em torno de 85% dos casos em que as paredes da casa trincavam eram em função de vazamentos das caixas de inspeção. Aí comecei a analisar e desenvolvi esse sistema."

Associado à ANI, com patente junto ao Inpi e algumas instalações já feitas em casas de Bauru, o inventor pretende agora bancar a própria produção e oferecê-la ao mercado. E como vender o "peixe" ele já aprendeu:

"A caixa é feita em fibra de vidro, numa peça

única, como é lisa por dentro não retém sujeira que atrai insetos, e os canos entram por uma bolsa de encaixe que evita vazamentos".

Adailton não providenciou o registro de patente através da ANI, mas de uma empresa indicada pelo Sebrae/Bauru. "Paguei R$ 1 mil na época e agora pago anualmente cerca de R$ 400,00. Aí, quando aparece algum projeto similar ao meu eles me enviam uma carta para que eu possa ir defender o meu invento."

Cansado da profissão de serigráfico, o paulistano Eduardo Paulino resolveu montar uma choperia há cinco anos. As notas falsas que recebia no caixa o levaram a bolar um aparelho que, com o uso de uma luz ultravioleta, identificava as notas falsas (a luz ressaltava a diferença nas cores). "O aparelho despertou curiosidade e como eu tinha amigos comerciantes logo começaram a aparecer pedidos."

O inventor procurou a ANI, fez a patente do Testa Nota e começou uma produção caseira: "Eu fazia o aparelho de manhã e à tarde saía para vender. Há um ano e meio, um investidor se interessou, bancou a execução de um molde de injeção plástica e a produção passou a ser feita em escala industrial".

Hoje vivendo somente dos ganhos do próprio invento, Paulino já tem uma empresa, a Pro-Cri (Produtos criativos), e está lançando o Testa Nota Plus. "Depois que o Testa Nota foi colocado no mercado a malandragem foi aperfeiçoando muito as técnicas de falsificação, então tivemos que aperfeiçoar o nosso aparelho também", argumenta o inventor-empresário.

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