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Acusação

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

Médico é acusado de tentar matar paciente para ficar com herança

Texto: Josefa Cunha

Um médico conceituado da cidade de Garça está sendo acusado de tentar matar um de seus pacientes para ficar com a herança. A denúncia, que não sai dos comentários da população local desde fevereiro

último, está sendo investigada pelo delegado Ricardo Luiz de Paula Martines, do 1.º Distrito Policial, a pedido do promotor Isauro Pigozzi Filho. Por se tratar de uma acusação grave, o delegado não está divulgando o nome do médico, sobre o qual apenas se sabe que faz parte do quadro de profissionais da clínica psiquiátrica Santa Helena, onde a possível vítima esteve internada para um tratamento antialcoolismo.

A denúncia foi feita por uma enfermeira da clínica

- atualmente ela estaria desligada do estabelecimento - ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren), que comunicou o caso à Promotoria Pública. O inquérito policial foi aberto em fevereiro, mas, em razão das férias do delegado titular, as investigações deslancharam somente em meados de março. Embora sem previsão para concluir o inquérito, Martines espera fazê-lo o mais rápido possível. Até o momento, cerca de sete testemunhas foram ouvidas e confirmaram as acusações da enfermeira.

"Estamos agora aguardando a chegada de laudos periciais para comprovar as denúncias", informou o delegado.

Segundo a denunciante, o paciente, cujo primeiro nome seria Douglas, internou-se para uma desintoxicação e, já na clínica, passou por exames que constataram um quadro de diabetes.

Durante o tratamento ao qual foi submetido, porém, o paciente não teria recebido a medicação adequada para seu problema de saúde. As doses de insulina prescritas teriam sido insuficientes e, o que é pior, o médico responsável teria estimulado o consumo de açúcar. O delegado Martines confirma a versão, acrescentando que as testemunhas contaram que o acusado oferecia doces, bombons e refrigerantes não dietéticos à vítima. Quando a denúncia foi feita, inclusive, o nível de glicemia de Douglas estaria muito acima do normal, uma situação atípica se for considerado o fato de que ele estava sob cuidados médicos.

A tentativa de homicídio se justificaria pelo fato de Douglas ter destinado, em testamento, 50% de sua herança em nome da clínica Santa Helena. De acordo com testemunhas, o paciente teria assinado o documento sob efeito de forte medicação. O delegado que conduz as investigações confirmou a existência do testamento, bem como a situação beneficiária do estabelecimento psiquiátrico caso Douglas viesse a falecer.

Segundo foi apurado pelo jornal "Folha de Garça", o paciente seria rico ou, no mínimo, com vida financeira mais do que estável. Sua parte na herança estaria estimada em R$ 1 milhão e, entre seus bens, incluiria-se uma área à beira-mar no litoral paulista, onde estaria instalado um parque de diversões. Até o momento, não se sabe se o testamento representa a expressa vontade de Douglas ou se, de alguma forma, ele foi pressionado a assiná-lo.

Após a abertura do inquérito policial, Douglas foi transferido para o Sanatório Santo André, em Garça mesmo. "Tiramos ele da clínica para que pudéssemos conduzir normalmente as investigações", justificou Martines, lembrando que o paciente, quando levado para o sanatório, estava magro, mas com o nível de glicemia controlado.

Em crise

Uma situação que pode pesar contra o médico acusado é a crise financeira pela qual passa a clínica Santa Helena, que já foi uma das mais requisitadas da região. O médico teria ligação administrativa direta com o estabelecimento, hoje mantido somente com recursos próprios.

Segundo o delegado Ricardo Luiz de Paula Martines, a clínica teve seu convênio com o SUS suspenso e, por isso, está impedida de receber os recursos governamentais destinados ao setor de Saúde Mental. Com dívidas e sem subsídios do governo, o estabelecimento mal estaria conseguindo pagar seus funcionários, que, aliás, ameaçam entrar em greve se a situação não for regularizada.

Clínica contesta denúncias

O advogado Luiz Roberto Lopes de Souza, em entrevista concedida no último final de semana à Rádio Universitária, de Garça, contestou as denúncias em nome da clínica Santa Helena. Na opinião do defensor, as acusações foram irresponsáveis e não poderiam estar "manchando os nomes de uma entidade que presta serviços há mais de 30 anos e de um profissional que estudou durante sete anos para salvar vidas".

O contra-ataque do advogado teve como alvo direto os funcionários que teriam denunciado e confirmado as acusações na Polícia. Segundo ele, a enfermeira que levou a denúncia ao Coren deixou a clínica por iniciativa própria; um outro funcionário que teria prestado depoimento no inquérito seria "desprovido de formação profissional"; um terceiro seria funcionário da Secretaria da Saúde com liberdade para "manipular a folha de pagamento". Este último teria sido o responsável pela "montagem do esquema" da denúncia em questão.

Entre outras refutações, Souza argumentou contra a acusação de cárcere privado, dizendo que o paciente saía sempre acompanhado da clínica para que sua compulsão pelo consumo de doces fosse controlada. Sobre visitas e correspondências, ele informou que o estabelecimento de saúde apenas cumpriu determinação da irmã do paciente. Somente as cartas escritas por ela deveriam chegar

às mãos de Douglas. Em relação ao testamento, o advogado declarou nulidade. "Esse documento

é nulo porque ele tem a mãe viva. Quando se tem herdeiros necessários não se pode testar a totalidade dos bens", explicou, embora o delegado Ricardo Luiz de Paula Martines, que investiga o caso, tenha dito que a clínica seria beneficiária em apenas 50% da herança.

Souza acredita que existe uma disputa entre os herdeiros pela parte que cabe a Douglas, mas outra questão ainda estaria em jogo: o custeio do tratamento a que foi submetido, que é particular. "Ao contrário do que está se divulgando, o paciente tinha de ser mantido vivo. Se a intenção era receber a herança dele, era necessário, primeiro, que sua mãe tivesse morrido", declarou.

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