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Câncer

Redação
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Abaixo a depressão

O estado emocional das pessoas pode influir no combate ao câncer ou, ao contrário, pode piorar quadros da doença e até ser um dos fatores para que o mal apareça. Esses dados foram comprovados pela pesquisa da psicóloga Carmem Maria Bueno Neme, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Neme analisou, entre 1996 e 1998, 130 pacientes adultos, em diferentes níveis de gravidade do câncer.

Estresse e depressão, por exemplo, são apontados como fatores de risco. Já o bem-estar emocional dificulta o aparecimento da doença ou ajuda os pacientes a enfrentar o tratamento e a viver mais e melhor. O objetivo da pesquisadora era verificar como enfrentavam a doença e o tratamento, levando em conta suas variáveis psicológicas e descobrir como avaliavam a influência da psicoterapia no tratamento.

Segundo os dados da pesquisa, 92% dos pacientes consideraram que a psicoterapia ajudou na luta contra a doença. Outro ponto do estudo indica que pelo menos 75% dos pacientes viveram um trauma.

(Veja no boxe).

A educadora Maria Célia de Toledo, 61, reduziu o estresse e mudou seu estilo de vida. "Eu tinha uma vida muito acelerada. Hoje, sou mais calma, mudei até meu tom de voz e meu jeito de falar", comenta. Ela descobriu que tinha câncer na mama há 14 anos. O diagnóstico e a cirurgia foram rápidos, mas mexeram muito com sua vida. "Para mim, ter câncer era uma sentença de morte", diz. Quando seu médico sugeriu que ela procurasse um grupo de apoio, Maria Célia se defendeu: "Não consigo nem dar conta do meu câncer, como vou ficar no meio de outros doentes?"

Curada, Maria Célia chegou até a ser diretora da Centro Oncológico de Recuperação e Apoio

(Cora), uma ONG que acompanha pacientes. A psicóloga Maria Maura Mastrobuono de Camargo, 61, atual diretora da Cora, também enfrentou o câncer.

Sete meses depois da morte de seu marido, descobriu que estava com a doença. "Vivi o luto e uma desorganização da estrutura familiar. Tinha quatro filhos pequenos", relembra Maria Maura. Um dia, sentiu a barriga repuxar e notou que ali havia algo "como uma caneta". Ela foi operada em dois dias.

"Depois da cirurgia, descobri o trabalho de uma colega com pacientes de câncer", conta Maria Maura, hoje curada. Ela começou a participar do programa, que abordava identificação de sentimentos e crenças em relação à doença, reação e expressão das emoções e funcionamento do sistema imunológico.

"Foi uma mudança de vida para mim. Todo esse tratamento me ajudou a lutar contra o câncer", comenta a psicóloga.

Para o diretor do departamento de oncologia clínica do Hospital do Câncer de São Paulo, Agnaldo Anelli, o suporte psicológico e psiquiátrico ao doente é fundamental. "É bem determinado que doentes de câncer se beneficiam muito do suporte psíquico ou psiquiátrico." Mas, para ele, é difícil afirmar que a ocorrência de algum evento traumático na vida da pessoa, cinco anos antes do câncer, esteja ligada ao aparecimento da doença.

"Quem não passou por um trauma nos últimos cinco anos?"

O efeito positivo do trabalho psicológico em pacientes com câncer também foi observado em pesquisa publicada na revista científica britânica "The Lancet". As mulheres com metástase (disseminação das células cancerosas para outras partes do organismo) de câncer de mama que fizeram terapia tiveram, em média, o dobro da sobrevida daquelas que não fizeram.

O psiquiatra Vicente de Carvalho, diretor da Sociedade Brasileira de Psiconcologia, observa resultados semelhantes na sua prática:

"Trabalho com pacientes de câncer desde o diagnóstico da doença. Alguns chegam com prognóstico de morte próxima e revertem o quadro."

O oncologista Anelli é reticente neste ponto. "Com certeza, há melhoria na qualidade de vida, mas não posso afirmar que haja sobrevida", diz o médico.

"Sabe-se que estados crônicos de depressão e estresse diminuem a competência do sistema imunológico, que pode deixar de combater o aparecimento de células cancerosas", afirma Carvalho.

"Não podemos dizer que a depressão causa o câncer, mas ela pode contribuir para acelerar predisposição biológica", completa Carvalho.

Depois de passar por problemas amorosos e financeiros e doença da mãe -, a fonoaudióloga Ruth Reveca Reijtman, 69, descobriu o câncer de ovário e metástase no intestino, bexiga e útero, em 81.

Os médicos lhe deram pouco tempo de vida, mas ela mostrou que estavam errados. "Depois do câncer, minha vida mudou. Quando achei que iria viver pouco, resolvi dar mais atenção

às minhas necessidades e não me exigir tanto."

Essa reação deu ânimo para que Ruth lutasse contra a doença. "Comecei a fazer terapia quando já estava um pouco melhor. Ela me ajudou a encarar a vida de forma diferente e a me respeitar mais."

Hoje, curada, depois de extrair os órgãos doentes, ela trabalha no Revida, centro de apoio ao paciente com câncer.

"Muitos dos médicos que disseram que eu não viveria mais de seis meses já morreram." (AF)

Histórico do paciente

Entre os doentes de câncer, apontaram problemas*

75% Na área familiar

40,3% Problemas conjugais

24,2% Luto na família

7,3% Doenças ou acidentes graves

3,2% Alcoolismo ou droga

57,4% Na área social e do trabalho

37,7% Mudança ou perda de emprego

7,4% Com a Justiça

9,8% Isolamento social

2,5% Vítimas de violência ou abuso

39,8% Na área de saúde

31% Com internações, doenças e acidentes independentes do câncer

4,8% Gravidez indesejada ou aborto

4% Problemas pessoais com álcool ou droga

* Respostas múltiplas

Fonte: Pesquisa "Enfrentamento do Câncer: Ganhos Terapêuticos com Psicoterapia num Serviço de Psiconcologia em Hospital Geral" da Unesp (Universidade Estadual Paulista), 1999

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