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Oftalmologia

Erika de Lima
| Tempo de leitura: 7 min

Ofaltmologistas pedem fiscalização nos centros de adaptação

Texto: Erika de Lima

A adaptação de lentes de contato feita pelos centros de adaptação está sendo questionada pelos oftalmologistas, que já estão solicitando às autoridades competentes uma fiscalização rígida nessas lojas. Os proprietários desses centros relatam que estão trabalhando dentro da lei.

Os especialistas basearam-se nos artigos do decreto 24.492 de 1934, para pedir aos órgãos competentes como a delegacia do Conselho Regional de Medicina e a Secretaria de Saúde do Município e Estado. Eles pretendem que esses órgãos investiguem esses estabelecimentos e tomem medidas judiciais, quando cabíveis.

A lei determina que as "casas" de ótica são proibidas de escolher ou indicar o uso de lentes de grau, bem como ter aparelhos próprios para o exame dos olhos, cartazes e anúncios oferecendo exames para a vista.

A lei também prevê que esses estabelecimentos só podem fornecer lentes de contato mediante a apresentação da receita médica e, só substituí-las quando tiverem o mesmo grau ou caso estejam danificadas. Além disso, os "centros" podem executar consertos nas armações das lentes e vender vidros protetores sem grau.

Embora os centros existam há muito tempo, os especialistas afirmam que só agora começaram a questionar esse tipo de trabalho devido aos muitos problemas surgidos em seus consultórios. Eles ressaltam que os pacientes não consultavam um especialista e só iam às óticas para fazer a adaptação, mas acabavam tendo sérios problemas com a visão.

Uma das grandes preocupações dos especialistas é em relação à falta de um oftalmologista responsável que acompanhe o trabalho dessas lojas. "Nós somos responsáveis por tudo o que acontece com o olho do paciente, diferente dos centros de adaptação. Se a lente não for bem adaptada e, caso isso ocorra sabemos a qual tratamento recorrer", destaca o oftalmologista Ricardo Viegas Berriel.

Há uma série de fatores que um especialista deve considerar para indicar uma lente ao paciente como o diâmetro da curvatura, o material e o grau utilizado. Isso tudo para que o paciente não venha a ter problemas com sua visão como tumores e outras doenças.

Segundo o oftalmologista Marcelo Crivellari Creppe, existem várias normas para realizar-se uma adaptação de lentes de contato sem complicações. "Só nós especialistas sabemos quais medidas tomar para a lente adaptar-se no paciente, sem deixar que os olhos fiquem sem oxigenação.

É importante avaliar cuidadosamente cada caso, porque qualquer embaraço pode levar até a perda da vista", argumenta.

De acordo com os especialistas, em geral, os usuários não sentem nenhum incômodo no início do uso, mas após alguns meses começa a sentir diferenças. Os olhos ficam irritados (vermelhos), inchados e, em alguns casos até ocorrem ardumes. "Se o olho não tiver uma boa oxigenação por causa da "má" adaptação podem ocorrer infecções e úlceras de córnea. A responsabilidade de quem adapta a lente é muito grande, porque se ela for má adaptada pode causar sérias lesões", frisa o oftalmologista Sérgio Passerotti.

Berriel confirma que, vários pacientes apareceram em seu consultório com problemas nos olhos depois de usarem lentes sem o acompanhamento de algum oftalmologista. E reforça:

"Já surgiram alguns desses casos no consultório em que o usuário tinha lesões nos olhos e não havíamos feito nenhum acompanhamento. A partir dessas situações, orientamos o paciente para só adaptar lentes com especialistas".

Em relação à essa situação, os órgãos competentes disseram que irão tomar as providências cabíveis, conforme a lei. O Conselho Regional de Medicina reconhece que o óptico deve apenas manipular as lentes de grau ou fabricá-las, e a aplicação só deve ser feita pelo médico.

A delegada do Conselho Regional de Medicina, Tereza Faifer, explica que o conselho não pode autuar, mas tem o poder de solicitar

à outros órgãos a fiscalização.

"Nós já separamos um material para a vigilância sanitária verificar se há oftalmologistas responsáveis pelas adaptações nesses estabelecimentos", garante.

Em outros anos foram feitas as reclamações por parte dos médicos e que resultaram em autuações. Segundo a diretora da Vigilância Sanitária da DIR-X, Maria de Lourdes Soares Pereira, acerca de três anos foram feitas denúncias contra ópticas que estariam fazendo esse trabalho, no entanto, a vigilância fez a autuação e coibiu as irregularidades. "Na época existiam óticas e não centros de adaptação, e que eram de competência do Estado ou seja nossa. Por isso, hoje, pretendemos trabalhar em parceria com outros órgãos como a vigilância do município para continuarmos fiscalizando o que seja de nossa alçada", justifica.

Centros de adaptação, à parte

Por outro lado, os proprietários de centros de adaptação de lentes de contato afirmam não saber sobre problemas que tenham ocorrido com usuários de lente por causa da adaptação em suas lojas.

Segundo a proprietária de um centro de adaptação Adriana Nascimento Pereira, não há lei que proíba o trabalho desses estabelecimentos, principalmente daqueles que têm curso na área. Ela teria feito um curso técnico de dois anos em ótica, armação de óculos e contatologia, que permite a manipulação de lentes de contato. "Eu, assim como outros técnicos nos formamos para sermos responsáveis também pela adaptação de lentes, pois somos aptos para isso", ressalta.

De acordo com Adriana Nascimento, o curso feito no Senac é regulamentado pelo Ministério da Saúde e, por isso, seu trabalho não oferece riscos para os usuários.

"Antes de aplicarmos a lente fazemos um teste para verificar se o usuário tem alergia ao produto, se ocorrer algum problema suspendemos seu uso. Só depois disso é que adaptamos a lente, mas com outro material", explica.

Ela também critica a solicitação dos médicos junto aos órgãos, dizendo que há especialistas que pedem para as secretárias fazerem o ajustamento da lente e só depois verificam como está o paciente.

"Nós estamos sempre nos mantendo informadas no que diz respeito às lentes, sem contar que nossa loja é uma das mais regulamentadas de Bauru", garante.

Enquanto os médicos questionam a adaptação feita nos centros, os donos dessas lojas levantam dúvidas acerca da comercialização da lente, uma vez, que os oftalmologistas não podem comercializá-las, só prescrever a receita. "Nós podemos fornecer nota fiscal enquanto que o médico não, portanto, é nossa função trabalhar com lentes", conclui Adriana Nascimento.

Orientação é fundamental para compra de lentes

A falta de orientação sobre o tipo de lentes de contato a serem usadas já levou muitas pessoas a engarem-se e terem prejuízos não só no bolso, mas também na saúde. A comerciante Denise Siqueira Gimenes, 23 anos, foi uma dessas pessoas e teve uma pequena lesão nos olhos após efetuar uma compra de lentes via telefone. Ela disse que soube de um telefone de distribuidora de lentes de contato, em Santos, e por um preço baixo. Então, ligou para certificar-se do valor e fez o pedido das lentes de uso prolongado

(por um ano), através do telefone e que chegou por sedex.

Ela conta que, só teve que passar a receita do grau do

óculos e a marca preferida por fax e nenhuma informação a mais. "Eu achei estranho porque não pediram a espessura nem o tamanho, mas mandaram tudo com nota fiscal, juntamente com os líquidos para limpeza, tubos pequenos de amostra grátis", lembra.

No entanto, o grande problema foi a falta de informação. Denise acredita que, se fosse orientada pela distribuidora a procurar um médico não teria saído prejudicada. "Já usei lentes outras vezes, que tinham um preço acessível e sempre sem orientação médica", relata.

Ela afirma que começou a sentir-se inconfortável com as lentes e depois de 20 dias procurou um especialista. "As lentes estavam "apertando" meus olhos, aí decidi marcar uma consulta com um oftalmologista, para ver o que estava acontecendo. Foi então que percebi o quão prejudicial foi minha atitude, pois até teria que fazer um transplante de córnea, se demorasse a procurar um médico e continuasse a usar as lentes".

Denise está fazendo tratamento e por um tempo não poderá usar lente. Devido a isso ela promete nunca mais comprar lentes sem orientação de um especialista. Esse foi um exemplo de que o barato sai caro e que a orientação médica é a base para se ter olhos saudáveis.

(EL)

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