Casas do Fortunato não têm água
Texto: Erika de Lima
Cinqüenta e uma famílias no Núcleo Fortunato Rocha Lima (Desfavelamento) estão sem receber água desde que o bairro foi entregue aos moradores. As ruas 21, 22 e 23 nem têm hidrômetro e, as famílias estão sem água até para cozinhar alimentos ou dar banho nas crianças.
Essas famílias estão vivendo com a água cedida por alguns moradores da rua 20, onde há água, que passam a mangueira para que os outros moradores possam usá-la.
As 51 famílias não têm caixas d'águas, nem água encanada (vinda da rua). Da rua 20 são sete residências que cedem água para 34 famílias da rua 21, 14 famílias da rua 22 e três da 23.
A água distribuída através de mangueiras, que ficam nos quintais das casas da rua 20 para as demais, não
é suficiente para abastecer todas as residências. Por isso, grande parte dos moradores ficam sem o produto e até as crianças saem lesadas.
A dona de casa Adriana de Almeida Lemes, que mora na rua 23, não sabe mais o que fazer. Ela tem quatro filhos e um deles ainda
é bebê. "A caixa d'água está trincada e não temos dinheiro para comprar outra. Sem água não consigo nem fazer comida para meus filhos", desabafa.
Outro morador que também critica a situação
é o pedreiro Rogério Amâncio, que está desempregado e mora na rua 21. Ele disse que o sufoco para usar a água é tão grande que faz malabarismos para utilizá-la. "Para tomar banho preciso levantar
às cinco horas da madrugada, porque durante o dia sai apenas um 'filete' da mangueira", conta.
O único jeito para as famílias terem um pouco de
água em casa é armazenando-a. Banheiras, tambores e baldes são alguns recipientes utilizados pelos moradores para guardar o precioso líquido. A dona de casa Adalgiza Henrique Ferreira, relata que toda água que chega até sua residência é armazenada em diversos baldes. E revolta-se: "O problema é que ninguém se importa com a nossa falta de água, seja se não estamos conseguindo lavar nossas roupas, fazer comida ou dar banho em nossos filhos".
O gerente de ação regional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), Élio Busch, quando questionado sobre o assunto exaltou-se, mas apenas transferiu as responsabilidades para o Departamento de Água e Esgoto (DAE). E frisou: "Não tenho nada a ver com a falta de água no desfavelamento, isso é de responsabilidade do DAE e da Prefeitura. É má vontade da autarquia em levar água para o núcleo".
A assessoria de imprensa do DAE contra-atacou, dizendo que a instalação de hidrômetros nas três ruas restantes do bairro não poderiam ser feitas porque há ainda irregularidades nas casas. No entanto, há 483 hidrômetros no Desfavelamento e, segundo a assessoria, só as ruas 20 e 21 constam na listagem das casas que estão irregulares. O DAE alega que não recebeu solicitação de água nas ruas 22 e 23 e, por isso, não fez a ligação.
"A autarquia só faz a ligação da água encanada em residências que o proprietário tenha o carnê do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) ou comprovante de renda ou mesmo uma escritura da casa", argumenta a assessoria.
Busch ressaltou ainda que, esse é um problema que ele nunca irá resolver. No entanto, a presidente da Associação de Moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima, Ivani de Oliveira Pires, está procurando uma saída. Ela foi até a delegacia da Vila Falcão e registrou um Boletim de Ocorrência
(BO). No BO consta que, por não ter água encanada nem esgoto no bairro, a população está sendo prejudicada. "Essa é uma preservação de nossos direitos", salienta.
Além disso, Ivani levou o caso mais adiante e foi até o Fórum falar com a promotoria da justiça. "Um assistente da promotoria disse que devo levar um abaixo-assinado dos moradores que estão sem água, para que eles analisem e entrem com um processo", destaca.
Enquanto isso, os moradores das três últimas ruas do bairro ficam aguardando as decisões sem água em suas torneiras.
Brigas e corte de água
Um outro problema enfrentado pelas famílias que recebem
água da rua 20 são as brigas de casais e também algumas richas, que fazem os moradores fecharem o registro, não permitindo descer uma só gota do produto. A dona de casa Rosimeire Mamed Delfino, moradora da rua 20, disse que seu marido já fechou o registro para que a água não fosse para as demais casas. Ela conta que em vários dias a água ficou escassa, porque muitas pessoas usavam-na ao mesmo tempo. Seus afazeres domésticos acumulavam-se e seu marido ficou irritado de emprestar a mangueira e eles mesmos não conseguirem utilizar a água. "Algumas vezes ele chegou a fechar o registro porque quando chegava do trabalho não tinha água para tomar banho", lembra.
Esse é um dos motivos pelo qual os moradores sentem-se mais inseguros ainda. "Além de não termos água encanada, ainda ficamos com medo de que os vizinhos cortem a da mangueira, principalmente se o DAE instalar os hidrômetros", finaliza a dona de casa Dorca Augusto Costa.