D. Aloysio vai para Botucatu e bispado fica vago
Texto: Adriana Rota
O bispo diocesano de Bauru, dom Aloysio Leal Penna, 66 anos, foi nomeado para assumir o arcebispado de Botucatu. A notícia, vinda de Roma, foi oficializada ontem. A partir da data de sua posse, agendada para o dia 27 de agosto, um administrador diocesano assumirá algumas responsabilidades por tempo indeterminado, até que o próximo bispo seja nomeado.
Dom Aloysio substituirá dom Antônio Mucciolo, 77 anos, que há dois passou da idade-limite considerada pelo Vaticano para a ocupação do cargo (75 anos). Após a posse, o Conselho de Consultores formado por seis padres nomeados pelo bispo logo que assumiu o cargo (em 1990), tem o prazo de oito dias para apontar um administrador diocesano, que vai acumular as tarefas habituais de sua paróquia e da diocese, mas com um campo de ação limitado. Ele não poderá, por exemplo, transferir ou ordenar padres, embora seja autorizado a crismar.
Não existe uma data certa para que Bauru tenha um novo bispo. Sua identidade também é desconhecida. Em matéria publicada no JC de 9 de janeiro deste ano, entrevistas realizadas com pessoas dos "bastidores" da Igreja Católica apontaram para três nomes em Bauru: padre Enedir, da Paróquia Universitária, padre Carlos, da São Benedito e monsenhor Almir, da Santa Rita.
Na época, falava-se de uma certa movimentação no sentido de efetuar-se a sucessão de Dom Aloysio, embora ele ainda tivesse pelo menos nove anos para continuar no cargo, considerando-se sua idade. Vale ressaltar, no entanto, que o novo bispo não precisa ser, necessariamente, da diocese local.
As pessoas consultadas na ocasião, ouvidas novamente, não descartaram esses nomes, mas afirmaram que o cenário hoje modificou-se. Acredita-se que o sucessor de dom Aloysio deva seguir a mesma linha considerada moderada, que permite uma penetração fácil do setor mais conservador ao mais progressista.
Essa tendência teria sido iniciada na época de seu antecessor, dom Cândido Padim, embora ele seja considerado mais contestador do que dom Aloysio, até para fazer frente ao cenário do poderio militar da época.
Dom Aloysio, que ontem estava em Itaici, região de Campinas
(SP), participando de uma assembléia estadual de bispos, disse ter seu candidato, mas preferiu não citar nomes. Ele falou com a reportagem do JC por telefone.
Com algum pesar, mas pronto para o novo desafio, explicou que a escolha do arcebispo tem início com a realização dos estudos preparatórios feitos pela Nunciatura, uma espécie de embaixada da Santa Sé, existente em quase todos os países, que forma uma cadeia de informações para traçar o perfil dos "candidatos" a bispos e arcebispos.
Em seguida, suas conclusões são enviadas para a Congregação dos Bispos, em Roma, presidida pelo cardeal Lucas Moreira Neves. A documentação é analisada e repassada para o Papa, que é quem dá a última palavra.
Veja abaixo a entrevista com dom Aloysio.
JC - Quando o senhor soube da notícia?
Dom Aloysio Leal Penna - Quando eu estava em Porto Seguro
(por ocasião das comemorações do Descobrimento do Brasil) fui chamado pelo núncio e ele deu a notícia. Depois, fiz aquela viagem para a Terra Santa e para Roma. Chegando lá, fui chamado pelo cardeal.
JC - Por que o senhor?
D. Aloysio - Acho que a palavra dos bispos da província influenciou muito na escolha, já que o arcebispo é uma espécie de líder deles todos. Depois, os cardeais e arcebispos também foram consultados, e parece que eles me indicaram.
JC - O cargo não é para qualquer um...
D. Aloysio - Modestamente falando, eu tenho relacionamento fácil com as pessoas em geral, a imprensa, os religiosos. Procuro tratar bem, compreender, trabalhar junto, não ser autoritário, isso ajuda. Mas são convicções minhas, pessoais, faço naturalmente.
JC - O senhor está feliz?
D. Aloysio - Gosto muito de Bauru, do clero, do povo e já estou com saudades de toda essa realidade. Humanamente, afetivamente, emocionalmente falando, é duro, mas a gente está aí para servir a Igreja, procurando fazer o melhor possível.
JC - O cargo está sendo encarando como um desafio?
D. Aloysio - Sim. Há pouco tempo, transferi oito padres de Bauru e o povo ficou bravo comigo. Eu comentei que acho bom novos desafios, a pessoa não se acomodar. Agora eu tenho de dar o exemplo, porque pedi isso para os padres, agora foi pedido para mim. Vou ter saudade, isso é humano, e não tenho vergonha de dizer.
JC - Na prática, qual será a diferença em Botucatu?
D. Aloysio - Eu vou ter um trabalho mais amplo. A arquidiocese de lá é maior que a de Bauru e, além do encargo da sua diocese, o arcebispo tem uma certa liderança nas oito dioceses do arcebispado. Então, tem de procurar fazer um esforço de comunhão entre elas, trabalhar para promover planos pastorais, reuniões. A responsabilidade
é maior, embora Bauru também seja cheia de desafios. Mas eu procurei preparar gente para essa realidade, mandei nove padres para se especializar no Exterior.
JC - As comunidades, são semelhantes?
D. Aloysio - Acho que sim, embora tenha ouvido dizer que o povo de Botucatu é mais tradicional que o de Bauru, tem uma tradição religiosa maior. Bauru é muito cosmopolita, recebe gente de toda parte. Então, os desafios são diferentes. De alguma maneira, na parte religiosa, acho que Botucatu é mais fácil porque tem uma população mais fixa.
JC - E o apoio das pessoas?
D. Aloysio - Eu costumo dizer uma coisa, que a turma não compreende muito: o bispo, do ponto de vista afetivo, humano, não tem comunidade. É bispo de todas as comunidades e de nenhuma. Os padres, nas paróquias, têm muito mais vida de comunidade e oportunidade de aprofundar a amizade do que o bispo. Então, nesse sentido, nós temos menos apoio. Ter a capacidade de liderança com os padres, leigos é um outro desafio. Por exemplo, a gente tem de aceitar cada padre como ele é. Os de Bauru, eu conhecia muito bem. Agora, tenho de começar tudo de novo.
JC - Como ficam os projetos que já estavam em andamento?
D. Aloysio - A continuidade vai depender do próximo bispo. Neste ano a gente está acabando o sexto plano de pastoral, que é o Projeto Comunhão e Participação
(Procompar). Eu já estava organizando o próximo, mas o novo bispo terá de fazer isso.
JC - Quando os projetos estão dando certo, a tendência
é que haja uma continuidade, não é?
D. Aloysio - Sim, que o próximo bispo tenha afinidade com o que está sendo realizado. Porque não é como uma Prefeitura, um partido político, em que um faz o contrário do anterior. A gente caminha mais ou menos na mesma direção, mas cada um com suas características.
JC - Quando Bauru terá um novo bispo?
D. Aloysio - O prazo é variável. Tem lugares que é rápido, em outros, demora até três anos. Mas, em Bauru, acho que demora, no máximo, um ano. Eu vou lutar para que ocorra o quanto antes. Tenho uma certa autoridade para falar com o núncio, para que ele nomeie logo. Quando eu tomar posse, o Conselho de Consultores deve reunir-se num prazo de oito dias para eleger um administrador diocesano, dentre todos os padres da diocese, que vai governá-la até a nomeação de um novo bispo.
JC - Existem "candidatos" ao cargo?
D. Aloysio - Hoje, eu creio que existem mais de 200, mas os nomes são de candidatos para a diocese, não para Bauru especificamente. A Nunciatura tem de ver um que "case" mais com Bauru, tenha condição de pegar um ambiente universitário. Não pode ser um bispo que não tenha nenhuma prática no terreno da educação. Eu vou poder descrever o perfil do bispo que seria bom para Bauru, porque o núncio, geralmente, consulta antes.
JC - O senhor já tem seu "candidato"?
D. Aloysio - Tenho (risos). Mas não posso falar de onde é porque isso pode atrapalhá-lo. A Igreja não gosta de pressão. Se ela percebe que o sujeito está querendo ser, ele não passa, porque não
é coisa que se deva ambicionar.
JC - Acontece, no entanto, de a comunidade aclamar alguns nomes, não é?
D. Aloysio - Mas não é esse o método. A comunidade pode, discretamente, falar, mas se fizer campanha, acaba sendo negativo.
JC - Mas a aceitação da comunidade é positiva?
D. Aloysio - Sim. No entanto, se houver a campanha, mesmo que o padre não tenha nada a ver com isso, pesa negativamente.
JC - É raro ser eleito um bispo da própria diocese?
D. Aloysio - É raro, mas não é impossível. O meu substituto em Paulo Afonso (BA), foi da própria diocese. Fui eu que indiquei.