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Mortalidade infantil

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 9 min

Pré-natal tardio aumenta taxa de mortalidade

Texto: Adriana Rota

Prematuridade é maior causa de mortalidade neonatal. Acompanhamento médico pode evitar problemas

Um levantamento feito pelo Comitê de Mortalidade Materno-Infantil de Bauru, ligado à Secretaria Municipal de Saúde

(SMS), com dados do ano passado, mostra que pelo menos 37% das gestantes atendidas nos núcleos de saúde da cidade

(quase 78% delas) iniciam o pré-natal tardiamente, no segundo ou terceiro trimestres de gravidez. Nas gestantes assistidas em consultórios particulares, 100% iniciam o acompanhamento no primeiro trimestre.

Embora o acompanhamento pré-natal tenha tido uma cobertura de 81,52% em 1999, o início tardio é preocupante, considerando-se que parte dos problemas de saúde que levam

à prematuridade (maior causa de mortalidade neonatal) podem ser evitados se diagnosticados no início.

No entendimento da pediatra Jaíra Maria Rocco Kirchener, membro do Comitê, mais do que fornecer informação,

é necessário criar uma conscientização, uma cultura, especialmente nas famílias mais carentes, de modo que elas usufruam plenamente do que é oferecido pelo sistema público.

Sessenta e seis por cento dos bebês mortos são de famílias com condição social baixa e, nesse contexto, Jaíra acredita que os meios de comunicação de massa ainda são muito omissos na criação de consciências, especialmente aqueles de grande penetração popular, como o rádio e a televisão.

A médica exemplifica dizendo que, além do atendimento médico, os núcleos de saúde oferecem orientação em diversos campos para que mãe e filho tenham uma saúde melhor. No entanto, a participação é muito pequena, o que demonstraria uma falta de interesse, potencialmente despertável. "Elas gastam muito com bobagem. É possível, por exemplo, fazer uma boa alimentação gastando pouco e isso é transmitido pelas nutricionistas", afirmou.

Algumas causas de mortes de bebês estão relacionadas com problemas de saúde da mãe e deficiências alimentares. As condições do parto e do período pós-parto também são determinantes, especialmente no componente neonatal (crianças menores de um mês). Nesse item, houve uma redução de 10% nos últimos seis anos em Bauru.

As medidas básicas de saúde, como saneamento, vacinação, disponibilidade de consultas médicas ambulatoriais e de urgência também concorrem para contribuir com o aumento da mortalidade infantil. Essas influenciam mais o componente infantil tardio (crianças maiores de um mês), cujos índices de mortalidade, no mesmo período, reduziram 49%.

De 1989 a 1999, a mortalidade infantil como um todo declinou 29% na cidade, seguindo uma tendência nacional. Dados de 1988 a 1997 já demonstravam que Bauru tinha um coeficiente de mortalidade inferior ao do Estado e da Capital. Comparações do Brasil com países da América Latina, feitas em 1997, dão conta de que o País tem índices maiores que a maior parte deles, com exceção apenas da Bolívia e do Haiti.

No ano passado, aproximadamente 72% dos óbitos de crianças menores de um ano ocorreram no primeiro mês de vida, mais precisamente, nos primeiros seis dias, em Bauru. A causa principal foi a prematuridade (48%), seguida de malformações

(17%), afecções relacionadas às condições de nascimento e cuidados pré-parto (18%) e infecções

(15%).

Já a mortalidade infantil tardia, que ocorre nos maiores de um mês de idade, correspondeu a 28% dos óbitos. A principal causa foi asfixia por aspiração de leite regurgitado (33%), seguida de afecções respiratórias

(25%) e doenças infecciosas (12%).

Quanto aos natimortos, o coeficiente tem-se mantido sem alterações significativas nos últimos anos, sendo a falta de oxigenação

(anóxia) intra-uterina (69%) e o descolamento prematuro da placenta (12%) as principais causas. Jaíra salienta que a anóxia, como causa básica da morte, é uma inadequação no preenchimento da declaração de óbito, porque existe uma causa materna que desencadeia esse processo e deveria ser citada pelo médico que faz o documento.

Comitê investiga mortes

O Comitê de Mortalidade Materno-Infantil de Bauru foi instituído em 1994. Formado por um profissional de pediatria, um de ginecologia, um de assistência social e um de enfermagem (não disponível momento), ele investiga todos os óbitos de crianças até 12 meses de idade e de mães que sejam moradoras de Bauru, procurando avaliar as condições de vida da cidade.

Os resultados são repassados à SMS, de modo que sirvam como base para as políticas públicas da área, e para os médicos da rede municipal, em reuniões bimestrais, para que conheçam a realidade local.

A pediatra Jaíra Maria Rocco Kirchener, membro do Comitê, explica que os dados do levantamento são sujeitos à revisão, considerando-se eventuais mortes ocorridas em outras localidades, objetos de inquérito, acidentes, dentre outros, que ainda não tenham sido computadas.

Mortalidade cai, mas ainda é alta no País

Estimativas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE), divulgadas na última terça-feira, dão conta de que deverá ser registrada uma queda de 27% no

índice de mortalidade infantil dos últimos dez anos no Brasil. Ou seja, serão 35,3 bebês mortos por cada mil nascidos vivos, 12,5 a menos do que em 1990.

Os programas de saúde pública seriam os grandes responsáveis pela diminuição na mortalidade. Eles incluem campanhas de aleitamento materno, produção de soro caseiro, vacinação, o programa "Médico na família", saneamento e educação.

Apesar da diminuição da mortalidade, as diferenças entre as regiões e os Estados são nítidas: Alagoas tem 68,4 óbitos por mil nascidos, enquanto o Rio Grande do Sul apresenta o índice de 18,99 por mil. A concentração de renda nas regiões Sul e Sudeste levam à estimativa de uma diferença de 150% para 2000 em relação ao Nordeste. Em 1930, a diferença era de 60%, subindo para 83% em 1965.

O estudo demonstra, também, que o País não cumpriu uma das 19 metas estabelecidas dez anos atrás na Cúpula Mundial pela Criança, realizada em Nova Iorque, de 30 mortes por mil nascidos vivos. O documento foi assinado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello.

Prefeitura reedita Programa de Suplementação

A Prefeitura Municipal de Bauru, através da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), vai começar a cadastrar, provavelmente no início do próximo mês, mil crianças de zero a três anos de idade para o Programa de Suplementação Alimentar, visando combater a desnutrição. Concluído o cadastramento, segue-se à feitura de licitação e início da distribuição.

Elas receberão uma cesta básica composta por leite vitaminado e sopa liofilizada, em quantidade diferenciada de acordo com a faixa etária (zero a seis meses, seis a 12 meses ou 12 a 36 meses). A composição exata e a quantidade a ser distribuída para cada uma está sendo estudada, mas já se sabe que os "alvos" serão os bolsões de pobreza da cidade.

Funcionários da Sebes farão as visitas e determinarão quais famílias serão contempladas, seguindo critérios socioeconômicos. As crianças passarão por um monitoramento, que vai avaliar suas condições de saúde e se os responsáveis estão cuidando para evitar problemas, com visitas de rotina a pediatras, por exemplo.

O programa atual é uma espécie de reedição de outro com o mesmo nome, executado durante o governo Izzo Filho, quando o prefeito Nilson Costa (PPS) acumulava o cargo de titular da Sebes. Na época, crianças com idades até seis anos eram beneficiadas. Gradativamente, no entanto, por falta de verbas, as doações foram sendo cortadas até a extinção definitiva. De acordo com Costa, como a Prefeitura está priorizando a Saúde e a Educação, será possível dar prosseguimento ao projeto.

Cesta básica infantil

A Câmara Municipal de Bauru aprovou, no início de maio, o projeto de lei de autoria da vereadora Catarina Carvalho

(PFL) que propunha o fornecimento de uma cesta básica às crianças carentes do município, composta pelos mesmos alimentos do programa da Prefeitura.

O diferencial seria a adição de um kit de limpeza mensal - com sabonetes, pedras de sabão, cremes dentais e pano de prato - e, outro, bimestral - com escovas dentais, avental, escova e bico de mamadeira. O vereador Harley Caçador (PPB) fez uma emenda aditiva sugerindo a colocação de fraldas de tecido no kit.

O prefeito Nilson Costa (PPS), no entanto, vetou o projeto de lei por entender que não é competência do vereador legislar sobre o assunto. Além disso, acredita que os itens de limpeza e higiene inviabilizariam economicamente a idéia. Salientou, ainda, que a Prefeitura já vinha estudando a possibilidade de efetivar o programa há algum tempo, independentemente da iniciativa do Legislativo Municipal.

Viva Leite atende 553 crianças

O programa Viva Leite, parceria entre os governos Estadual e Municipal, atende 553 crianças entre seis e 36 meses de idade. A prioridade

é dada para aquelas de até 23 meses, cujas famílias possuem renda mensal de até dois salários mínimos, preferencialmente, as que estão com o chefe desempregado ou que a mãe é arrimo de família.

Até outubro do ano passado, o nome do programa era Campo/Cidade-Leite. Crianças de até seis anos eram atendidas e a cota diária era de meio litro para cada uma. Achou-se por bem aumentar a quantidade individual, cortando pela metade o número de atendidos. Hoje, a lista de espera conta com 160 crianças, que ainda não passaram pela avaliação socioeconômica.

Uma equipe da Secretaria de Saúde estuda a quantidade de leite suficiente para a faixa etária contemplada para, eventualmente, incluir outras crianças no programa. Paralelamente, as famílias são monitoradas constantemente, de forma que só receba o benefício quem, de fato, esteja necessitando.

A titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Sandra Scriptore, salientou que existem diversas entidades na cidade, pastorais, grupos da comunidade e, outros, ligados às universidades, que contribuem no combate à desnutrição e, indiretamente, à mortalidade infantil, propiciando melhores condições de vida.

Beneficiadas

A auxiliar de serviços gerais Valquiria Ferreira dos Santos, 28 anos, desempregada há três meses e mãe de seis filhos, recebe leite para a menor, Francine, de um ano e três meses. Embora as outras crianças também peçam o alimento, ela disse dividi-lo apenas entre a mais nova e a de três anos, acrescentando água para "render". Valquiria contou que as crianças têm baixa resistência, mas o quadro poderia agravar-se caso fosse suspenso o recebimento do leite.

A filha menor de Maria Adélia Gomes da Silva, 20 anos, tem a mesma idade de Francine e também está cadastrada no Viva Leite. A mãe acha que a quantidade é suficiente e diz que, quando há sobra, é possível pegar um pouco mais do que o habitual e distribuir entre os filhos de dois e quatro anos.

Mas, normalmente, quem arca com as despesas dos maiores é a avó, Maria do Socorro, 40 anos, com quem a família mora. Crítica, ela acha que Maria Adélia não deveria continuar dependendo de doações. "Criei sete filhos sozinha e estão todos aí", orgulha-se.

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