Dor de cabeça: polêmica entre médicos
Cerca de 95% da população mundial tem uma cefaléia pelo menos uma vez na vida. O problema dá prejuízos anuais de US$ 17 bilhões nos Estados Unidos
A Sociedade Brasileira de Cefaléia anunciou nesta semana que os médicos não sabem tratar a dor de cabeça de forma eficiente. Segundo a instituição, cada especialista prescreve um tratamento diferente para o problema, quase sempre sem um conhecimento mais extenso sobre o assunto.
Esta conclusão foi confirmada por um estudo realizado pelo neurologista Marcelo Eduardo Bigal, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Ele escolheu uma cidade com 40 mil habitantes no interior do Estado. Dos 50 médicos da cidade, cujo nome não pode ser divulgado, 47 tratavam pacientes com cefaléia. Um fato curioso é que, dependendo da especialidade de cada médico, o diagnóstico mudava.
Os oftalmologistas, por exemplo atendiam cerca de 20 pacientes com cefaléia por semana. Segundo o estudo, todos os pacientes eram diagnosticados com problemas relacionados à visão.
"Problemas com visão não causam a cefaléia. Eles podem causar dores localizadas, mas não dor de cabeça", disse Bigal.
O mesmo quadro foi observado nas demais especialidades. Os otorrinolaringologistas atendiam cerca de 10 pacientes por semana com dor de cabeça e diziam ser sinusite. Os ortopedistas, que atendiam 10 pacientes por semana reclamando de dores de cabeça, ofereciam um diagnóstico de cefaléia não especificada.
"É a mesma coisa que entrar no consultório com a dor de cabeça e sair com o diagnóstico de dor de cabeça", informou o médico. "Todos eles tratam algo que eles não sabem o que é."
Para o presidente da Sociedade, Carlos Alberto Bordini, os médicos precisam ser melhor treinados para o problema. "É o caso de repensar o ensino nas escolas médicas", disse. Segundo Bordini, as faculdades de Medicina não estão dando treinamento adequado para um problema tão freqüente quanto a dor de cabeça e uma forma de reverter isso seria criar cursos para ensinar aos médicos, principalmente os ginecologistas e clínicos gerais, como tratar cefaléia.
"Um médico nunca deve tratar um paciente se ele não conhece a doença", concluiu Edgard Raffaelli Júnior, presidente da Associação Latino-Americana de Cefaléia.
Discussão
Diante da polêmica, médicos que não são neurologistas defendem o tratamento de cefaléia em seus consultórios. Segundo os ginecologistas, a dor de cabeça na mulher é freqüentemente associada ao período menstrual e à oscilações hormonais, o que passa a ser especialidade ginecológica. Já os clínicos gerais avaliam que eles devem ser procurados antes mesmo dos neurologistas, por terem condições de fazer uma "abordagem bem mais ampla".
Para o ginecologista Pedro Paulo Roque Monteleone, ex-presidente do Conselho Regional de Medicina, "afirmar que toda pessoa que sofre de dor de cabeça precisa procurar um especialista,
é terrorismo", já que a maioria das pessoas pode curar a dor com analgésicos comuns.
Cefaléia altera qualidade de vida
A cefaléia, mais conhecida como dor de cabeça, atinge cerca de 93% das pessoas em alguma época da vida. Em um dia qualquer, cerca de 18% das mulheres e 6% dos homens no mundo terão cefaléia. Em geral, estas dores de cabeça são de intensidade leve a moderada, de curta duração e não necessitam de medicações para seu alívio. No entanto, muitas pessoas têm dores de cabeça que chegam a ser incapacitantes, ocasionando faltas ao trabalho e deterioração da qualidade de vida.
Estimativas indicam que, nos Estados Unidos, a cefaléia causa prejuízos que podem chegar até a US$ 17,2 bilhões, devido à queda de produtividade na força de trabalho. Calcula-se também que são perdidos ao ano um milhão de dias escolares e 150 milhões de dias de trabalho em função do absenteísmo provocado por crises de dor de cabeça.
Existem cerca de 150 tipos de cefaléias, os mais comuns são a tensional e a enxaqueca, que acometem, respectivamente, 93% e 25% da população. A enxaqueca é um tipo de cefaléia causada por alterações dos vasos sangüíneos, causando inicialmente uma vasoconstrição e, depois, vasodilatação, o que provoca um aumento da pressão intracraniana, causando a dor. Ocorre pela associação de predisposição genética com agressões do meio ambiente.
Já a cefaléia tensional, o tipo mais comum de cefaléia,
é provocada pela contração dos músculos da parte posterior da cabeça e do pescoço. Esse tipo de dor de cabeça acontece depois que a causa da tensão acabou.
Para evitar dores de cabeça, os médicos recomendam: evitar alimentos condimentados e/ou gordurosos, bebidas alcoólicas e refrigerantes, fumo. Também tomar muita água, fazer exercícios regularmente, manter-se longe de fumaças e perfumes fortes, evitar bebidas estimulantes (como café, chá, chocolate e refrigerantes), desviar-se de tensões e causas de estresse.
Quem costuma ter crises freqüentes de dor de cabeça precisa, antes de mais nada, identificar a origem da cefaléia. Tratando as causas, quando possível, certamente haverá melhora dos sintomas.
Medicamentos
Princípio ativo
Ácido acetilsalicílico
Dipirona
Ergotamina
Ibuprofeno
Paracetamol
Paracetamol + cafeína
Vantagens
Tratamento de dores fracas e moderadas, combate à inflamação e febre
Alívio da febre e dor
Alívio das enxaquecas
Alívio da dor, combate à inflamação e febre
Tratamento de dores leves a moderadas, com menos efeitos colaterais
Alívio das enxaquecas
Efeitos colaterais
Irritação ou sangramento gastrointestinais; pode causar reações alérgicas
Hipotensão, discrasias sangüíneas, reações de hipersensibilidade ao medicamento
Cefaléias de rebote, náuseas, irritações gástricas
Problemas gástricos
Muito raros. Ocorrem apenas quando usado em excesso ou em pacientes alérgicos ao princípio ativo
Irritações gástricas, ansiedade em pessoas sensíveis à cafeína
Fonte: Estratégia Assessoria de Comunicação