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Cegueira

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Doenças evitáveis ainda causam cegueira

Número de cirurgias para catarata aumenta no País, mas acompanhamento pós-cirúrgico mostra-se indispensável

Doenças que podem ser tratadas ou prevenidas continuam sendo as principais causas de cegueira em idosos no Brasil. É o caso dos distúrbios de refração (miopia, hipermetropia, vista cansada e astigmatismo), da catarata, do glaucoma e do diabetes. Nos países que já controlaram essas doenças, o problema que mais freqüentemente provoca perda de visão depois dos 60 anos é a degeneração macular senil - uma dificuldade de enxergar objetos no centro da visão, que ainda não tem tratamento eficaz.

Na opinião de especialistas, essa diferença entre o Brasil e os países desenvolvidos se explica pela incapacidade do serviço público de saúde de atender todos os pacientes com problemas de visão. O maior exemplo é a catarata, a mais comum das doenças que causam cegueira.

"Praticamente não existe indivíduo com mais de 80 anos sem catarata. Mas, infelizmente, as pessoas mais pobres não têm acesso a serviços que fazem tratamento correto da doença", afirma José Carlos Reys, professor de Oftalmologia da Unifesp.

Segundo Newton Kara José, professor da Universidade de São Paulo e da Unicamp, "o número mínimo de cirurgias para catarata que o SUS deveria realizar é de 350 mil por ano". Atualmente a rede pública de saúde realiza anualmente cerca de 250 mil cirurgias.

As outras doenças que têm prevenção ou tratamento também encontram barreiras para erradicação.

"É difícil criar tratamentos em massa para o glaucoma, porque essa doença é mais complicada", diz Kara José. Para diagnosticar o glaucoma, são necessários mais exames do que para a catarata. Além disso, o tratamento requer mais remédios e a cirurgia corretiva

é mais complexa.

No caso dos distúrbios de refração, campanhas educativas ajudariam a população a reconhecer o problema. "Falta de óculos é um problema importante de saúde pública", afirma Kara José.

Para o diabetes, é necessário fazer o diagnóstico da doença ainda no início, para evitar o desenvolvimento da retinopatia diabética - a perda de visão provocada por pequenos sangramentos na retina. Quanto mais descontrolada a taxa de açúcar no sangue, maiores as chances de desenvolver a retinopatia. Quando diagnosticada a tempo, a retinopatia pode ser tratada com aplicações de raio laser, que diminuem os sangramentos. As pessoas com diabetes devem consultar o oftalmologista pelo menos uma vez por ano. O médico deve realizar o exame de fundo de olho, que avalia a retina.

Degeneração senil

A degeneração macular senil é um tipo de inflamação que acomete a mácula - a região da retina que é responsável pelo centro da visão. Ocorre morte de células nessa área. Por isso, a doença é irreversível e progressiva. Não existe tratamento definitivo para a degeneração, mas, em fases iniciais da doença, as aplicações de laser melhoram a visão. Enquanto não existe tratamento eficaz, a prevenção é a melhor forma de combater a doença.

A exposição excessiva aos raios ultravioleta predispõe

à degeneração macular. Para prevenir o problema,

é preciso usar óculos e lentes com filtro para raios ultravioleta. "Depois dos 50 anos, tomar suplementos de vitamina E e selênio também ajudam na prevenção", diz Kara José. O mecanismo de ação do selênio e da vitamina E na prevenção da degeneração macular ainda não foi esclarecido.

Os primeiros sinais da degeneração são centro da visão borrado e impressão de que as linhas retas são retorcidas como um fio de telefone. Com a progressão da doença, surgem manchas negras no meio do campo visual e a pessoa deixa de enxergar objetos que passam por essa área da visão. Os pacientes com degeneração macular não costumam ficar totalmente cegos porque, em geral, a visão periférica fica preservada. (AF)

Cirurgias aumentam

Se fossem realizadas 500 mil cirurgias para tratamento de catarata por ano, o Brasil acabaria com a cegueira provocada pela doença. Essa é a previsão de Allen Foster, presidente eleito da Agência Internacional para Prevenção de Cegueira. Estima-se que o Brasil tenha 900 mil cegos.

A catarata - curada apenas com cirurgia - é a principal causa de cegueira em todo o mundo. O número de cirurgias para catarata cresceu quatro vezes em quatro anos no Brasil, chegando a 240 mil operações por ano, de acordo com dados do Sistema Único de Saúde. Para Foster, esse crescimento já é um avanço, fazendo do Brasil um exemplo no combate à cegueira. "Avaliada em termos de custo e benefício, a cirurgia não é cara e devolve um direito ao indivíduo: o de enxergar", afirma Foster.

Especialistas destacam que adultos com mais de 50 anos e crianças são os principais alvos para garantir a boa visão. Os adultos acima de 50 anos precisam passar por exames periódicos, evitando a cegueira causada pela catarata. Quase todos nessa faixa etária precisam usar óculos para leitura.

As crianças devem ter a visão avaliada quando começam a ser alfabetizadas. "Cerca de 7% delas precisam de óculos", afirma o oftalmologista Newton Kara José, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "É preciso detectar quem são essas crianças e dar óculos a elas, para que possam ter maior qualidade de vida."

O Ministério da Educação mantém parceria com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia para examinar crianças que ingressam na 1.ª série na rede pública de ensino e fornecer óculos gratuitamente para aquelas que precisam.

Estimativas da Organização Mundial da Saúde

(OMS) apontam 50 milhões de cegos no mundo. Caso a situação atual das políticas de saúde sejam mantidas, em 2020 esse número subirá para 75 milhões. Foster explica que há três fatores que contribuem para o aumento da cegueira no mundo: crescimento da população, da expectativa de vida e serviços de saúde ocular inadequados. (AE)

Pós-cirúrgico

Aumentar o número de cirurgias para a catarata não

é o bastante para resolver o problema da cegueira em países em desenvolvimento. Uma pesquisa publicada na revista médica inglesa "The Lancet" em janeiro deste ano sugere que equipar os hospitais e acompanhar os pacientes após a cirurgia

é fundamental para o sucesso das campanhas de incentivo

à cirurgia de catarata.

Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina Tropical de Liverpool entrevistou pacientes de uma província da Índia que foram submetidos à cirurgia de catarata nos anos de 96 e 97. A Índia havia implantado um programa de cirurgias em acampamentos itinerantes para tentar atender os 3,8 milhões de casos de cegueira provocados por catarata que surgem por ano no país. Esses acampamentos prestavam assistência

à população rural e não dispunham de recursos avançados em oftalmologia.

Os resultados da pesquisa mostraram que 49% das pessoas que usaram os acampamentos do Governo não estavam satisfeitas com a visão após a cirurgia. Entre aqueles que passaram pelo tratamento, 36% continuavam cegos.

Nesse estudo foram avaliados também os pacientes operados em um hospital-escola e em um hospital não-governamental. O sucesso da cirurgia era mais freqüente nessas instituições quando comparados aos acampamentos itinerantes. Porém os custos da cirurgia foram maiores no hospital-escola.

Os pesquisadores verificaram que, apesar de os acampamentos terem um baixo custo de implantação, eles não eram eficientes como medida de tratamento em massa para a catarata.

O estudo aconselhou o Governo da Índia a rever sua estratégia de combate à catarata, sugerindo que os pacientes fossem encaminhados para hospitais mais bem equipados e reavaliados após a cirurgia para verificar o resultado do tratamento. (AF)

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