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Homicidas

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 7 min

Maior parte dos homicidas não tem antecedentes criminais

Texto: Adriana Rota

Homicida da região é homem, tem entre 18 e 25 anos, pouca instrução, sem antecedentes e pratica o crime por motivo passional ou vingança, utilizando arma de fogo.

Contrariamente ao que se possa imaginar, a maior parte das pessoas que cometeram crimes de homicídio em Bauru e cidades da região neste ano não tinham antecedentes criminais. Essa foi uma das conclusões obtidas a partir de um levantamento realizado pelo Centro de Assinalação Criminal (CAC), ligado ao Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo - Interior (Deinter-4).

O relatório, intitulado "Perfil do Homicida", foi concluído no último dia 13, mas é resultado da análise feita no período de 1.º de janeiro a 30 de abril deste ano. O trabalho foi coordenado pelo diretor do Deinter-4, Anivaldo Registro, e a compilação dos dados apresentados contou com a colaboração do delegado de polícia da Assistência Policial do Deinter-4, Mário Leite de Barros Filho.

Do total de 76 autores dos 53 homicídios de autoria conhecida registrados nas 11 delegacias seccionais de polícia subordinadas ao Deinter-4, 46 não tinham passagem pela polícia. A motivação para o crime, em sua maior parte, esteve relacionada a motivos passionais e vingança (nove cada um). Em seguida aparece a embriaguez, acerto de contas e motivos variados, como brigas por motivos fúteis, segundo informou o diretor do Deinter-4, Anivaldo Registro.

Embora armas de fogo tenham sido utilizadas na maior parte dos casos (62%), a preocupação com o uso crescente de armas brancas (facas, facões e similares) está levando o Deinter a solicitar uma postura mais rigorosa por parte das autoridades policiais no momento em que recebem as ocorrências.

Como foram registrados mais homicídios nos dias da semana

(30), durante o período noturno (40), outra providência solicitada por Registro foi a intensificação do policiamento preventivo especializado nos dias e horários de maior incidência. No entanto, proporcionalmente, a incidência de crimes de morte é maior nos finais de semana (23).

Dentre as 76 pessoas que cometeram crime de homicídio, apenas três eram mulheres (4%). Constatou-se, ainda, que 33 dos acusados, de ambos os sexos, tinham idades entre 18 e 25 anos (43%), seguidos da faixa etária entre 25 e 35 (24%), menores de 18 (17%) e com idade superior a 35 anos (16%).

O perfil do homicida levantado pelo Deinter-4 no período, revela que quase sua totalidade é de pessoas com pouca instrução: 72 cursaram o ensino fundamental (antigo primeiro grau), três são analfabetas e uma tinha curso superior.

Índice de esclarecimento deve ser superior a 50%

A área do Deinter-4 abrange 11 delegacias seccionais: Adamantina, Assis, Bauru, Dracena, Jaú, Lins, Marília, Ourinhos, Presidente Prudente, Presidente Venceslau e Tupã. Juntas, elas registraram 53 homicídios de autoria conhecida e 39 de autoria desconhecida, de janeiro a abril.

A média no índice de esclarecimento foi de 58%, mas houve cidades que atingiram 100% (Dracena, Jaú e Lins). Aquelas que apresentaram índice igual a 50% (Adamantina, Assis e Marília) ou inferior (36%, em Presidente Venceslau), terão de adotar medidas para aumentar a porcentagem, segundo determinou o diretor do Deinter.

Ourinhos solucionou 66% dos seus homicídios; Tupã, 60%; Bauru, 57%; Presidente Prudente, 55%. A seccional que registrou maior número de homicídios no período foi Bauru (21), seguida de perto por Presidente Prudente (20). Com menos ocorrências, aparece Lins (duas). Uma característica comum entre todas as cidades é que o número de homicídios manteve-se no mesmo patamar ou oscilou pouco de mês a mês

(maioria, um ou dois ao mês).

Média de homicídios é comparável a 1.º Mundo

A média de homicídios registrados na área do Deinter-4 é de 23 por mês, número considerado baixo para uma população de quase 2,6 bilhões de habitantes e comparável, segundo o relatório, a países do chamado Primeiro Mundo. A região representaria, então, uma "ilha" de tranqüilidade.

O delegado de polícia da Assistência Policial do Deinter-4, Mário Leite de Barros Filho, que colaborou na compilação dos dados, afirmou ter ouvido, numa reportagem de TV, uma estimativa que dava conta de 30 crimes praticados para cada 100 mil pessoas no Brasil.

Homem não quer "levar desaforo para casa"

O homicida da região do Deinter-4 age por impulso, sem raciocinar e refletir sobre as conseqüências dos seus atos. A atitude é típica do "sangue quente" do homem latino, que não admite "levar desaforo para casa" e "deixar para lá", especialmente quando outros homens estão assistindo. A avaliação

é delegado de polícia da Assistência Policial do Deinter-4, Mário Leite de Barros Filho, aficcionado pelo assunto.

O perfil do homicida traçado por Barros Filho faz referência

à natureza dos crimes praticados por ele: passionais ou de vingança, em sua maioria, e por motivos banais, em menor escala. Nesse contexto o delegado entende que, analisando-se detidamente, esse tipo de homicida é menos perigoso do que a pessoa que comete crime patrimonial, porque esse é premeditado.

"O homicídio, às vezes, é cometido até contra um amigo. É uma reação a um fato que a pessoa interpreta como agressivo de alguma forma. Você pega estatística de roubo e furto e vê que entre 80 e 90% já têm antecedentes criminais. Cinqüenta e sete por cento dos homicidas, não. Mas o Direito interpreta que o dano causado pelo homicida à sociedade é maior, já que a lesão é irreparável".

Sobre a possibilidade de existência de uma personalidade criminosa, Barros Filho citou um médico italiano, chamado Lombroso, que chegou a traçar um fenótipo do criminoso

- baixo, crânio assimétrico, calvo, dentre outras características. O médico era um dos que defendiam a teoria de que caracteres genéticos levavam ao crime.

Em seguida, teria surgido a teoria social, pela qual o criminoso seria "fruto" do meio em que vive, ou seja, influenciado pelos fatores sociais que o cercam. "Hoje prepondera a teoria psicossocial. Estudos científicos demonstram de forma clara que há pessoas com predisposição genética ao crime, mas que o ambiente interfere no processo", disse o delegado.

Isso significa que qualquer pessoa pode ser um assassino em potencial, mas as condições de vida são determinantes para seu destino. O professor-doutor em Psicologia Social, Celso Zonta, afirmou que existe um comportamento de pré-violência, o popular "nervo à flor da pele".

Ele concorda que os valores masculinos, tipicamente machistas, interferem nas atitudes do dia-a-dia, afetando, principalmente, a população da periferia. "Quanto mais acesso aos meios educacionais, menos a pessoa sofre. Essa parcela sofre de um grau de frustração alto, sem benefícios de consumo, muitas vezes, desempregado".

Zonta ressaltou, ainda, que o homem é biologicamente mais violento do que a mulher, característica que estaria relacionado ao hormônio masculino. "A mulher reage com mais ponderação, tenta pôr panos quentes. Não tende a viver em bando. O homem quer mostrar que é mais homem do que o outro. É uma característica cultural".

Apesar dessas conclusões, o professor de Psicologia Social reitera: os fatores socioeconômicos são os que mais interferem na prática do crime.

Outras observações

O delegado de polícia da Assistência Policial do Deinter-4, Mário Leite de Barros Filho, observou que a tendência a agir impulsivamente pode ter, também, ligação à falta de amadurecimento do autor do homicídio: jovens entre 18 e 25 anos, em período de formação do caráter, com alta necessidade de alta afirmação. "Quando amadurece, o homem costuma refletir mais sobre as conseqüências de seus atos", disse.

Outro item que chamou a atenção do delegado foi o grau de instrução dos homicidas, porque seu pressuposto era que encontraria a maior parcela de analfabetos. Ao contrário, apenas três dos 53 crimes foram cometidos por eles, enquanto 72 autores chegaram a cursar o ensino fundamental (antigo primeiro grau).

"Tenho a impressão de que esse grupo encontra-se num estágio perigosíssimo, porque não é totalmente alienado, não está totalmente conformado e almeja galgar diversas coisas, obter algum espaço. Só existem duas saídas: manter as pessoas alienadas, o que

é condenável e inviável, ou dar condições para que tenham acesso a informação e formação suficientes. Isso é que deveria ser feito", acredita.

O que é o Centro de Assinalação Criminal?

O Centro de Assinalação Criminal (CAC) faz parte da estrutura organizacional dos Departamentos de Polícia Judiciária de São Paulo - Interior (Deinters). Sua principal finalidade é colher informações sobre ocorrências policiais, analisar os dados recebidos, verificar a dimensão de um determinado crime, numa região estabelecida e período específico, e elaborar gráficos estatísticos destinados a identificar áreas de maior incidência de delitos.

O CAC de Bauru engloba dados fornecidos pelas 11 delegacias seccionais de polícia subordinadas, dispensando atenção especial às ocorrências de homicídio, mensalmente. Essas informações são processadas e transformadas em relatórios, que servem de subsídios para a execução de planos da Polícia Judiciária e Preventiva Especializada, destinados a neutralizar os pontos críticos detectados.

Fonte - Relatório do CAC/Bauru

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