Desemprego estatal é cobrado do PSDB
Texto: Nélson Gonçalves
O PMDB lidera reação contra a perda de 3036 postos de trabalho na cidade, em cinco anos de privatização
A perda de 3036 empregos diretos em Bauru, produto da concessão de serviços públicos ou do fechamento de empresas estatais, repercutiu, ontem, entre lideranças políticas e na Câmara Municipal. O PMDB passou a liderar uma reação contra a perda dos postos de trabalho. O ex-prefeito Antonio Tidei de Lima foi o primeiro a se manifestar em relação aos números, há pouco mais de um mês. Agora, Tidei de Lima defende a instalação de uma comissão na Câmara Municipal para o levantamento oficial dos casos. O PMDB entende que os prejuízos da privatização para a cidade devem ser compensados.
O ex-prefeito salientou que há pouco mais de quatro anos, Bauru concentrava quase 6000 empregos no setor de prestação de serviços estatais. "Hoje, a metade está sem emprego. É um baque muito grande para a economia local e regional. A economia local é baseada na prestação de serviços, sobretudo de serviços que antes eram estatais, uma característica típica da cidade", comentou Tidei, recentemente.
A repercussão dos níveis de desemprego na cidade vem depois que o JC fez um levantamento entre as entidades sindicais atingidas pelo movimento de concessão de serviços públicos. Os setores telefônico e ferroviário foram os mais prejudicados, com a concessão da antiga Rede Ferroviária Federal e Fepasa. Na opinião do ex-prefeito Tidei de Lima os agentes políticos da cidade precisam cobrar do Governo do Estado a compensação pela perda dos empregos estatais. "Cabe ao Governo do Estado reclamar os efeitos da Lei Kandir, que retirou receita do Governo do Estado de São Paulo. Outros governadores estão sendo compensados pelas perdas. São Paulo também. Então é justo que a cidade se levante contra as perdas da privatização e exija uma compensação do Estado", reclamou Tidei.
O ex-prefeito alfinetou que não viu "ninguém com mandato reclamar pelos prejuízos causados pela entrega de empresas públicas para a iniciativa privada nesta cidade. Os deputados estaduais, o prefeito, aqueles que têm mandato, precisam cobrar do Estado. O Covas cobrou do Fernando Henrique e está sendo atendido. O Estado precisa devolver a Bauru o que retirou com as privatizações", criticou Tidei de Lima. A solicitação de instalação de comissão municipal para analisar o assunto está sendo feita através do vereador Futaro Sato (PMDB). Sato, assim como Tidei de Lima, aponta, por exemplo, as obras inacabadas do Hospital Regional como uma das formas do governo estadual recompensar o que foi retirado de Bauru com as privatizações.
Repercussão
O assunto repercutiu na sessão de ontem á noite, na Câmara Municipal de Bauru. O vereador Paulo Madureira
(PPB) criticou o programa de privatizações implementado pelo governo do PSDB. O presidente da Câmara Municipal reiterou que a privatização de serviços públicos trouxe "o aumento de tarifas, como a telefonia e os pedágios, e a queda na qualidade dos serviços. Além disso, o Governo do PSDB ainda conseguiu deixar sem emprego 3000 famílias de nossa cidade".
Os vereadores Lucrécio Jacques (PPB), Catarina Carvalho
(PFL), Harley Caçador (PPB), Rino Biagio (PPB), Roberto Bueno (PTB) e outros reforçaram as críticas. No conteúdo dos comentários foi reforçada a cobrança para que o Estado realize obras na cidade, entre elas o Hospital Regional, inacabado desde o final do governo Fleury Filho. O tucano Rubens Spíndola ainda arriscou que as estatais paulistas estavam inchadas no governo do PMDB, de Orestes Quércia e Fleury Filho, lembrou que o Baneser era um cabide de empregos e que o atual governo está arrumando a casa. Para rebater, foi mostrado que a ferrovia, por exemplo, está sem manutenção, sucateada, com índices baixos de reaproveitamento de vagões e descumprimento do contrato de concessão.
Efeito na fila
Para o economista Carlos Sette, a privatização dos setores de telefonia, energia elétrica, ferrovias e bancos em nossa região nem sempre trouxe a melhoria na qualidade dos serviços prestados. O drástico enxugamento verificado nos postos de trabalho revela que, em parte, havia um inchaço nas estatais, mas, por outro lado, com a nova política adotada pelas empresas privadas, os funcionários que ficaram foram massacrados em nome da racionalização operacional.
Conforme Carlos Sette "é importante lembrar que quando os clientes internos estão insatisfeitos e desmotivados o cliente externo não é bem atendido, porque os reflexos nesse clima organizacional interno impacta no atendimento e nos serviços prestados aos clientes externos. Devemos ressaltar também que no modelo capitalista selvagem das empresas privadas que adquiriram essas estatais, a mão-de-obra
é considerada um insumo a mais na composição dos custos. E não o seu recurso mais importante".
O economista comentou que "no tempo das estatais, nesses setores, o número de empregos era de 5.901 postos. Depois da privatização, o número é de 3.036.Houve, portanto, uma queda de 48,5% nos postos de trabalho. O impacto desses números para a economia de Bauru foi muito grande, principalmente a queda no consumo do comércio e na utilização dos serviços de forma em geral".
Para Carlos Sette, desse contingente de desempregados, "alguns se aposentaram, outros, principalmente aqueles que participaram dos programas de demissões voluntárias, iniciaram seus pequenos negócios. Uma minoria teve sucesso e a grande maioria teve fracasso nesses negócios. Aqueles que aliaram os recursos da indenização com o talento deram certo. Aqueles que só tinham recursos financeiros sobraram. No foco dos que deram certo estavam os negócios de franquia e algumas iniciativas de pequenos negócios por conta própria". Sette completou que "a maioria dos demitidos que não tinham instrução ou especialização em alguma área, está hoje no mercado informal ou desempregado. E, finalmente, um outro contingente, mudou da cidade para outras regiões a procura de emprego e sobrevivência".
(NG)