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Projeto Genoma

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 6 min

Benefícios da decodificação dos genes pode demorar a chegar

Texto: Adriana Rota

Especialistas da área de Genética que atuam em Bauru vêem com cautela o anúncio bombástico dos benefícios do mapeamento dos genes, feito na última segunda-feira pelo presidente norte-americano Bill Clinton, pelo primeiro-ministro inglês Tony Blair e representantes dos grupos que pesquisaram o assunto. Mesmo concordando que se trata de um avanço inegável, alertam que a tão festejada cura de doenças, como o câncer, pode demorar décadas para ocorrer.

Na opinião da coordenadora do Ambulatório e Laboratório de Genética (Alag) e professora de Genética do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista

(Unesp), Elaine Sbroggio de Oliveira Rodini, um dos benefícios mais visíveis obtido em curto tempo com o Projeto Genoma foi a melhor equipagem dos laboratórios de pesquisa e o treinamento de profissionais para atuarem na área que, em segunda instância, representaria um salto no conhecimento.

"Com isso, consegue-se uma independência cada vez maior com relação aos laboratórios internacionais. Até pouco tempo, tínhamos que enviar amostras sanguíneas para análise. Hoje, podemos fazer isso por aqui", exemplificou. Com relação à comparação que tem sido feita da transcrição do código genético com avanços da humanidade como a chegada do homem à lua, a professora destaca que a maior vitória esteve no desenvolvimento de tecnologias para obter esses avanços do que eles propriamente ditos.

Elaine, no entanto, não se deslumbra. Ao contrário, critica o que classificou como sensacionalismo. "Determinado gene pode causar uma doença. Mas, às vezes, a mesma doença pode vir de causas genéticas diferentes. Pode também acontecer de doenças diferentes apresentarem o mesmo tipo de gene. Isso significa que ninguém que tem câncer hoje vai sarar por causa disso aqui, porque pode levar uns 50 anos. É preciso descobrir o 'inimigo' e as estratégias de combate. Mas, muitos deles, estão disfarçados".

A especialista destacou, também, os interesses políticos e financeiros que cercam o tema. "Se começarem a registrar patentes, toda vez que formos trabalhar como determinado gene teremos de pagar direitos para o laboratório que as detêm. Aí, entramos no problema ético que inclui, também, a possibilidade de 'brincar de Deus'. O que será feito com as informações obtidas?", questionou.

As expectativas, segundo a especialista, é conseguir "consertar" a molécula ou reproduzi-la, detectando-se qual a proteína alterada, qual seu tipo de alteração. "Ainda não é possível interferir. Atualmente, o que existe de mais novo em terapia gênica é a alteração de vírus, como os da vacina da gripe".

Elaine alerta que há muito a ser descoberto. "O portador de determinado gene tem tendência, uma chance maior que os demais de desenvolver certa doença, o que não significa que, necessariamente, vai desenvolver. Outra pessoa que não apresente evidência, não significa que não vá ter". Nesse contexto, o que é possível fazer, hoje, é trabalhar com medidas preventivas caso haja possibilidade de desenvolvimento de uma patologia, a partir do gene.

Para quem?

O biólogo e geneticista Esiquiel de Miranda, do Centro de Genética Humana e Biologia Molecular (Cegehm)/Laboratório Médico Integrado ligado à Sociedade Beneficente Portuguesa de Bauru, também acha que os benefícios tão propalados devem demorar a chegar. No seu entendimento, os dois grupos envolvidos na pesquisa - um formado por consórcio público, que reúne representantes de seis países, além de colaboradores como o Brasil (Projeto Genoma Humano) e o outro, privado (Celera) - decidiram fundir-se (até porque, o segundo conseguiu em dois anos o que o primeiro teria levado 13) e precisavam anunciar isso de alguma maneira. Quanto ao caráter de novidade, para o especialista, ele pode ter atingido o público leigo mas, na comunidade científica, nada foi acrescentado.

Miranda questiona se todas as pessoas serão, realmente, beneficiadas pelas descobertas. Ele exemplifica dizendo que a Genética ainda é deixada muito distante da realidade da comunidade em geral, embora diversos avanços tenham sido alcançados. "A tecnologia de ponta acaba aparecendo como discriminatória. Sempre que é gerado um conhecimento, a sociedade paga como um todo. Mas, quem vai ter acesso? Quem pode pagar. Não creio que vá ser diferente agora".

Características culturais, financeiras e religiosas influenciaria nas decisões governamentais, mantendo a população sem informações sobre o assunto. Ele citou a existência de técnicas avançadas para detecção de problemas no feto que podem levar até mesmo a mãe

à morte e que poderiam ser detectados logo no início da gravidez. Como a legislação brasileira não imputa pena à prática de abortamento nessas circunstâncias, a família teria a opção de poupar não só o desgaste emocional, mas gastos com os quais não poderia arcar.

"Não sou favorável ao abortamento, mas minha função é mostrar os riscos, a realidade, para que a família possa optar. Não podemos ser hipócritas. Para as crianças 'normais' já não há atendimento adequado por parte do Estado, imagine para aquelas que precisam de cuidados especiais, que podem durar uma vida inteira. Mas nem o Estado nem os planos privados consideram isso".

Em outros casos, pode-se até poupar vidas. O geneticista citou uma espécie de distrofia muscular que pode matar em poucos anos seu portador, geralmente, culminado em parada cardiorrespiratória. Na mulher, ela não se manifesta, mas pode ser transmitida aos descendentes. "A princípio, determinava-se o sexo e interrompia-se a gravidez quando era masculino. O detalhe é que havia 50% de chance de o feto ser saudável. Com o avanço das técnicas de reprodução e da biologia molecular, é possível checar durante a fertilização in vitro, ampliando-se o DNA". Essa técnica, segundo Miranda, pode ser utilizada também em outros casos, como hemofilia.

Atendimento local

Miranda afirmou ter sido um dos pioneiros na área da Genética em Bauru, por volta de 1987, época em que o assunto era considerado "bicho de sete cabeças". Hoje, a cidade conta com opções de atendimento na área no Centrinho e em clínicas particulares, como a própria Cegehm. No Alag, o atendimento ao público será feito a partir do próximo ano.

No Laboratório de Citogenética, Imunogenética e Biologia Molecular do Centrinho é feito o estudo dos cromossomos dos pacientes atendidos, que auxilia, especialmente, na definição do tratamento que será dispensado a ele pelos outros profissionais envolvidos no tratamento. Além de melhorar a qualidade de vida do paciente, também é possível fazer o aconselhamento genético, ou seja, estudar a possibilidade de que outros casos do gênero venham a ocorrer na sua família.

Na Unesp, onde atualmente investiga-se as causas dos abortamentos naturais relacionados a características genéticas, a partir do próximo ano haverá atendimento à comunidade para problemas genéticos de qualquer tipo, além do aconselhamento, realização de exames e feitura do mapa cromossômico (cariótipo).

Na Cegehm, faz-se diagnósticos pré-natais, biologia fetal, cariótipo de aborto habitual, citogenética, aconselhamento genético, investigação de paternidade e banco de DNA (ele é colhido e armazenado para eventual uso futuro, mesmo após a morte).

No Interior do Estado, Marília, Ribeirão Preto, Campinas e Botucatu oferece serviços na área de Genética para a população mais carente. Em São José do Rio Preto, há atendimento em

âmbito particular.

Serviço

Alag: 234-7277 (temporário)/elaine@fc.unesp.br;

Centrinho: 235-8000;

Cegehm: 227-7880/9772-5707/cegehm@travelnet.com.br.

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