Geral

Desperdício

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Ecologicamente corretas

Texto: Gustavo Cândido

Existem pessoas que incoporaram às suas vidas, hábitos simples, que não tomam muito tempo ou necessitam de grande esforço, mas que possuem um valor muito grande porque demonstram uma preocupação com o desperdício, a reciclagem e o meio ambiente, numa época em que muitas pessoas ainda jogam lixo da rua, desperdiçam água e energia elétrica e não estão preocupadas com o destino do lixo que produzem na sua casa. São pessoas comuns, de todas as idades e de ambos os sexos, que já adquiriram uma qualidade que vai ser cada vez mais fundamental no próximo século: consciência ecológica.

As irmãs Sonia Tokuno e Inês Ikeda são um belo exemplo. Em casa e no salão de beleza que possuem, fazem de tudo para evitar o deperdício e reaproveitar materiais que aparentemente não tem mais uso. Filhas de japoneses, elas acreditam que o hábito de guardar e reaproveitar as coisas seja um fator cultural, "minha mãe já era assim, guardava tudo, ela quem nos ensinou a fazer isso", conta Sonia. A razão desse comportamento talvez esteja na guerra. "O Japão sofreu muito durante a II Guerra e as pessoas passaram necessidade, então acho que por isso sempre pensamos em guardar as coisas e não desperdiçar para caso um dia precisemos", explica Inês, que já separava o lixo de casa com materiais recicláveis e orgânicos, muito antes de existir um programa de reciclagem na cidade.

Além de guardar algumas embalagens e sacos plásticos

"de supermercado", para reaproveitar, "eles têm tanto uso", diz, Sonia Tokuno não joga fora nem os elásticos que prendem o jornal que recebe diariamente,

"guardo os elásticos assim que pego o jornal de manhã, eles podem ser reaproveitados", afirma. As latas de alumínio de cerveja e refrigerantes também estão na lista das irmãs, que trabalham como cabeleireiras, "tenho uma caixa para guardar as latinhas que acabo doando para uma senhora que conheço que as vende para a reciclagem para pagar a escola do filho", revela Inês.

O desperdício também não chega na cozinha das duas, "quando comemos, por exemplo, não costumamos deixar nem um pouco de comida no prato, não é questão de economia, mas de cultura. Aqui no Brasil as pessoas têm o costume de deixar um pouco no prato, mas no Japão isso

é falta de educação, você só deve colocar no prato o que vai comer", ensina Inês.

A professora de yoga Isabel Figueiredo também faz a sua parte separando o lixo orgânico de tudo o que é reciclável.

"Papéis limpos, embalagens de plástico, vidros e metais eu reservo para a coleta seletiva de lixo. Quando ela não acontece, eu levo o lixo reciclável para os containers que existem pela cidade", diz. Isabel não sabe precisar quando começou a se preocupar com a questão ecológica, "faz muito tempo", afirma, mas colocou todos na sua casa dentro da mesma lei. "Um detalhe importante

é que tudo o que seleciono passa por uma lavagem e uma secagem para que possa ser guardado com higiene até ser encaminhado. Fora o material que deixo nos containers, deixo as latas de refrigerante e os jornais para as pessoas que passam recolhendo para levar para a prensagem", ensina Isabel.

Além de selecionar o lixo, a professora conta que também se preocupa em plantar árvores, economizar água e energia elétrica e em não usar veneno de espécie alguma e define sua filosofia: "tudo o que existe no Universo interage com o ser humano e esta é a razão da minha responsabilidade pelo lixo que eu produzo. Não somos criaturas isoladas". Segundo Isabel as pessoas precisam se lembrar de três coisas: reciclar, reduzir e reutilizar, "gostaria que elas se perguntassem 'o que posso fazer para que meus netos ainda tenham um mundo razoável para se morar'", diz.

A consciência ecológica não está presente somente nos adultos, adolescentes também têm demonstrado que se preocupam com o meio ambiente como o caso do estudante Gabriel Saraiva, de 15 anos, que se encarregou pessoalmente de cuidar do lixo da sua casa. "Ele leva duas vezes por semana o lixo reciclável para os containers da prefeitura", conta a mãe do estudante, Elisa. O mais interesante nessa história é que foi ele quem começou a separar o lixo por iniciativa própria, "no começo não sabia o que ele estava fazendo, acabei aprendendo com meu filho", confessa a mãe. No caso da estudante Márcia Pereira o exemplo da mãe fez com que ela adquirisse um hábito muito importante e ecologicamente correto, quase sem querer, hoje ela sempre economiza água até mesmo quando vai fazer a limpeza da casa. O mesmo acontece com a energia elétrica. Se ela vai lavar o banheiro, por exemplo, liga o chuveiro, e se preocupa em desligar a chave da temperatura para não gastar energia. A água também, ao invés de deixá-la ligada o tempo todo, ela enche um balde, desliga a torneira e só volta a abri-la quando precisa novamente. "Não

é só uma questão de economia mas também de evitar o desperdício", explica.

Atitude louvável

"É gratificante saber que existem pessoas que se preocupam em não desperdiçar e reciclar, mesmo sem estarem ligadas a algum órgão", diz o biólogo e voluntário do Instituto Ambiental Vidágua, Ivan Alexandre Ferrazoli de Marchi. "O exemplo delas serve para mostrar a todos que a preocupação e a conservação do meio ambiente não depende dos outros mas de cada um. Muitas pessoas ainda acham que economizar a água quando se toma banho ou escova o dente é besteira porque não vai fazer diferença, mas isso é errado, faz sim e as pessoas precisam se conscientizar", afirma.

Marchi recomenda que as pessoas sigam os exemplos citados e procurem selecionar o seu lixo caseiro levando-o em seguida para os Postos de Entrega Voluntária (PEVs) onde existem os containers para os produtos que podem ser reaproveitados. Segundo o biólogo,

é importante também que uma limpeza prévia seja realizada para que esse material não exale odores e atraia insetos e pequenos animais. "A prefeitura tentou fazer a coleta seletiva na cidade toda mas infelizamente não deu certo porque a população não estava preparada,

é importante que as pessoas aprendam a separar, pelo menos o que orgânico, do que é inorgânico para já estar ajudando, isso não é difícil", diz o Marchi.

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