Álcool tem de ser encarado como doença
Texto: Adriana Rota
Aceito pela sociedade sem restrições, o álcool representa um problema de saúde pública e deve ser encarado como tal
Drinque para relaxar, champanhe para comemorar, vinho para namorar, cerveja para desestressar, licor para "adoçar o bico". O álcool é tão freqüente no cotidiano de algumas pessoas quanto o café com leite, por exemplo, mas os estragos que pode causar nem sempre são avaliados. Ele chega sutilmente e transforma o dependente em alvo de críticas e maledicências, embora devesse ser encarado como doente desde o início.
Normalmente, quem bebe "socialmente" esquece que álcool
é uma droga, e nem sempre sabe o momento de parar. Ele
é o primeiro que se recusa a aceitar o fato de que foi acometido por uma doença que, como qualquer outra, requer acompanhamento médico, psicológico e, de preferência, participação em grupos de mútua ajuda. Em Bauru, existem vários deles (veja quadro).
As famílias também têm dificuldades em lidar com o assunto. Geralmente, tomando posicionamentos radicais, que vão da passividade à agressividade, quando o ideal
é combinar pressão com oferta de ajuda. Isso significa deixar o dependente enfrentar sozinho as conseqüências de seus atos, sem tentar poupá-lo, mas deixando sempre claro que apóia e torce pela sua recuperação.
Considerado ainda hoje como um problema moral, de caráter, o alcoolismo é resultado de diversos fatores: uma genética favorável pode evitar sintomas desagradáveis, permitindo que a pessoa beba sem frear os impulsos; a influência ambiental, especialmente, disponibilidade da bebida em casa, faz o futuro dependente "tomar gosto pela coisa"; fatores sociais, como a existência de uma cultura permissiva, e profissionais, como tipo de atividade exercida e a carga de estresse, também contribuem negativamente.
Fala-se, ainda, sobre um caráter genético, motivo de controvérsias dentre os especialistas. Mas um ponto no qual todos concordam é que a influência familiar pode interferir na criação ou não de um alcoólatra. Portanto, permitir que desde cedo as crianças tenham contato com as bebidas, mesmo as que parecem mais inofensivas, é deixá-las expostas a um perigo iminente.
É, muitas vezes, motivo de comemoração na roda de amigos ou familiares quando a chupeta mergulhada na cerveja, por exemplo, causa prazer no bebê que a experimenta. Essa atitude é absolutamente condenada pelos especialistas. Aliás, eles acreditam que o controle na venda de bebidas deveria ser bem mais rígido, incluindo proibição de venda para menores, redução no número de postos de comercialização, campanhas educativas, aumento nos preços e proibição ou disciplinamento das propagandas.
A própria Organização Mundial de Saúde
(OMS) criou um livro com esse tipo de orientação aos países, entendendo que o alcoolismo é uma doença física, mental, progressiva e incurável que, além de causar inúmeros danos físicos em partes do corpo como cérebro, fígado, estômago, provocar desnutrição
(resultado da constante sensação de saciedade), deficiências circulatórias, interferir na capacidade de avaliação, reflexo, memória, dentre outros prejuízos, ainda resulta num alto custo social. Estudos recentes dão conta de que 90% das internações hospitalares por dependência de drogas seriam motivadas pelo alcoolismo.
O que leva ao álcool?
Nas novelas, filmes, revistas e mesmo em eventos sociais, beber sempre representa uma atitude moderna, arrojada, bonita, com forte apelo sensual. Esse "bombardeio" afeta especialmente o jovem, que vê no álcool, também, um meio de ganhar força, sobressair perante o grupo. Por exibicionismo, insegurança, para esquecer problemas diários, pressão profissional, a bebida acaba sempre funcionando como uma substância que propicia alívio quase que imediato dos incômodos.
A pessoa começa a se dar conta de que está dependente quando o rendimento cai, a irritação passa a vir facilmente, o convívio social é abandonado ou negligenciado, bebidas mais fortes passam a substituir os aperitivos e o corpo começa a reclamar com diversos sintomas como insônia, falta de apetite, tremores, alteração de pressão
(para citar apenas alguns) nos períodos de sobriedade.
Bauru participa de levantamento sobre uso do álcool
Bauru foi uma das 24 cidades do Estado com mais de 200 mil habitantes que participou da primeira etapa do I Levantamento Domiciliar Nacional sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas, desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina e do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas
(Cebrid).
O estudo, realizado no ano passado, atingiu 58,4% da população total do Estado. A idéia inicial era apurar o uso das diversas drogas nos maiores municípios de todo o País (mais de quatro mil), mas a restrição foi devida a questões financeiras, já que apenas a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) investiu no projeto. Para os pesquisadores, trabalhos do gênero contribuem na definição de programas de prevenção adequados.
Em Bauru, foram feitas 46 entrevistas em dois setores censitários definidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). Os domicílios foram escolhidos aleatoriamente pelos pesquisadores, que também optavam por entrevistar apenas uma pessoa de cada casa, com idade entre 12 e 65 anos de idade.
Os dados das diversas cidades não foram computados separadamente. Na população pesquisada, concluiu-se que 53% experimentou
álcool pelo menos uma vez na vida e grande parte dos que bebem tornam-se dependentes - entre os homens, um em cada seis; entre as mulheres, uma em cada 17.
A droga é consumida de três a quatro vezes por semana ou até todos os dias, por 4,5% dos pesquisados, ou 673 mil pessoas. O critério adotado no estudo estipula como dependente aquele que não tem poder de escolha quanto ao consumo. O número estimado de dependentes no Estado é de 981 mil pessoas e a incidência é maior em adultos jovens (entre 18 e 24 anos).
O psiquiatra e pesquisador do Cebrid que coordenou o estudo, José Carlos Galduróz, 42 anos, é um crítico ardoroso da esteriotipia que se faz em torno das drogas. "É uma inversão mental. Fala-se muito sobre maconha e cocaína, quando o grande problema no Brasil são o álcool e o tabaco", disse. Em virtude disso, as drogas lícitas são anunciadas livremente, geralmente vinculadas pela publicidade
à imagem de atletas.
Na sua opinião, não existe uma política sobre drogas no Brasil, que precisaria de um planejamento intensivo. As pesquisas possibilitariam conhecer os problemas para combatê-los adequadamente. "É preciso trabalhar com prevenção, tratamento, não só repressão".
Galduróz lamenta o fato de o projeto ter tido uma abrangência limitada justamente devido a essa ausência de política sobre drogas: em 1997 ele havia sido apresentado ao extinto Conselho Federal de Entorpecentes (Confen) e, posteriormente, à Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), mas não obteve apoio financeiro.
No I Seminário Antidrogas nas Escolas Superiores, realizado na última sexta-feira em São Paulo, o general Alberto Cardoso, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, ligado à mesma Senad que negou apoio ao projeto da equipe de Galduróz, falou aos jornalistas sobre a necessidade de estatísticas sobre o assunto anunciando que a Senad pretende fazer um senso de consumo de drogas no Brasil.
Entidades que assistem ao alcoolista e sua família
Alcoólicos Anônimos (AA) - reuniões diárias das 20 às 22 horas, na rua Bandeirantes, 12-43, telefone 234-0250. No mesmo local funciona o Al Anon, que dá apoio às famílias, com reuniões aos sábados, às 15 horas.
Amor Exigente - reuniões às terças-feiras, das 20 às 22 horas, na rua Araújo Leite, 15-39. Para as famílias, às quintas, no mesmo horário e local. O telefone é 239-8964.
Centro de Recuperação e Integração de Menores - Gilgal - trabalho em sistema de internato somente para pessoas de 13 a 17 anos e meio. Seleção de pacientes na rua Madre Clélia, 4-37, Jardim Cruzeiro do Sul. Telefone 230-5467.
Esquadrão da Vida - trabalho em sistema de internato e apoio às famílias. A triagem socioeconômica
é feita na sala 49 do Terminal Rodoviário. Telefone 222-5076.
Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps) - órgão ligado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que dá apoio psicológico aos alcoólicos encaminhados por médicos. Fica na rua Monsenhor Claro, 6-86. O telefone
é 235-1288.
Núcleo de Apoio aos Toxicômanos e Alcoólatras
(Nata) - ligado à Comunidade Bom Pastor, atende dependentes do álcool e outras drogas às terças e quintas, das 20 às 22 horas, na rua Alto Acre, 1-80, Bela Vista. Para as famílias, os encontros são feitos na Igreja Santo Antônio, localizada na rua de mesmo nome, quadra 11, Vila Quaggio. O telefone para informações é 222-7133.
Recuperação e Assistência Cristã
(Rasc) - abrigo e tratamento somente para pessoas de 7 a 14 anos. Rua Floriano Peixoto, 11-38, Altos da Cidade. Telefone 234-1654.