Geral

Diferença de idade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Sutil diferença

Texto: Gustavo Cândido

Ele na casa dos 20, ela na dos 40. Será que um romance entre pessoas nessas condições sobrevive bem? A novela Laços de Família tem apresentado uma situação assim. A linda Helena, personagem vivida por Vera Fischer (48 anos), mãe de dois filhos na casa dos 20 anos, se envolve com Edu, o estreante Reynaldo Gianecchini (27 anos), que poderia muito bem ser seu filho. Por enquanto tudo vai bem no folhetim televisivo, mas até quando? Profissionais de psicologia afirmam que o envolvimento entre mulheres mais velhas e homens mais novos é o assunto do momento e que cada vez mais as pessoas estão se acostumando com isso.

Curiosamente, na vida real, o par central da novela Laços de Família também tem um histórico de relacionamentos com uma grande diferença de idade. Vera Fischer já foi casada com o ator Felipe Camargo, com quem contracenou na novela Mandala e Gianecchini é o atual namorado da jornalista Marília Gabriela (52 anos). Mas não é só no mundo da celebridades que esses relacionamentos acontecem, eles são cada dia mais comuns em todos os lugares, com pessoas de todos os níveis sociais a diferença é que nem sempre elas optam por revelar seus verdadeiros nomes e mostrar seus rostos, uma prova de que o medo do preconceito existe.

A advogada Marília Carneiro* é um exemplo. Divorciada há sete anos e mãe de dois filhos adolescentes, aos 46 anos ela namora há oito meses o microempresário Luís Augusto*, de 29 anos. "No começo foi difícil as pessoas aceitarem, principalmente os meus filhos, mas com o tempo eles foram se acostumando", diz. Marília conta que ela mesma tratou o caso com preconceito quando pensou na possibilidade de se relacionar com Luis. "Quando percebi que a nossa amizade poderia se tornar algo mais sério, comecei a me estranhar e me questionar sobre isso. Acho que a gente tem muito preconceito imbutido, até mesmo quando a situação acontece com a gente", afirma. Mas a advogada diz que, depois do período inicial, nunca sentiu o preconceito das pessoas pelo fato de namorar um homem mais jovem, "o máximo que acontece de vez em quando é alguém dar uma gafe e achar que ele

é meu sobrinho, irmão ou primo, ainda bem que ninguém nunca achou que ele é meu filho", brinca.

O empresário Roberto Vianna*, 36 anos, casado com a professora Mariza Vianna*, 46, afirma que, embora não seja explícito, uma certa dose de preconceito sempre existe, principalmente no começo do relacionamento. Casado há 6 anos, ele diz que hoje os dois não "chocam" mais as pessoas quando aparecem juntos.

Ao contrário do casal Vianna, Helena Soares* e Amílton Pereira*, sempre provocam uma surpresa quando se apresentam como marido e mulher. A diferença de idade dos dois é de 12 anos. A funcionária pública Helena, 48 anos, diz que o único problema que enfrentou quando começou a sair com Amílton foi convencer a mãe dele de que o namoro era sério e de que não havia problema algum na diferença de idade. "Hoje me dou super bem com a minha sogra", diz.

Gerações e ciúme

Os casais entrevistados afirmam que a diferença de idade só serviu para enriquecer a relação e que em nenhum momento foi um impecilho para se entrar em acordo sobre um determinado assunto. Mas pequenos de gerações de vez em quando aparecem. "Algumas vezes falo sobre assuntos que lembro de ter visto ou vivido e noto que meu marido fica meio

'perdido', porque era uma criança quando aquilo aconteceu.

É engraçado", diz Marília Carneiro. O mesmo acontece com Helena e Amílton. "Muitas vezes ela conversa assuntos com os meus pais sobre os quais eu me lembro pouco ou às vezes nem sei direito do que se trata, mas acho isso interessante, eu aprendo", revela Amílton.

A experiência das mulheres mais velhas é um dos pontos mais citados pelos maridos/namorados como principal vantagem do relacionamento com uma grande diferença de idade. Eles afirmam que gostam de aprender com as mulheres. Um dos principais pontos negativos, por sua vez, foi o ciúme, que eles consideram,

às vezes, um pouco exagerado. Elas se defendem dizendo que nem sempre prestam atenção nisso e que não são mais "protetoras" do que o normal só pelo fato de serem mais velhas, mas Mariza Vianna dá a dica para se manter segura: "é claro que não dá para brincar também, como sou mais velha, sei que vou aparentar a idade antes dele e isso pode incomodar, por isso eu me cuido para estar sempre bonita. A aparência não

é tudo mas ajuda", ensina.

Mudança através dos tempos

Segundo a psicóloga e psicoterapeuta Maria Regina Corrêa Lopes Vanin o preconceito em relação aos relacionamentos com uma grande diferença de idade tem diminuído com o tempo porque o papel da mulher e do homem na sociedade mudou durante os anos. A tendência do homem ser mais velho do que a mulher num relacionamento remonta há séculos atrás, quando a sociedade patriarcal colocava o homem no papel de provedor, o responsável por cuidar da mulher e da família, fornecendo proteção e suporte econômico. À mulher restava o papel de mãe.

"Ela era escolhida para dar continuidade à descendência e criar os filhos. Por isso era comum que um homem um pouco mais velho se interessasse por uma mulher jovem", diz Maria Regina Vanin. Outro fator que colaborava para isso é a limitação biológica da mulher em ter filhos, "a mulher tem um período limitado para gerar seus filhos, o homem pode ser pai até um pouco mais tarde", explica a psicóloga.

Esse modelo, ligado diretamente à manutenção da sociedade patriarcal durou até o começo do século XX, quando a mulher iniciou a luta por sua emancipação em diversas áreas e passou a ter mais autonomia e liberdade, inclusive para fazer suas escolhas. "As pessoas passaram a pensar a família de uma maneira diferente, não pensam em ter tantos filhos e a mulher em muitos casos passou a assumir a posição de chefe de família". Isso quer dizer que existem mulheres que não estão mais necessariamente procurando o homem provedor, porque elas são independentes, podem cuidar de si mesmas e não precisam dele, então podem escolher um parceiro mais novo,

"ela não tem a expectativa de que o homem vá sustentá-la, o vínculo da dependência econômica foi quebrado", diz a psicóloga.

Além disso existe a questão da expectativa de vida. No passado as pessoas viviam até os 60 anos então alguém com 40 anos era considerada velha. Hoje, as pessoas vivem até os 70 ou mais, então ter 40 anos não

é mais ser velha, ainda existe muita vida pela frente. Outro fator é a preocupação com a estética, que aumentou muito nesse século e foi impulsionada pela invenção de vários métodos e produtos para afastar os sinais da idade. "As mulheres se exercitam mais hoje e se preocupam mais em estar sempre belas e na moda", diz Maria Regina Vanin.

Auto-estima

Quem mostra alguma reserva em relação aos relacionamentos onde a mulher é mais velha, geralmente usa o argumento de que as pessoas com mais idade estão procurando auto-afirmação quando procuram parceiros jovens. Segundo a psicóloga Cláudia Manaia, em alguns casos, o fato da mulher se relacionar apenas com homens mais novos pode demonstrar uma necessidade da pessoa mais velha em provar que ainda consegue seduzir, ser charmosa, para reforço da auto-estima. É uma necessidade de auto-afirmação. Só que isso não acontece somente com pessoas mais velhas para mais jovens, alerta a psicóloga. Entre pessoas de faixa etária menor também pode acontecer. "Existem pessoas que não aceitam a idade, e ficam o tempo todo 'testando' sua capacidade de conquista", diz Cláudia Manaia. Quando isso é uma constante na vida da pessoa, é porque há uma não aceitação do processo natural de envelhecer.

O inverso também pode acontecer lembra a psicóloga,

"existem casos onde a pessoa mais jovem busca sempre uma pessoa mais velha para se relacionar, querendo encontrar nela figuras parentais, ou seja, a mãe. Talvez um caso de Édipo mal-resolvido", diz.

Idade não importa

Maria Regina Vanin e Cláudia Manaia concordam que a diferença de idade não é o principal fator para o sucesso ou o insucesso de uma relação, é apenas um dado diferencial. "Muitas vezes a idade cronológica de uma pessoa não é a mesma que ela apresenta fisicamente ou intelectualmente", diz Maria Regina Vanin. Para a psicóloga, muitas pessoas ainda associam certos comportamentos à idade, quando não deviam, "de repente a mulher é avó muito cedo mas ainda está bonita e se sente jovem, por isso ela não deve agir como uma velha só porque já é avó, se ela tiver um corpo bonito pode vestir a roupa que quiser, por exemplo", diz.

Maria Regina Vanin lembra, porém, que, embora a idade não faça diferença, o relacionamento entre pessoas da mesma faixa etária possui uma linguagem mais próxima, o que ajuda a diminuir as diferenças, "mas não

é nada que não possa ser superado", afirma.

Para Cláudia Manaia, o que vale num relacionamento saudável não é a faixa etária, e sim, a complementação, o companheirismo, o amor, a atração, o sexo, o compartilhar, o respeito e isso tudo independe da idade. A idade, de acordo com a psicóloga, será um problema para o casal, quando não houver consciência e respeito das diferenças, por exemplo, quando um quer ter filhos e o outro não, ou por ciúmes exagerado com o mais jovem, problemas de saúde, preferências sociais diferentes, etc. "Por isso o diálogo e o amor são fundamentais em qualquer relacionamento", define.

* os (as) entrevistados (as) preferiram preservar suas identidades, por isso os nomes são fictícios

A opinião nas ruas

O que você acha de relacionamentos onde a mulher é mais velha do que o homem?

"Não tenho nada contra. Se tiver amor, tudo bem. Os homens também namoram meninas mais novas"

Neusa Prestes, 50 anos, aposentada

"A idade não importa e sim o sentimento. Namoro há dois anos uma pessoa seis anos mais nova que eu e isso não faz diferença alguma, pensamos igual"

Neide Ramos Gatti, 29 anos, fisioterapeuta

"Acho que não dá certo. Vai chegar um momento em que o rapaz vai se interessar por uma mulher mais nova. O ideal

é que o casal tenha mais ou menos a mesma idade"

Joverci Fernandes, 64 anos, motorista aposentado

"As mulheres mais velhas são experientes e isso é melhor"

Dilvan Oliveira Morais, 28 anos, agente de segurança

"Acho normal, a idade não tem nada a ver" Marta Lopes Tavano, 36 anos, comerciante

"Normal. O amor não tem idade. Já namorei caras mais velhos"

Thalita Cristina Malaguti, 18 anos, estudante

"Eu acho que essa diferença não dá certo. Pra mim existe um limite de idade de até oito anos, mais do que isso acho que envolve algum outro tipo de interesse"

Lizia Cezário De Marchi, 17 anos, estudante

"Acho normal apesar da sociedade ter uma postura contrária. Acho que o preconceito é mais forte quando envolve uma diferença social, quando os dois estão na mesma classe social as pessoas não comentam muito"

Carlos Augusto Carnelossi, 45 anos, empresário

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