Vida dedicada à arte
Texto: Gustavo Cândido
José Baccan é um dos mais conhecidos artistas da cidade e região. Nascido em Jaú, registrado em Bariri e morador local, aos 86 anos, ele ainda pode ser encontrado todos os dias no seu atellier, nos fundos de sua casa, pintando um quadro após o outro, como se fosse um jovem aprendiz que procura atingir a perfeição. Perfeição, aliás, que ele afirma ainda não ter atingido, "sou um caco de vidro", brinca, querendo dizer que é apenas
"mais um" que se diverte com as tintas e os pincéis. Modéstia pura. Baccan falou ao JC sobre suas obras, sua atual mania, pintar naturezas mortas, "só para variar um pouco" e seu desejo de continuar pintando, "ainda não quero morrer", diz.
Jornal da Cidade - Quando o senhor começou a pintar?
José Baccan - Comecei a desenhar com oito anos. No início ninguém me mostrou nada, mas depois o Zico Ambrósio começou a me ensinar. Naquele tempo a tinta era feita com um pó. Aprendi com ele as primeiras lições, depois, mais tarde comecei a pintar paredes e cruzes no cemitério. Trabalhei com mármore e depois com decoração por 10 anos.
JC - Quando o senhor começou a se dedicar à pintura?
Baccan - Comecei antes de 1930, ainda menino. Faz mais de 70 anos que eu pinto. Minha primeira exposição foi aos 27 anos. Ganhei o primeiro prêmio aqui em Bauru em meio aos grandes pintores da época.
JC - O senhor já teve outra atividade antes?
Baccan - Também fui pedreiro por 20 anos. Nas horas vagas eu pintava os quadros e vendia. Isso foi em São Paulo, no tempo da guerra, em 1944, 45.
JC - As paisagens sempre foram a sua especialidade?
Baccan - É eu comecei pintando paisagens. A maioria dos meus quadros são paisagens.
JC - Por que?
Baccan - Porque é mais bonito. Vejo uma imagem quando viajo ou olho uma foto, guardo ela na minha cabeça e depois pinto. Muitas vezes pinto um lugar onde passei há muito tempo atrás. Gosto de fazer paisagens com água, que é mais difícil, não é todo mundo que consegue aprender a fazer, é um dom.
JC - O senhor não pinta figuras humanas?
Baccan - É muito difícil. Já pintei várias no passado, pintei santos e fiz até um auto-retrato, mas prefiro as paisagens. O meu dom é para pintar paisagens.
JC - E as naturezas mortas?
Baccan - Natureza morta eu fui pintar com o Columbari em Santos. Pintei um quadro de uma idéia que tinha em mente e eles acharam que eu não precisava de mestre. Estou pintando naturezas mortas agora só para variar em pouco, descansar das paisagens.
JC - O senhor sempre pinta sem referência alguma, só com a sua memória visual?
Baccan - É, eu sempre pinto com a minha imaginação. Mas atualmente pinto muito o Rio Batalha e o Rio Jacaré. Nesses casos eu vou até lá para ver a paisagem.
JC - O que o senhor acha da arte moderna?
Baccan - É bonito, mas não é bom para comercializar. Quem admira arte moderna são os empresários, gente muito estudada. Para o povo, os quadros precisam ser assim, simples como os meus. Eu pinto para o povo.
JC - O senhor sabe quantos quadros já pintou aproximadamente nesses mais de 70 anos de trabalho?
Baccan - Não sei direito, mas acho que foram mais de seis mil quadros.
JC - Como é o seu método de trabalho, pinta um quadro após o outro?
Baccan - É. Quando termino um, começo outro.
JC - Quanto tempo o senhor gasta em cada um deles?
Baccan - Depende, Geralmente começo um quadro num dia e vou terminá-lo só no dia seguinte.
JC - O senhor é muito exigente com seus quadros?
Baccan - Sou um pouco. Acho que uns ficam melhores do que outros. Gosto de uns e não gosto de outros. Os que não gosto eu sempre quero vender.
JC - O senhor gosta de que pintores?
Baccan - O Mortari pinta bem no estilo moderno, o Rosa também, é um dos maiores pintores de Bauru. Tem o Coutinho, o Alcione e o Marinho também, o resto é tudo "caco de vidro", como eu, não estão bons ainda.
JC - O senhor ainda não está bom então?
Baccan - Não, ainda tenho muito que aprender nos próximos 70 anos para ficar como o Pedro Alexandrino, o melhor pintor de natureza morta. O que eu sei é que ainda não quero morrer. Mais para adiante sim, mas agora não. Enquanto isso vou pintando.