Geral

Mercado de trabalho

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Qualificação não é suficiente para conseguir emprego

Texto: Gustavo Cândido

Ter o conhecimento da língua inglesa e o 2º grau completo já não é mais um diferencial muito grande na hora de procurar uma vaga no mercado de trabalho, como muitas pessoas ainda pensam. Segundo números apresentados pela Central Trabalho e Renda, mantida pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em parceria com a Prefeitura do Município de Santo André, por exemplo, a qualificação deixou de ser um passaporte para o emprego. Os dados da Central derrubam, pelo menos parcialmente, a tese de que o estudo básico

é o suficiente para o trabalhador conseguir um emprego. Segundo a consultora organizacional Regina Maura Pereira Torres uma das razões para o fato é que o sistema educacional brasileiro ficou defasado e não acompanhou o grande desenvolvimento tecnológico dos últimos anos.

De acordo com os números da Central Trabalho e Renda, de 70 mil cadastrados, 65% tem o primeiro grau completo e 50%, pelo menos o 2º grau. A escolaridade média está entre 10 e 11 anos, portanto, acima da média dos brasileiros, que é de 7 anos de estudo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas nem isso é suficiente para recolocá-los no mercado, porque o nível de qualificação exigido pelas empresas é muito grande, embora esse dado seja variável, como mostra o boxe sobre a pesquisa encomendada pelo Ministério da Educação (MEC) à Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) de São Paulo

(leia ao lado).

De acordo com Regina Torres, as mudanças no mercado de trabalho têm sido muito grandes nos últimos anos, deixando uma lacuna na educação que ficou defasada,

"a educação não acompanhou o desenvolvimento tecnológico das empresas", diz. Como resultado, aponta a consultora, as próprias empresas começaram a desenvolver cursos para requalificar seus funcionários, mas nem isso foi suficiente.

"Hoje em dia, não é mais possível ficar sem estudar, a educação precisa ser continuada", explica Regina Torres, que cita um exemplo: "se você

é técnico em mecânica ou eletrônica, que fez um curso em 1998, você já está defasado em relação ao mercado porque nesses dois anos a tecnologia nessa área já mudou muito. Você não pode sair do Senai, tem de ficar se reciclando o tempo todo e a maioria das pessoas não percebeu isso ainda". Outro exemplo citado por Regina é o das empresas automatizadas, que não podem contratar funcionários com escolaridade inferior ao 2º grau, porque nessa situação, eles não conseguiriam operar os equipamentos. "Algumas empresas exigem não só o segundo grau, mas um segundo grau técnico devido ao alto nível tecnológico do seus equipamentos, se o funcionário não for um técnico, não vai operar a máquina", salienta.

Mas segundo a consultora, não é só o trabalhador braçal ou o técnico que precisa se manter atualizado, mas também o executivo, que deve procurar cursos de pós-graduação ou um MBA (Master of Business Administration, curso de 600 horas, reconhecido internacionalmente como sinônimo de excelência em administração e negócios). E não pára por ai, a pessoa economicamente ativa precisa também estar sempre bem informada, por dentro do acontecimentos do Brasil e do mundo não só na sua área. "Ou você entra nesse esquema ou fica para trás. Quanto menor a qualificação da pessoa, pior é para ela, ter o segundo grau hoje não significa ser qualificado, é o mínimo", afirma Regina Torres.

Para a consultora organizacional, o brasileiro não estava preparado para a exigência do mercado por uma qualificação maior, "nós não estávamos adaptados com o fato de que precisamos viver estudando. O brasileiro não tem nem o hábito da leitura, que é fundamental", diz. Essa falta de preparo acaba provocando, segundo Regina Torres, uma pressão muito grande das empresas sobre os funcionários para que eles estejam sempre evoluindo, se reciclando. "É a educação continuada. São poucas as pessoas que entenderam que parar de estudar e ficar defasado", define.

Comentários

Comentários