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Grafiteiros

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 4 min

Vanguarda urbana

Texto: Ricardo Polettini

Grafiteiros divulgam em Bauru a expressão artística das ruas; estilo ainda esbarra no preconceito

Eles vivem em Carapicuíba, na Grande São Paulo, um "fim-de-mundo", ou ainda, "ninho de pichadores", como dizem Mizael Ezequiel do Nascimento, 21 anos, o "MZL" e Oliverio Rodrigues da Silva Júnior, 17, o "Gu Utopia". Os dois estiveram participando na última semana do Projeto Jovem, do Sesc Bauru, num bate-papo com o público a respeito do grafite, uma das expressões do movimento hip hop ao lado do rap e do break.

Mizael e Gu fazem parte do Projeto Arquimedes, da Secretaria de Estado da Cultura. O projeto visa acabar com a pichação como forma de vandalismo e afastar os jovens das drogas, contando ainda, para isso, com grupos de rap e dança de rua, corais e capoeira.

Segundo Mizael, grupos de grafiteiros foram organizados em escolas e centros comunitários, além de unidades da Fundação do Bem Estar do Menor (Febem), de São Paulo e grande região e vêm atuando em esquema profissional. "Nós levamos fotos de trabalhos que já fizemos e as pessoas que gostam acabam nos contratando para grafitar seus muros e portões", explica.

"Em 94, existiam somente quatro grupos de grafiteiros organizados em São Paulo, hoje são mais de 30", lembra. Só em seu grupo, são quase 200 pessoas que todos os finais de semana, geralmente de madrugada, se reúnem para grafitar paredes, muros e fachadas da cidade.

Aprendendo na rua

"Acho que pelo menos 98% dos grafiteiros vieram da pichação", arrisca Mizael. O fato é que não existe escola para grafiteiros.

"Quem faz o grafite aprende com o grupo ou já desenha desde criança", diz. Seu caso é bem parecido.

Aos 12 anos, Mizael começou a pichar. Sua maneira de encarar a pichação mudou quando um amigo da gangue foi morto, provavelmente por policiais.

"Foi aí que eu vi que aquela vida não era para mim", revela. Segundo ele, além do risco de ser pego pela polícia, existe muita rivalidade entre as gangues de pichadores.

"Todos querem alcançar os lugares mais altos e perigosos. Se uma gangue picha por cima da assinatura de outra, é morte na certa".

Mizael descobriu o grafite com Clovis Davino da Silva, o "Chumbo", irmão de Gu, que também coordena um grupo de grafiteiros na grande São Paulo. Aprendeu a desenhar com o spray e air-brush (pistolas) e desenvolveu seu estilo sozinho, como fazem a maioria dos grafiteiros.

"Eu não tenho formação artística, assim como quase todos os grafiteiros. É uma arte que se aprende fazendo, na rua, com os mais experientes", diz.

Preconceito

A arte do grafite ainda esbarra no preconceito. Não é maioria os que entendem que o grafite é uma forma de expressão artística típica das ruas.

"Nossa arte não está nas galerias, por isso

é marginalizada", afirma Mizael.

A diferença entre o grafite e a pichação está no traço, nas cores e desenhos, mas principalmente na intenção. Enquanto pichadores brigam entre si para atingir lugares inacessíveis, os grafiteiros trabalham para desenvolver seu estilo e chamar a atenção pelo visual.

Exemplos básicos são os "tags" e o "grapicho". Os tags são as assinaturas dos pichadores, feitas geralmente em tipologia criada pelos próprios e que dificilmente são decifradas pelos "leigos".

Já os grapichos são as letras desenhadas do grafite, que carregam da origem pichadora a marca da criação tipográfica, no entanto, são elaboradas com muitas cores, formas e efeitos especiais de brilho e três dimensões, além da criação de personagens próprios e mascotes.

Há também uma "lei" entre grafiteiros e pichadores. "Os pichadores dificilmente estragam um grafite escrevendo por cima. Se isso acontece com um desenho nosso, procuramos os caras e tentamos esclarecer que o que fazemos é arte e que eles deviam fazer isso também".

Para encontrar grafiteiros em São Paulo e trocar idéias e informações, o point é a famosa "Galeria do Rock", na rua 24 de Maio, onde centenas deles se reúnem diariamente.

Arte desponta em Bauru

Ainda meio tímido, o grafite começa a dar suas caras em Bauru. Alguns grupos começam a se organizar pela cidade e já é possível apreciar desenhos em muros e fachadas de bairros como Mary Dota, Gasparini e Vila Independência.

Criado há apenas quatro meses, o grupo Violadores, do Mary Dota, já levou às paredes quase dez grafites no bairro. O maior desafio no momento é a falta de patrocínio e, é claro, o preconceito.

Mesmo assim, o grupo vem começando bem. O primeiro grafite foi na escola Cristino Cabral, que contratou o grupo para pintar um de seus muros.

"Quando estávamos fazendo o grafite, um rapaz viu e nos chamou para fazermos no muro da casa dele, e assim foram aparecendo outros trabalhos", conta Deivis Camilo, de 21 anos, responsável pelos desenhos, ao lado de Cesinha, que

é quem faz as letras. (RP)

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