Só um candidato promete concluir viaduto
Texto: Daniela Bochembuzo
De sete candidatos a prefeito, apenas Tidei de Lima (PMDB) garante que terminará viaduto; obra é criticada por prefeitáveis
O viaduto inacabado que corta a paisagem central da cidade não
é prioridade dentro do plano de governo de seis dos sete candidatos à Prefeitura de Bauru. O único a prometer a continuidade da obra é Tidei de Lima (PMDB), que iniciou-a em 1996, no último ano de seu governo.
A obra, que conta com duas alças iniciadas, faria parte de um complexo viário composto por dois viadutos, totalizando quatro alças. Um deles ligaria a região da Bela Vista, por meio da avenida Nuno de Assis, à Vila Falcão. O outro conectaria a avenida Rodrigues Alves à Vila Quaggio.
Com investimentos previstos em R$ 38 milhões, o complexo viário gerou uma dívida de R$ 30 milhões para o Município. Desse total, R$ 23 milhões (referentes
à primeira alça de um dos viadutos) foi federalizado e deverá ser pago em 30 anos. O valor restante, correspondente
à segunda alça, ainda não foi negociado e já pode ser considerado uma dor de cabeça para o futuro prefeito.
A construção da primeira alça foi iniciada em 1996, primeiro com orçamento municipal e, depois, com empréstimo de R$ 10 milhões contraído junto ao Chase Manhattan - o valor foi autorizado pela Câmara Municipal e Congresso, os quais consideraram que o Município tinha capacidade de endividamento -. O não pagamento das parcelas resultou em uma dívida federalizada de R$ 23 milhões, que começou a ser paga por Nilson Costa (PPS) a partir deste ano.
Já a segunda alça começou a ser construída em 1997, no primeiro ano de governo de Antônio Izzo Filho. Na época, o então prefeito preferiu diminuir o ritmo das obras da primeira alça e iniciar a segunda, contraindo novo empréstimo. As duas obras ficaram a cargo da empreiteira Camargo Correa e foram interrompidas em abril de 1997, por ordem de Izzo.
Hoje, a dívida resultante do viaduto é apontada como a principal causa do comprometimento do orçamento municipal por políticos de vários partidos. Esse
é o caso da candidata Estela Almagro (PT), que apenas iniciará a obra após consulta popular.
Adepta do orçamento participativo, Estela considera importante que a população, por meio dos conselhos comunitários, opine sobre a continuidade do viaduto. "O povo é quem deve hierarquizar suas necessidades. Eu, particularmente, não elencaria essa obra como prioritária", afirma.
Tuga Angerami (PSB) também considera importante ouvir a população sobre o assunto, mas por meio de entidades organizadas, como o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea), Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag) e Universidade Estadual Paulista (Unesp).
"A discussão de retomada das obras do viaduto deve ser feita em conjunto com a sociedade. Entendo que a melhoria do sistema viário passa pela melhoria da malha central, do acesso dos bairros e da conclusão de avenidas, algumas delas já prometidas por Nilson Costa. Mesmo assim, não considero o viaduto uma prioridade", avalia.
Para Tuga, o viaduto não é uma questão prioritária para a população. "Há outras questões pendentes, como saúde e educação, que deverão fazer parte de um plano emergencial. A pavimentação e as galerias de águas pluviais são outras necessidades emergenciais apontadas pela população", completa.
Nilson Costa é outro candidato que aponta saúde e educação como prioridade em detrimento à conclusão do viaduto. "A retomada das obras depende da conjuntura financeira do Município. Neste instante,
é impossível e uma irresponsabilidade flagrante. Temos uma dívida de R$ 23 milhões federalizada e mais R$ 7 milhões junto à empreiteira para pagar", explica.
Além desses R$ 30 milhões, o candidato à reeleição lembra que a conclusão da primeira alça consumiria ainda R$ 4 milhões, valor que a Prefeitura não poderia assumir hoje. "Nosso limite de investimento está reduzido e a retomada das obras implicaria em destinação de toda nossa receita para o custeio do viaduto. Por isso, seria uma insensatez prometer a conclusão da obra agora", avalia.
Autor do projeto do complexo viário, Tidei de Lima (PMDB) garante que concluiria a obra, mas apenas a primeira alça do viaduto já iniciado. "Esse é um projeto para oito ou nove governos, é algo para o futuro e deve ser feito para garantir o desenvolvimento da cidade", defende.
Tidei posiciona-se sobre críticas dizendo que não foi irresponsável. "O Município tinha capacidade de endividamento, o problema é que o empréstimo não foi pago, resultando nessa dívida. O viaduto não foi responsável pela atual situação financeira da Prefeitura e não foi concluído por questões políticas", garante, referindo-se a Antônio Izzo Filho.
Por causa de todo investimento feito na obra, Pedro Tobias (PDT) considera necessário concluir as obras iniciadas, mas antes aponta que é fundamental esgotar as demandas emergenciais na área social.
"A população quer ver seus problemas de saúde, educação, segurança e emprego resolvidos antes do viaduto, que não é prioridade. Mas, por causa de todo dinheiro investido, qualquer cidadão responsável não pode deixar a obra parada", pondera.
Se for concluir a alça do primeiro viaduto, o candidato pedetista afirma que buscará verba a fundo perdido. "Não tirarei dinheiro do orçamento municipal para isso", garante.
Mais criativo, Carlos Sandrin (PT do B) quer complementar as verbas municipais a serem investidas na retomada das obras com um fundo de doações. O dinheiro poderia ser depositado em uma banca, instalada no final do viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, na Vila Falcão.
"Como passa muito carro por ali, a população poderia ir jogando moedas, quanto quisesse. Esse valor seria usado para pagar os funcionários da obra", explica Sandrin, que é outro candidato contrário ao projeto.
Thomaz Zamonaro (PRN) é o único candidato a posicionar-se totalmente contra o viaduto. O prefeitável afirma que não retomaria as obras nem mesmo se contasse com dinheiro em caixa.
"Meu primeiro ato seria colocar as finanças em dia e, em segundo, melhorar a área social, que está bastante precária. Há outras coisas mais importantes que esse viaduto, que liga nada a lugar nenhum. Ele foi mal planejado e não irá desafogar o trânsito. A cidade jogou dinheiro fora", conclui.
Obra sozinha não soluciona problema, aponta especialista
O término do viaduto, previsto para ligar as regiões da Bela Vista e Vila Falcão, não solucionará o problema viário enfrentado pelo Centro da cidade. A opinião
é do arquiteto e urbanista Antonio Carlos de Oliveira, professor da disciplina Trabalho Projetual Integrado, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru.
"A solução da questão viária implica em medidas conjuntas. Intervenções urbanas nunca andam sozinhas. O viaduto pode ajudar o trânsito a fluir melhor, mas apenas ela não resolverá o problema", afirma Oliveira.
Junto à construção do viaduto, o urbanista considera necessário redimensionar o transporte coletivo municipal, o que inclui mudança de frota de ônibus e estudo de itinerários, além de alteração de sinalização e avaliação de capacidade de escoamento de vias próximas ao Centro.
Antes, porém, da retomada das obras, Oliveira aponta como fundamental que a Prefeitura consulte a população sobre as suas prioridades premente.
"Sem dúvida, o viaduto tem a sua importância, mas a opinião da população deve ser relevada e adotada como prerrogativa no momento do Município definir suas prioridades", avalia o urbanista.
Para Oliveira, a consulta popular contribui para um desenvolvimento mais harmônico da cidade. Unido a isso, o professor recomenda a investigação da disponibilidade financeira do Município.
"A questão viária é preocupante, mas, com o crescimento rápido de Bauru nos últimos anos, urgem intervenções pontuais, como construção de creches, equipamentos de saúde, habitação e implementação de medidas de segurança. Por essa razão, há a necessidade do conjunto da população se posicionar sobre o que considera prioritário", conclui.