Tristeza invade hoje jornalismo de humor
B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade e membro da Academia Bauruense de Letras
O jornalismo bauruense está mais frio e empobrecido neste dia de inverno. E o jornalismo de humor, quase extinto. A morte, ontem, do "seu Toninho", mais uma vez nos pegou de surpresa. Broncolino deixa de participar deste formidável espetáculo da vida, em plena produção. Interrompeu sua última piada para arrumar um tempinho para morrer, pois sua vida foi só trabalho. A malvada Parca o pegou por traição, caso contrário, certamente teria ouvido umas curtas e boas, deixando-o viver por mais algum tempo e nos poupando dessa tristeza em meio a este inverno cinzento.
Nós, os jornalistas Decreto 972, somos produtos do meio. Nossas salas de aula, as redações e os corredores dos jornais. Os professores são os colegas mais velhos, mais experientes, que vão anos à frente, e, por este motivo, conhecem e nos ensinam os melhores caminhos desta fantástica, difícil e, por vezes, incompreendida profissão. Felizes daqueles que tiverem, neste contexto, colegas sábios, experientes, que conheceram todos os labirintos da profissão. Sinto-me feliz, porque, no meu caso, também tive sempre ao meu lado, dentre outros, um Antônio Bueno dos Santos.
Não fui colega de Broncolino no tempo do jornal A Verdade, da revista Realce, nem dos tempos de apresentador de programa dominical na TV Bauru, Canal 2, mas comecei a trabalhar com ele no antigo Diário de Bauru, há pouco mais de três décadas. Logo depois já nos encontramos no Jornal da Cidade. Pessoa digna de toda confiança, formou parte, duas vezes, da diretoria do Sindicato dos Jornalistas (Seção Bauru), enquanto ocupei a presidência. Daí também minha amizade com dona Victória e toda a sua família, constituída de maneira exemplar.
Broncolino era um jornalista desse ramo especial e raro que é o humor. Em poucas palavras, de maneira satírica, apimentada, irreverente, conseguia editorializar um assunto que nós, do outro estilo, precisamos gastar aos quilos de latim para conseguir transmitir aos leitores. Homem sempre de um ótimo humor, por onde passava dissipava as tristezas. Irreverente, sim, porém se impunha os seus próprios limites em respeito aos diversificados leitores. Quando certos temas que eram tabus na imprensa começaram a invadir o jornalismo bauruense, chegou a polemizar com uma colega por esse motivo.
Aliás, iniciar uma polêmica com Broncolino era começar mal e terminar pior. Vários políticos que desviavam do caminho do bem, alguns velhacos por tradição e outros que caíram temporariamente num pequeno deslize, puderam sentir a dor de uma vergastada dada em forma de humor. É claro que por trás do humor sempre havia um homem sério e os leitores compreendiam aonde é que ele queria chegar. Há muito o que falar sobre Broncolino, porém, minha maior admiração pelo colega era a maneira como ele se transformava em escudo para proteger os amigos. Nesse aspecto, tenho certeza de que tenha me influenciado durante esta longa vida de convivência. No fundo, não era o amigo que pretendia proteger, mas as boas causas que isto poderia representar. Lembro-me de sua alegria, diante da Prefeitura, ao ver seu amigo Nilson Costa, a quem considerava como um irmão e sempre o chamava com apelido em francês
("Monsieur") assumir os destinos de Bauru. Com certeza, sua euforia era mais pela confiança, pela nova filosofia que chegava à cidade que adotou como sua. Hoje estamos muito tristes. Perdemos quase todo o nosso jornalismo de humor.
(B. Requena é editor de Internacional do JC e membro da Academia Bauruense de Letras)