Genoíno diz que eleitor perdeu auto-estima
Texto: Nélson Gonçalves
O deputado federal do PT esteve em Bauru, anteontem, dando apoio à candidatura de Estela Almagro e de vereadores do partido
A eleição municipal deste ano é o ponto de partida para que o cidadão retome a esperança, auto-estima e valores sociais em relação aos agentes políticos. A avaliação é do deputado federal José Genoíno (PT), que defende que o Partido dos Trabalhadores exerça sua força política em favor da recuperação da auto-estima do cidadão-eleitor. O deputado teme que a falta de esperança do eleitor aprofunde os prejuízos administrativos vividos em diferentes locais do País.
Com esta missão, o deputado federal petista está cumprindo uma agenda nacional de peregrinação por diferentes colégios eleitorais. Entre as prioridades, depois das capitais de Estado, estão as "capitais regionais". Entre elas, José Genoíno veio a Bauru dar o apoio
à candidatura a prefeita de Estela Almagro, bem como de petistas que tentam uma cadeira na Câmara Municipal de Bauru. Leia os principais pontos da entrevistas com José Genoíno:
Imprensa - Qual o motivo principal de sua vinda a Bauru?
José Genoíno - A primeira razão é que Bauru é uma capital regional do interior do Estado de São Paulo e aqui estamos dando apoio à candidatura própria do partido, da Estela Almagro. Nós estamos uma viagem por toda a região e também em municípios menores onde o PT está bem organizado. Nós entendemos que é fundamental nós reforçarmos as candidaturas majoritárias do partido. E também temos como objetivo nesta eleição interiorizar o partido, reforçando as candidaturas da eleição proporcional. O PT tem uma história de luta e queremos dar continuidade a isso, reforçando nosso trabalho. Esse esforço é no Brasil inteiro. Eu já estive no interior do Nordeste, de Florianópolis (SC), no interior do Rio Grande do Sul e São Paulo. E vou voltar em vários locais, como Minas Gerais. O PT tem chance de ser o partido mais forte no Estado de São Paulo. Não só porque tem chances de ganhar na capital, como em grandes cidades do interior e da Grande São Paulo. Queremos trazer essa influência em cidades como Santos, Ribeirão Preto, para cidades como Bauru.
JC - A interiorização do PT está sendo feita de acordo com a afinidade de lideranças nacionais com algumas regiões?
Genoíno - A interiorização não depende de afinidade política. Esta é a orientação do partido. Eu, por exemplo, estou cumprindo uma agenda que é determinada por um grupo do comando do partido em nível nacional, quando é fora de São Paulo. Tenho outra agenda do comando estadual. Essas agendas são determinadas e cumpridas pelas lideranças, de acordo com as necessidades de cada região, seja eu, o Mercadante, Suplicy, Lula, José Dirceu e outros. O José Dirceu, por exemplo, agora está no interior do Ceará e eu já estive no interior de Santa Catarina, onde ele não foi. Estamos procurando fazer este trabalho de reforçar o partido em todas as regiões do País. O PT é um mosaico de várias histórias, de várias experiências de seus representantes.
JC - Na opinião do senhor, como o PT deve trabalhar para combater a rejeição e até o preconceito em relação a estrela, símbolo da história do partido?
Genoíno - Em primeiro lugar nós temos que combater o preconceito entendendo que ele vem de uma base até real, porque a sociedade brasileira é uma sociedade que tem uma história de preconceito, de tradicionalismo e exclusão social. A nossa formação, de 500 anos, trás na Nação e na política uma marca de preconceito muito grande. Um partido que busca sempre representar os de baixo, de tentar propor a cidadania para quem nunca teve, para quem não tem trabalho, não tem moradia, não tem emprego e não tem comida, mas também a cidadania para os negros e mulheres discriminados, esse partido sofre muitas incompreensões. Então temos que enfrentar isso dizendo a verdade. Segundo, temos que ser radicais sem ser sectários.
JC - Radicais com o que e não sectários onde?
Genoíno - Radicais com a verdade, de não escamotear nada, mas fazer uma campanha alegre, com base no convencimento, na persuasão política. Fazer uma campanha não raivosa, com base na alegria. Se queremos uma sociedade mais alegre, também temos que oferecer uma campanha mais alegre, com astral para cima. Acho que este é o perfil que tem dado certo em diferentes lugares. Em Porto Alegre, por exemplo, a cidade
é vermelha, é alegre. A maioria da cidade é vermelha porque o PT fez uma administração respeitada lá.
JC - Então porque Bauru não é vermelho, com essa força que o partido tem em outros lugares?
Genoíno - Isso depende de cada lugar. Você pega a experiência de Santos, nós perdemos a eleição para o PPB e agora a Telma está sendo consagrada. O caso de Ribeirão Preto, perdemos a eleição para o PSDB e agora estamos sendo consagrados. Um partido político se constrói com muita dificuldade. Temos que construir lideranças, movimentos, referências. Aqui nós estamos com esta perspectiva otimista. Vamos ter uma campanha com duas pernas. Uma perna com o local e outra no geral, porque o País está sofrido. E estamos construindo essas lideranças, em um processo.
JC - Qual partido sairá mais prejudicado nestas eleições?
Genoíno - O PSDB tende a ser o partido a sair mais prejudicado nestas eleições. Primeiro por causa da identidade com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo porque pesquisas indicam que os candidatos apoiados por Covas e por Fernando Henrique estão encontrando uma rejeição muito grande. E terceiro por causa da crise social que o País vive. Os tucanos deitaram em berço esplêndido com os louros do Real. Só que o desemprego e a crise fizeram isto sucumbir. Eles prometeram o céu com as privatizações. Em alguns casos é o purgatório, em outros é o inferno. Eles prometeram milagres e agora estão vindo os escândalos. É natural que eles paguem a conta maior junto ao eleitorado. O PFL vai pagar um pouco também, assim como o PMDB e o PPB, pelo apoio irrestrito que deram esse tempo todo a essa política.
JC - O PT vai explorar esses problemas nacionais?
Genoíno - Sim, mas queremos apresentar alternativas. Um dos eixos nacionais da nossa campanha é recuperar a auto-estima do eleitor-cidadão. O povo brasileiro está com medo do futuro, lamentavelmente. E quando o povo tem medo do futuro é péssimo. Temos que despertar energias positivas não só da base social do PT, mas de muita gente que não é da base social do partido. Muita gente da classe média, do assalariado, da classe média sofrida, topa construir um projeto decente. Você pode construir um projeto sem corrupção, com decência social e com democracia. Está provado que se no Brasil a gente estancar o ralo da corrupção tem dinheiro para investir na área social. Mas é preciso também recuperar a auto-estima do povo, que sem ele não há democracia, nem sociedade e não há País. Veja em São Paulo, os paulistanos perderam a auto-estima e esperança, perderam o orgulho pela cidade. E esse problema existe em várias cidades, em Bauru também existe este fenômeno. É buraco, falta de dinheiro público, corrupção, telefone que não funciona, povo sem emprego, violência urbana, falta de comida. Virou um descalabro social total. A esquerda deveria estar junta nesse mutirão para reconstruir o País, nessa alternativa.