Aprendizado lúdico é tema de evento
"Brincar é permitido e o aprender é construído". Esse é um dos lemas da 2.ª Semana Pedagógica promovida pela Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente (Amencar), sediada em São Leopoldo (Rio Grande do Sul). O evento está sendo realizado desde ontem no Centro de Treinamento e Vivências (CTV). Os interessados podem participar das oficinas que serão realizadas hoje e amanhã.
Mais de cem pessoas, dentre educadores, agentes sociais e dirigentes de entidades que atuam com crianças e adolescentes em programas de educação (de São Paulo e outros Estados) inscreveram-se para a Semana, cujo objetivo é proporcionar uma reflexão sobre os aspectos pedagógicos e os novos pressupostos e desafios que envolvem o assunto, resgatando referências lúdicas e criativas.
De acordo com o sociólogo e coordenador do evento, Dilson Wrasse, Bauru foi escolhido para sediar a Semana devido à sua localização central. As atividades ocuparam todo o dia de ontem, a partir das 8h30, quando representantes da Secretaria de Assistência Social de Paranavaí
(PR) e de Educação de Marília e de São Manuel reuniram-se numa mesa-redonda, mediada pelo consultor em Educação do Instituto de Estudos Especiais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenador nacional da fundação Fé e Alegria, Mauricio Homma.
Avaliar o processo de municipalização da educação infantil em relação às entidades sociais foi o objetivo da mesa. Homma fez várias abordagens sobre o tema. A primeira foi sobre a importância de definir qual o órgão público responsável pela sua efetivação em cada município.
Outra, referia-se à necessidade da definição de políticas públicas para normatização, supervisão e acompanhamento do atendimento nas instituições,
"não somente para punir, mas para orientar". Um terceiro tópico dizia respeito ao financiamento da educação infantil, que hoje estaria limitada pelo Fundo de Ensino Fundamental
(Fundef), que obriga todos os municípios a aplicarem, dos 25% determinados pela Constituição, 60% no ensino fundamental, restando muito pouco à educação infantil.
Homma destacou, ainda, que o município tem de conhecer bem sua demanda, verificando sua capacidade de atendimento e as possibilidades de estabelecimento de parcerias com entidades sociais, caso não haja possibilidade de atender a todos. Ele alertou, também, sobre a entrada precoce de crianças no ensino o fundamental, sem que passem pelo "estágio" necessário da educação infantil. Ele contou que há casos de crianças matriculadas com 5 anos e meio. "Os pais acham que é um gênio. A própria lei do Fundef garante que, quanto mais crianças no fundamental, mais verbas são recebidas. Prepara-se a criança para o futuro e não para o presente", criticou.
Para finalizar, reforçou que é preciso manter um padrão de atendimento que respeite as necessidades e direitos da criança e sua família, uma proposta pedagógica adequada, integração no sistema de atendimento (incluindo saúde, habitação), definição sobre as exigências referentes à formação básica do educador e sua educação continuada, dentre outros tópicos.
No período da tarde, foram realizadas três conferências, cujos temas eram "Projeto político-pedagógico",
"A criança e seu desenvolvimento psicossocial" e "Os desafios da educação para o próximo milênio". Para finalizar o dia, às 20 horas, o coral da cidade de São Manuel apresentou-se para os participantes.
A assistente social, especialista em Recursos Humanos, Sandra Maria Almeida Cordeiro, ministrou a primeira conferência. Ela explicou aos presentes sobre a importância não só de as instituições que atendem crianças de 0 a 6 anos de idade elaborarem os projetos pedagógicos determinados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(LDB), mas executá-los e avaliá-los corretamente.
Um dos maiores obstáculos encontrados no dia-a-dia, que as instituições devem tentar superar, é a qualificação dos recursos humanos. O apoio e o incentivo
à capacitação, nesse contexto, seriam imprescindíveis. Sandra parte do pressuposto que, no novo contexto educativo, não basta cuidar, mas deve-se educar na acepção da palavra. As creches, por exemplo, têm de deixar de ser encaradas como "depósitos de crianças" para atenderem
à sua real função. A Constituição de 1988 e, mais tarde (1996), a LDB, pregam a transição do assistencialismo para o atendimento educacional.
"As crianças devem poder contar com recursos humanos e materiais que lhe propiciem maior variedade de situações, para que seja estimulada sua sociabilidade e seu aprendizado sobre o mundo que a cerca", afirmou.
Na mesma linha de pensamento, o professor de pós-graduação da Universidade de Campinas (Unicamp) e coordenador de Educação Física da Associação de Reabilitação Infantil de Limeira, São Paulo, (Aril), e a coordenadora técnica da entidade e assistente social, Berenice D'Andréa, explicaram a segunda conferência, da qual participaram outros membros da entidade.
Eles ressaltaram que ensinar não é simplesmente deixar a criança sentada em frente a uma lousa, mas dar atenção especial às áreas de coordenação motora, cognitiva, de comunicação e, especialmente, a lúdica e a afetivo-social. Deve-se, ainda, respeitar o desenvolvimento individual da criança, não se atendo somente à sua idade cronológica.
O modelo atual, especialmente das escolas públicas, provocaria uma "massificação" do ensino, prejudicial ao desenvolvimento, além de não oferecer alternativas de aprendizagem, constituindo um desrespeito aos direitos básicos do aluno em formação. "O potencial de cada um tem de ser desenvolvido". Outro ponto abordado foi a necessidade de manter contato com profissionais especializados nas diversas
áreas (como fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia) para garantir um bom atendimento à criança.
O coordenador do evento fez questão de salientar que, hoje, não se pode mais pensar na escola, na família e na igreja como únicos educadores. "Na modernidade,
é necessária a capilarização dessas instituições que se preocupam com a educação, sob pena de perder o potencial integral da criança", afirmou.
Serviço
O CTV fica na rua Irmão do Sagrado Coração, 3-30, no Núcleo José Regino. O preço de cada oficina é R$ 50,00, com direito às refeições. Elas vão focalizar aspectos lúdicos, artísticos e criativos. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 230-5568.
Programação
Hoje, 8 às 12 horas e 14 às 18 horas
1- "Educação Infantil na perspectiva da Educação comunitária" - Renate Keller Ignácio - pedagoga social da Associação Comunitária Monte Azul.
2- "Se essa rua fosse minha - um mosaico de jogos, brinquedos e brincadeiras" - Cyrce Junqueira - mestre em Educação pela USP e membro da Escola Oficina-Lúdica.
3- "Literatura Infantil - Meus tempos de Criança"
- Stela Maris Fazio Bartaglia - mestre em educação pela USP.
4- "Práticas de Mediação de Leitura
- Projeto Biblioteca Viva da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança" - Tatiana Wexier - comunicadora social e Elan Bregman - psicólogo.
5- "Brinquedos da cultura popular" - Renata Meirelles
- arte educadora.
6- "Arte-Educação e o projeto pedagógico institucional" - Elaine Hartman - educadora social da creche Menino Jesus de Maringá (PR).
Amanhã, 8 às 18 horas
1- "Modelagem em Argila" - Heloisa de Almeida Pacheco
- Crecheplan.
2- "Gateio: Invencionices no oco das possibilidades - um passeio pelas linguagens das brincadeiras" - Chico dos Bonecos
- educador, poeta, bringuelista e desenrolador de brincadeiras.
3 - "Temos nosso próprio tempo - tempos e rotinas"
- Celia Regina.
4- "Brincando na roda com sons, imagens e movimentos"
- Linice da Silva Jorge - mestre em Educação pela USP.
5 - "Sonho de André - trabalho perceptivo motor: sessões de André Lapere" - Elizete Lúcia Moreno Matos
- doutora pela PUC- Curitiba (PR).
6- "As Artes da Natureza" - Wanet Luna e Joyce Bisca
- mestres em Educação pela USP.
O que é a Amencar?
A Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente (Amencar) é uma organização da sociedade civil voltada à garantia dos direitos de cidadania das crianças e dos adolescentes brasileiros. Criada em 1979, seu objetivo é atuar na promoção social, assessorando e apoiando tecnicamente programas de atendimento
à criança e adolescente.
Atualmente, a Amencar presta assessoria a 132 entidades espalhadas por 90 municípios em 14 Estados, o que resulta no atendimento a mais de 37 mil crianças e adolescentes. Executa, ainda, um trabalho de representação política nos principais organismos nacionais e regionais onde atua, como o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselhos Estaduais dos Direitos da Criança e do Adolescente de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, bem como dos Fóruns Nacional e Estadual de Rio Grande do Sul e Frente Estadual do Pernambuco e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Leopoldo.
A sede do Amencar localiza-se à rua André Ebiling, 234, caixa postal 433, CEP 930001-970, São Leopoldo (RS). O telefone é (051) 588-2222 e, o fax, 588-2368. A página na internet é www.amencar.org.br.