Ser humano precisa de tempo para o luto
Texto: Andréia Alevato
O ser humano precisa de um tempo para elaborar o luto, já que ele tem dificuldade em lidar com perdas. Segundo a psicóloga Regina Furigo, é um choque para a família que descobre que o parente foi enterrado como desconhecido ou indigente, justamente porque o ser humano precisa desse tempo e a morte é um obstáculo.
"O ser humano tem dificuldade em lidar com a perda. Sabemos que um dia vamos morrer e que durante a vida teremos várias perdas. Porém, temos apegos maiores às coisas materiais. E quando se perde uma pessoa querida, é difícil. Se é uma pessoa que já está doente ou é mais velha, essa perda é assimilada aos poucos. Agora, quando a notícia é muito brusca, como um acidente, a consciência não tem um tempo de assimilação. E é um choque. E mais difícil ainda é saber que o parente já está enterrado. Porque, no fundo, a questão da morte é o maior obstáculo para o homem", explicou a psicóloga.
Regina disse que ser enterrado como indigente é um fim de um processo, porque, provavelmente, a pessoa deve ter passado uma vida de abandono ou pelo menos o final dela sem ninguém e sem nenhuma identidade. Para a psicóloga, o RG é mais que o documento de identidade. É o documento que ajuda a compor a história do indivíduo.
"O RG é o documento que identifica a pessoa, mas é mais que uma identificação do cidadão. Ele também dá a origem, a procedência, os familiares e ajuda a pessoa a compor a sua história. Ele mostra que
é uma pessoa x, que nasceu em dia x, na cidade x, com os pais x. Quando a pessoa não tem um desses dados, fica uma lacuna na sua vida. Não ter RG e ser enterrada como indigente
é uma mostra de que a pessoa estava sozinha. Se a pessoa não tem ninguém que reclame por ela, no caso de desaparecimento, é sinal de que essa pessoa estava sozinha no mundo. Viver sem RG é uma lacuna muito grande na vida da pessoa, porque ela não sabe nem quem é. É uma história de solidão", afirmou Regina.
Ela explicou que o velório faz parte do ritual do ser humano para melhor aceitar a morte. Os estudos de sítios arqueológicos da Antigüidade sempre mostram vestígios de flores e pertences do morto junto ao corpo. Velório e enterro são formas de homenagear a pessoa que morreu.
"Com isso, vemos que já existia a preocupação de velar pelo corpo. Mesmo sabendo que esse corpo estava voltando para a natureza, quando é enterrado, esse ritual de passagem
é importante para a pessoa. É uma transformação que ninguém sabe o que é. Quem tem fé, acredita que é uma passagem para uma vida espiritual. Quem não tem fé, sabe que é um fim. Isso existe desde que o homem existe. O ritual do velório e enterro são formas de homenagear a pessoa. Por menor que tenha sido a sua expressão na Terra, ela fez parte da humanidade. Quando alguém chora, vela o corpo, está prestando uma homenagem
à pessoa que morreu. E a pessoa que é indigente e que não tem RG tem a mesma importância na Terra que outra qualquer. Ela também merece o ritual do enterro, mas não tem porque é sozinha", concluiu Regina.
Morto também tem direitos
Não é só em vida que a pessoa tem direitos. Depois de morta também.
Segundo o advogado Roberto Abramides Silva, a pessoa obtém a personalidade civil a partir do seu nascimento com vida, adquirindo capacidade para os atos da vida civil e responsabilidade em âmbito penal.
Ao morto, restam direitos relativos exclusivamente ao seu corpo, tais como o jazigo perpétuo, enterro digno e preservação de seu corpo, quanto à exumação, pelo período mínimo de cinco anos, a não ser, que haja uma determinação judicial que estabeleça o contrário.
Ele explicou ainda que a existência do indivíduo, segundo a legislação civil, acaba com a morte. Em conseqüência, também, se acabam seus direitos e obrigações. A partir daí, ocorrerá, necessariamente, o registro do óbito, que gera direitos e deveres, de ordem civil, aos eventuais herdeiros e legatários.