Geral

Pais

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

O pai do próximo século

Texto: Gustavo Cândido

O papel do pai na família tem mudado com os anos. A extrema rigidez e a distância dos filhos, antes exibidas por qualquer pai e "chefe de família", têm dado lugar a uma figura paterna mais flexível e acessível à prole, que divide as atividades e a "chefia" da casa com a mulher. É o pai do próximo século, menos sisudo e cada vez mais "amigão" dos filhos.

O comerciante Halim Aidar Jr. é um desses

"novos pais". Ele conta que sente uma grande diferença entre a maneira como foi criado pelo pai e a forma como cria hoje seus dois filhos: Halim Neto, de 17 anos, e Fernanda, de 14 anos. Segundo Aidar, a maior diferença que os tempos trouxeram no relacionamento entre pais e filhos foi a possibilidade do diálogo, que hoje é muito maior e mais aberto com os filhos do que antigamente. "Hoje se conversa sobre tudo com eles e a gente percebe até coisas que eram impensáveis naquela

época, como o modo de falar dos filhos com os pais", diz, referindo-se ao fato de os filhos usarem apelidos para chamar os pais. "No meu tempo isso era falta de respeito", explica.

Na opinião de Aidar, essa proximidade com os filhos acabou fazendo do pai mais um amigo do que uma figura controladora, o "chefe da família". "Foi uma mudança muito positiva, que tornou o relacionamento mais impessoal. É muito legal estar sempre próximo do mundo dos filhos", afirma. Segundo o comerciante, essa proximidade entre pais e filhos pode proporcionar uma experiência muito gratificante que é a de ter mais liberdade para descobrir o mundo junto com os filhos. "Tive filhos muito cedo e por isso aprendi muito com eles e ao mesmo tempo que eles e isso foi e continua sendo maravilhoso". diz.

Papéis equivalentes

A psicóloga e psicoterapeuta Maria Regina Corrêa Lopes Vanin explica a mudança: "o pai dos dias de hoje não é o mesmo de décadas atrás, hoje estão mais flexíveis", diz. De acordo com ela, um dos principais fatores dessa transformação foi a posição da mulher, que deixou de ser a dona de casa, que cuidava dos filhos para o marido trabalhar. A saída da mulher para o mercado de trabalho aproximou o homem do universo feminino, das tarefas domésticas, das preocupações com o lar e com os filhos a ponto de hoje não ser incomum ver pais com a guarda dos filhos após uma separação, ou pais que tomam conta das crianças quando a esposa precisa trabalhar ou viajar. Os papéis se tornaram equivalentes. Na opinião da psicóloga, todos ganharam com essa mudança, não só os filhos, com a maior presença do pai no seu dia-a-dia, mas também o casal em si, que se tornou mais próximo.

A figura do "machão" rígido que caracterizava o antigo pai "chefe de família", também está dando lugar a um homem mais sensível, com menos bloqueios, que curte coisas que antes eram só relacionadas ao universo feminino, como cozinhar, fazer compras no mercado e cuidar das crianças. Para Maria Regina Vanin, o pai de hoje se permite isso, ser mais sensível, mais afetivo, mais lúdico e próximo dos filhos. "A figura paterna está cada vez mais longe daquela imagem de autoridade de antigamente que as mães usavam para pôr medo nos filhos", diz.

O médico Eduardo Crivelari Baisch é um exemplo de pai que também realiza tarefas antes destinadas só às mães. Pai de Thiago, de 1 ano, ele procura estar sempre presente, participando da vida do filho.

"Troco fraldas, sei cuidar da sua alimentação, seus remédios... os pais devem participar mais nesse sentido", conta. Para o médico, a mudança no comportamento paterno durante os anos só veio melhorar a relação entre pais e filhos. "A proximidade que isso provocou é muito positiva para as duas partes. É importante que o pai esteja presente e acompanhe o seu filho desde cedo, para que ele fique também ligado à figura paterna, não só à materna como era antigamente", diz.

Processo lento

O pai do novo milênio, segundo Maria Regina Vanin, com certeza vai ser mais participativo, mas isso ainda

é um processo lento, que deve vir acompanhado de muitos conflitos e resquícios de uma educação machista, que ainda vai levar um tempo para ser incorporado pela maioria dos homens. Em alguns casos, não é o preconceito machista que atrapalha, nem a insensibilidade, mas a própria situação econômica. Alguns pais, mesmo querendo ser mais participativos na vida dos filhos, não conseguem estar sempre próximos porque precisam manter a família.

"Tive muito mais tempo com o meu pai do que tenho com os meus filhos e meu pai com certeza teve mais tempo com o meu avô", conta o economista Wagner Smanhoto. Segundo ele, a correria do dia-a-dia faz os pais perderem um pouco a proximidade com os filhos e também faz com que, muitas vezes, eles fiquem aos cuidados de outras pessoas, que acabam fazendo os papéis de pais e mães, o que não quer dizer que estejam sendo colocados em segundo plano, muito pelo contrário. "É como uma troca que a gente acaba fazendo, fica menos tempo com eles agora, mas tem uma expectativa de um futuro melhor quando eles crescerem", afirma. "É uma ausência no sentido de dar a eles uma vida melhor porque eu os amo", completa.

Amigão

De acordo com Maria Regina Vanin, para os filhos, hoje o pai é mais um "amigão" e essa imagem deve prevalecer nos próximos anos. "O homem pode continuar sendo aquele que dá proteção, segurança e coloca limites, mas de uma forma espontânea e sem rigidez, já que para educar não é preciso ser autoritário ou distante", diz. Segundo a psicóloga, o "amigão"

é capaz de educar muito melhor, porque é mais afetivo, mais brincalhão e é sempre melhor que os filhos gostem do pai do que tenham medo dele. "O pai de hoje pode curtir muito mais os filhos e ser mais espontâneo do que os pais sisudos do passado. Ele está descobrindo que o respeito pode existir também na relação descontraída e lúdica, sem 'cara feia'", explica.

Comentários

Comentários