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Aeroclube

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 5 min

Passageira de primeira viagem

Texto: Adriana Rota

Era uma tarde de céu limpo, praticamente sem ventos, com tráfego aéreo tranqüilo em Bauru. A equipe do JC foi ao Aeroclube para fazer o trabalho de reportagem e recebeu um convite para experimentar as sensações de um vôo acrobático. Era o primeiro vôo dos meus 25 anos de idade.

O fotógrafo embarcou num PA-18, onde teria mais espaço e liberdade para conseguir os melhores ângulos. A repórter subiu no Super Decatlhon com um sentimento misto de curiosidade e (muito) medo, mas o gosto do desafio foi mais forte.

Um parêntese: é praxe fazer reportagens do dia-a-dia por telefone, mas algumas pautas exigem que seja captado mais do que informações lógicas e, aparentemente, paupáveis.

Voltando para a descrição: o espaço dentro do avião era mínimo - o suficiente para a acomodação na poltrona. Um pesado pára-quedas colocado nas costas tinha tiras encaixadas por todos os lados. Com o cinto de segurança, outras se sobrepunham. Uma espécie de touca munida de um fone de ouvido e um microfone permitia acompanhar os preparativos e "pressionar" o piloto.

A essa altura já tinha todos os dados para fazer a reportagem básica, inclusive sobre a probabilidade remota de que algo de mau acontecesse com as condições favoráveis daquele final de tarde. Depois de mentalizar a família, os planos de vida, conversar muito com Deus, relaxar e respirar fundo como orientava o piloto, estava praticamente convencida de que tudo ficaria bem, até que o piloto e administrador do Aeroclube, Edson Mitsuya, falou sobre a localização de um tal saquinho, que me desestabilizou novamente. Mas, tudo bem: já estava lá mesmo e não ia desistir.

Verificados o tráfego aéreo, massa de ar, possíveis frentes frias, vento, temperatura, alinhamento da pista, visibilidade

(em quanto tempo deveria ocorrer o pôr-do-sol), e tantos outros itens determinados pela legislação, o avião decolou. A sensação imediata é querer firmar os pés no chão. É assustador imaginar que, mesmo com o cinto, nada prende seu corpo de fato.

O avião atingiu cerca de mil metros de altura (na aviação, 4 mil pés), o exigido para os tipos de manobras que seriam feitas. Não chegamos à velocidade máxima possível (320 quilômetros ou 200 milhas), o que, provavelmente, impediria a redação desta matéria. Marcelo Shayeb, no comando, foi praticamente um psicólogo, executando manobras "amenas" como looping e outras que não saberia nomear, sempre de sobreaviso.

Enquanto isso, o fotógrafo chegava cada vez mais perto

(demais para mim) com o outro avião, podendo registrar o fato histórico (da minha vida). Após dez minutos no ar (que aparentaram ser horas), descemos e fomos recebidos por uma série de curiosos, que deveriam estar esperando uma paciente e não uma repórter. O mesmo aconteceu na volta à redação. Felizmente, pude falar com minha família depois do vôo e levar uma bronca

(de leve) da minha mãe. A vida tinha voltado ao normal.

Escolados

Cesar explicou que pilotos experientes, num determinado momento, já não sentem mais nem o "friozinho" na barriga. Nesse ponto, aliás, vale uma ressalva: dependendo da acrobacia, a aceleração da gravidade provoca a sensação de multiplicação do peso do corpo. No nosso caso, ela, no máximo, o duplicou. Uma série de técnicas, como de respiração, são assimiladas ao longo do tempo. O detalhe é que o piloto tem de estar sempre exposto a essas situações, sob pena de voltar a ter sentimentos "normais" como os meus.

Realizando o "Sonho de Ícaro"

"Dédalo ensinou à Ariadne, filha do rei Minos, como Teseu poderia escapar do labirinto onde vivia o carnívoro Minotauro, criatura com corpo de homem e cabeça de touro que, todos os anos, devorava sete rapazes e sete moças. O Minotauro, resultado da união de Pasífae, rainha de Creta, com um touro branco, acabou sendo morto pelo jovem.

O rei, furioso, mandou prender Dédalo e seu filho, Ícaro, no labirinto. Eles fixaram penas de aves em seus corpos, com cera, e fugiram voando. Ícaro, entuasiasmado com a experiência, aproximou-se demais do sol, cujo calor derreteu a cera, fazendo com que caísse no mar, onde morreu."

Essa é uma difundida lenda da mitologia grega. Ao que tudo indica, no entanto, as primeiras tentivas reais do homem de voar datam do século XI, quando procurava imitar o vôo das aves, construindo asas e jogando-se de penhascos e torres. Muitos morreram nessas experiências. De lá para cá, a humanidade vem conhecendo avanços contínuos na

área de aviação e aumentando seu espectro de atuação com as viagens espaciais.

Mesmo assim, poder voar, ainda que utilizando-se de artifícios, continua sendo uma vitória da inteligência humana que perturba muita gente. Na opinião do presidente do Aeroclube de Bauru, o medo é natural. Ele salienta, no entanto, que

é necessário ter discernimento com relação

às notícias de desastres aéreos. "É notícia o que é diferente. Avião não cai todo dia, por isso, chama a atenção. Há um mito de que é perigoso. É fato que alguma falha leva ao acidente, o avião não cai, simplesmente. E em 90% dos casos a falha é humana".

Embora tenha consciência de que "para a pessoa que tem medo, não adianta estatísticas", Cesar argumenta dizendo que, nos Estados Unidos, elas apontam que aeronaves são entre 100 e 150 vezes mais seguras que carros. "Imagina no Brasil, onde o trânsito é um dos mais violentos do mundo".

Por esse motivo, os treinamentos de pilotos e instrutores estão cada vez mais voltados à prevenção de acidentes no fator humano. "É preciso melhorar a doutrina da responsabilidade. A pessoa tem de ter ampla noção de seus limites pessoais e dos limites do avião. Máquinas sofisticadas diminuem acidentes, mas é difícil melhorar o homem".

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