"Bicho-homem" é sensação do domingo
Texto: Sabrina Magalhães
Repórter ficou "exposto" em jaula na ala dos primatas por 8 horas. Foi elogiado, criticado e vítima de piadas maldosas
A exposição do "bicho-homem" ontem numa das jaulas do Zoológico Municipal foi a sensação do domingo em Bauru. Cerca de 3.200 pessoas foram conhecer o exemplar da espécie Homo sapiens, que passou oito horas atrás das grades, na ala dos primatas, sendo motivo de todos os tipos de especulação. Muitos se decepcionaram, pois encontraram um homem comum, vestido e confortavelmente sentado numa jaula especialmente mobiliada. Para chegar até ele, foram espalhadas algumas pistas por todo o Zôo. Elas convidavam os visitantes a apreciar o bicho mais perigoso do planeta, uma espécie cosmopolita, com características fisionômicas que divergem de um animal para outro, exceto pelo comportamento. Um mamífero que nasce dependente dos pais e que, ao conquistar independência e liberdade, toma atitudes inconfundíveis: deixa lixo por onde passa, provoca desmatamentos, despeja produtos tóxicos no solo e caça por prazer. Na última pista, um aviso: não ultrapasse a cerca - pois ele pode ser perigoso; não o irrite - pois pode ficar agressivo; e não tente fazer contato - pois ele não é confiável.
Entre elogios e críticas, o "animal" e jornalista Dagomir Marquesi disse ao Jornal da Cidade que é um admirador dos zoológicos e que ao colocar-se do outro lado, queria pedir desculpas aos seus parentes.
Jornal da Cidade: Qual é o objetivo dessa experiência?
Marquezi: São dois objetivos. Um é fazer uma matéria sobre o que é estar do outro lado. Sou um freqüentador assíduo de zoológicos e vi uma experiência dessas em Londres, quis fazer também. O outro objetivo é meio um pedido de desculpas para os animais (...) Quero chamar atenção um pouco para a questão do direito dos animais.
JC: E qual é a sensação de se estar atrás das grades?
Marquezi: É engraçado. Quando some todo mundo ou tem pouca gente aqui, é um extremo prazer, porque estou isolado das pessoas, levando uma vida tranqüila, num lugar que transmite uma paz muito grande, os passarinhos cantando, meu amigo babuíno na jaula ao lado... Agora, realmente, quando começam a vir as pessoas, fica um pouco estressante. Elas falam mais ou menos as mesmas coisas, fazem piadinhas que não têm graça...
JC: Você se sente ridículo?
Marquezi: Não mais do que estar lá fora... Eu sempre me senti ridículo lá fora. Não estou falando das pessoas aqui, mas eu acho que você andar por um lugar cheio de animais e ficar gozando deles ou então se achando superior a eles, isso é ridículo.
JC: Como você vê a reação das crianças e dos adultos?
Marquezi: Eu noto que cada criança tem a reação que os adultos ensinaram. Tem crianças curiosas, você vê que o adulto orienta, que faz a criança refletir. Tem criança que vem para me encher o saco, gozar...
JC: Qual foi o comentário mais desagradável?
Marquezi: Acho que foi uma criança que falou "Sobe no teto". Eu perguntei por quê, ele respondeu "Você não sobe porque está muito gordo". Aí você vê a agressividade. Mas tem muita reação legal também...
JC: As pistas indicavam o animal mais perigoso do planeta...
Marquezi: Pois é. Eu até poderia me sentir mal de falarem que ele é o mais perigoso, ele polui. Eu sou o contrário disso. Mas tudo bem. Sou o representante dos seres humanos. Acho até que isso deveria ser permanente. Devia ter sempre. A gente perde essa noção de que nós somos animais. O homem se acha tão superior... Eu costumo dizer que o homem é inteligente, de certa forma mais preparado que o resto, mas o animal não faz bomba atômica, não queima floresta à toa, então essa inteligência é relativa...
JC: Que mensagem você quer deixar aos visitantes?
Marquezi: Em primeiro lugar, que somos todos animais. Não podemos esquecer. Eles têm que ser respeitados (...) Acho que, às vezes, o animal é mais sábio que o homem. Ele não é inferior, ele é diferente e tem que ser tratado de um jeito diferente. Estamos entrando no século XXI. Há 150 anos, quando se falava em preto, dizia-se "É preto, então bate". De certa forma, superamos isso. Com os animais está na hora de dar esse salto também (...) Porque é um processo de suicídio. O homem está se suicidando. Ele está acabando com o próprio ambiente, o que o animal respeita. Ele tem a capacidade de respeitar, entender a lógica da natureza e o homem não.
Experiência educativa
A idéia de expor o "bicho-homem" no zoológico foi do jornalista Dagomir Marquezi, 47 anos, um dos editores da Revista Playboy. A intenção dele era experimentar a sensação de ser observado de dentro de uma jaula para depois descrevê-la numa matéria que deve ser publicada na edição de setembro da revista. Uma vontade que coincidiu com a proposta educativa da direção do Zôo de Bauru.
"Nós imaginamos uma forma de mostrar para o visitante que a situação dos animais hoje pode ser a do homem no futuro. Estamos poluindo, desmatando, daqui a pouco não teremos um ambiente saudável para o homem. Hoje, estamos tirando algumas espécies e conservando em condições artificiais para garantir a sobrevivência. Dentro de 50, 100 anos, pode ser que seja preciso ter espécies puras de seres humanos em laboratório para garantir o futuro do homem", comenta Luiz Pires, diretor do Zôo.
Questionado a respeito da escolha do Zôo de Bauru, Marquezi afirmou que este é um dos melhores zoológicos que ele já viu, onde o ambiente não é de presídio, com animais desesperados dentro das jaulas. "Aqui o objetivo
é preservar e reproduzir. Os funcionários conhecem cada animal, têm carinho pelas espécies. Cada animal
é um indivíduo, eles não são tratados com frieza."
Na opinião do botânico Gerson Rodrigues, muitos dos aproximadamente 3.200 visitantes que passaram pelo Zôo ontem apenas olharam para os animais. "Alguns se interessam, lêem as placas, aprendem. Estes nós vamos conseguir atingir."
(SM)
Reações
As reações das pessoas que passaram pela jaula do
"bicho-homem" ontem foram as mais variadas. Alguns aprovaram e aplaudiram a idéia. Outros zombaram do "animal" e alguns reprovaram completamente.
"Eu achei legal e interessante, porque a gente é um animal como os outros" Graziele Lopes Couruzzi, 14 anos, estudante
"Eu achei bem diferente. O homem parece um macaco mesmo, então é interessante ficar vendo..." Tânia Mara, 13 anos, estudante
"Sinceramente, eu sou contra isso aí. Um ser humano fazer uma coisa dessas... Você acha que está certo? Eu tenho quase 80 anos e nunca vi uma coisa dessas. Isso aí
é para um animal, estar fechado... Agora, o ser humano numa jaula?" Palmiro Vendramini, 78 anos, lavrador aposentado
"Estou achando 'da hora'. É diferente, né? Uma pessoa lá dentro, com mesa, sofá, objetos. Eu pensei que ia ter macaco junto lá dentro" Luiz Augusto Nascimento, 17 anos, estudante
"Achei uma experiência muito boa, porque é um meio de ver como as pessoas te admiram, o que o homem pode fazer também pelos animais. Fiquei bem admirada e achei interessante a coragem dele de ficar dentro da jaula" Maria Gaudência Brega, 38 anos, esteticista
"É o bicho mais feio do mundo!" Luiz Guilherme, 6 anos