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Pesca

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Aproveitar a pescaria

Texto: Roberta Mathias

"Deus não desconta de nossa vida os dias que passamos pescando..." Esta afirmação faz parte do manual de todo pescador, que busca na natureza e na emoção da pescaria a sua paz interior.

Quem nunca participou de uma pescaria fica intrigado com a paixão de homens e mulheres por esta atividade de lazer. É comum ouvir comentários do tipo: "O que esses 10 homens vão fazer, lá no meio do mato, sem televisão, durante 15 dias?" ou "Eu prefiro um churrasco em casa, a ficar sentado horas e horas esperando a mordida de um peixe".

É, um churrasquinho realmente não é má idéia, mas isso também tem na pescaria, só que o assado na brasa é o peixe. Há histórias de que pescaria é sinônimo de silêncio e pernilongo, muitos pernilongos.

Algumas histórias fazem sentido, nem sempre é possível fugir dos pernilongos e borrachudos que frequentam a beira do rio e também não é muito indicado aquele

"falatório". Meu pai sempre ficava bravo quando eu ficava brincando no tablado: "Pára quieta menina, vai espantar os peixes!" Mas isso não quer dizer que a pescaria é um momento tedioso. Mesmo as pessoas mais agitadas podem se deliciar à beira do rio.

Hoje, a pescaria é uma atividade muito dinâmica, que movimenta uma grande indústria de equipamentos, iscas, embarcações e até vestuário. Há vários tipos de pesca. Além da tradicional "pescaria de barranco", onde tudo começou, as iscas artificiais e o fly atraíram outros pescadores. Com um pouco de exagero, a pescaria poderia ser considerada uma ciência. Muitas pessoas estudam o comportamento dos peixes e o ato de pescar chega a ser prescrito para aqueles tomados pelo estresse.

Por isso, quem nunca participou de um "evento" desses, deve buscar o tipo de pescaria mais adequado à sua personalidade. Alguns pescadores, por exemplo, vão mudando de equipamento e preferências à medida em que adquirem domínio da técnica e vão à procura de outros desafios. Existem aqueles pescadores que realmente preferem a pesca tradicional, na beira do rio, aguardando a fisgada. O que também exige

"ciência".

Na pesca de barranco, não basta ter uma vara, é preciso saber o que se pretende pescar. Cada espécie tem preferência por determinado tipo de isca e, normalmente, as naturais são as mais usadas. Quem nunca pescou com minhocas? Os pequenos peixes, camarões e pedaços de carne são bastante usados nas pescarias de barranco. É comum o pescador cevar o seu pesqueiro com milho azedo, quirela e outras "invenções". Porém, o pescador também pode optar pelas iscas artificiais e o cuidado deve ser o mesmo, pois cada isca artificial desempenha um trabalho diferente na água, atraindo ou não o peixe.

A pesca de corrico pode ser feita em rios e mares. O pescador arremessa a isca (natural ou artificial), fica na traseira da embarcação em movimento aguardando o ataque. O barco procura passar nos locais onde os peixes estão escondidos. Em certa ocasião, após inúmeras tentativas de fisgar um tucunaré na artificial, optamos pelo corrico. Foi certeiro. No primeiro pesqueiro o peixe atacou e proporcionou uma boa briga. Os peixes de oceano (atuns, dourados, marlins, entre outros) são, em muitos casos, fisgados no corrico. E não é de hoje!

Isso não quer dizer que seja impossível pegar um peixe de bico, por exemplo, no fly. Quem tem a oportunidade de conhecer os princípios do fly, dificilmente não adere à modalidade. O pescador não vai abandonar suas carretilhas e molinetes e afirmar que pescar com moscas é a perfeição. Nada disso. É apenas um estilo, ainda pouco difundido no Brasil, que proporciona muito prazer ao pescador devido à beleza e precisão de seus arremessos, excelente performance na captura de peixes esportivos e, é claro, permite boas fisgadas em rios, lagos e mares. É só descobrir a isca certa.

Na verdade, existe uma "briguinha" entre os pescadores. Quem pesca com iscas naturais acha que "esse negócio de ficar jogando pauzinho e colherzinha na água para pegar peixe não tá com nada"; aí, quem pesca com iscas artificiais chama o pessoal que usa isca viva de "lingüiceiro" e, na maioria das vezes, comenta: "Na lingüiça qualquer um pesca, quero ver na artificial"; quem usa artificial, não entende o porquê desse "balé" que é o fly; e para finalizar vêm os pescadores de peixe de bico: "Isso é que é pescaria, o resto

é coisa de criança"!

No fundo, todos são pescadores-cientistas que buscam na pescaria uma forma de lazer e prazer. Na pescaria, eles descarregam suas tensões, renovam suas energias e exercitam seu companheirismo. Há momentos que é preciso deixar o ego de lado e relaxar. Afinal, a pescaria é para isso mesmo. Apesar que para alguns, a pesca também é sobrevivência, mas aí já é outra história.

****História de pescador*****

Não duvide de história de pescador II - A vingança do tatu

Vocês lembram da história de pescador do caderno de Turismo do JC, do dia 13 de abril? Bem, esses fatos insólitos acontecem a todos nós, amantes das matas e rios, ainda mais se somarmos ao fato os tipos, ou o grupo de amigos que vão a esses lugares.

Dia desses, esse mesmo grupo - Denis, Jorge, Paulo, Quirino, Purgano, Pelegrino, Marcos e Cícero - e que agora não mais poderia contar com o nosso cão banguela, que uma cobra

"picou" e ele não resistiu, muito menos com a espingarda do nosso amigo Paulo, porque o Ibama proibiu. Mas ainda com humor, alegria e aquela vontade de se reunir e sair em grupo para pescar, resolvemos tentar pegar alguns bagres, num lugar conhecido por aqui, em Lençóis Paulista, como "São Domingos". Lugar bonito e com muitas histórias de assombração e fatos inexplicáveis, simplesmente um bom lugar para "batermos uns bons bagres".

Bem, chegamos por lá, e cada um procurou logo se ajeitar em seu "poço" de pesca, sempre próximos uns dos outros, e começamos a pescaria. Hora passa, noite vem e nossos ânimos aumentando e nada de peixe. E, em especial, a noite estava muito escura, encoberta por densas nuvens, quando o silêncio foi quebrado por um barulho no mato, que ficava logo atrás de nós. Por incrível que pareça, o barulho se assemelhava muito a passos e estava cada vez mais forte e mais próximo. A maioria de nós estava sentada em pequenos bancos de madeira, inclusive o mais assustado de todos, o Purgano.

Quando o som desses passos ou barulhos veio na direção do amigo, batendo em seu banco, o coitado, que estava de frente para o rio, deu um pulo, um grito e saiu correndo. E, de uma forma irônica, "atravessou" o rio no peito, indo parar lá na outra margem, próximo ao banco onde ficava o nosso amigo Paulo, aquele nosso amigo pescador que não tinha mais espingarda por causa do Ibama. Mas nessas pescarias, ele não largava seu facão "matão", de 25 polegadas, e já o desembainhara e avançava sobre aquilo que assustara tanto Purgano. Ao se levantar, clareou com seu lampião e viu dois tatus, dos grandes, brigando desesperadamente.

Quando os animais perceberam as investidas de nosso caçador, aquele que parecia ser o maior deles voltou-se contra o Paulo, que, no intuito de pegar o "bicho" desferia golpes de facão contra o animal. A cada golpe que o "bicho" recebia, o outro tatu, que estava ao lado assistindo tudo, dava um "pulo" de alegria por ver seu inimigo eliminado. Paulo estava quase acabando com o dito tatu quando vem Denis, seu fiel escudeiro, aluno e discípulo, com seu facão um pouco menor para pegar o outro tatu, que teve mais sorte. E num daqueles pulos, deu uma gargalhada e saiu em disparada pela mata a dentro. Daí, pelo susto e pela algazarra, resolvemos voltar para casa, nossa sede local, onde nos reunimos para festejar nossa amizade e o resultado das pescarias, local onde foi preparado, com um tempero especial e secreto, o dito bicho. Especialidade do Jorge.

Quirino Cochi Júnior é pescador e contador de histórias

*****Troféu pescador ********

Cacharas, pintados e jurupensens são os troféus desta turma, que acaba de voltar do rio Miranda, em pescaria iniciada no dia 1 de agosto. Da esquerda para a direita, confira os pescadores Davilson, Marcos, David, Denis e Marivaldo. Belos troféus que agora vão se transformar em pratos saborosos.

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