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Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 6 min

Em dúvida, universitários desistem no meio do curso

Texto: Fabiana Teófilo

Mesmo inseguros, adolescentes ingressam na universidade para cumprir um papel "imposto" pela sociedade

Uma pesquisa informal realizada pelo Instituto Paulista de Pesquisa Universitária (IPPU), mostra que 30% dos alunos que ingressam nas universidades do Estado de São Paulo desistem do curso antes da conclusão. Desses, 90% voltam a estudar e prestam novamente o vestibular, os outros 10% desistem dos estudos e começam a trabalhar em funções que não exigem formação universitária.

O IPPU foi formado por nove ex-universitários de São Paulo (quase todos psicólogos), em maio de 1999. Para eles, há muitos assuntos ligados às universidades que devem ser pesquisados para que se entenda melhor a falta de interesse que os jovens têm pelos estudos. "A minoria das pessoas chega a cursar uma universidade em nosso País porque precisa trabalhar para ganhar dinheiro, mas sem um curso superior, conseguir emprego com um bom salário é mais difícil", explicou Marília Souza de Arruda Marcondes, uma das integrantes do instituto.

A dúvida em relação a escolha da profissão

é um conflito que os adolescentes pré-vestibulandos enfrentam. Alguns não sabem que rumo tomar, mas mesmo assim prestam o vestibular.

Marília contou que algumas escolas da rede particular já inovaram levando profissionais de diferentes áreas para dar palestras aos alunos de 3.º colegial e cursinho, mas para ela, só isso não basta. "O ideal seria conviver com os profissionais da área pelo menos por um dia para conhecer na prática o trabalho desenvolvido por eles", afirmou.

A pesquisa realizada pelo IPPU mostra também que 10% dos recém-formados não pretendem trabalhar na área.

"Eles nem sabem porque fizeram o curso, alguns por exigência dos pais, mas são insatisfeitos com a profissão." Marília acredita que são poucos os que cursam uma universidade, gostam do que fazem e são felizes como profissionais. E vai além: "Eu acredito que se mudasse o sistema de ensino no Brasil, o desenvolvimento do País seria maior e mais intenso porque é da educação que se tira tudo."

O estudante Gustavo Tamura, 18 anos, está fazendo cursinho e não sabe o que gostaria de estudar, mas vai prestar vestibular para Ciências Biológicas. Ele não acredita que uma orientação vocacional possa auxiliá-lo na escolha e se ele não gostar do curso pára. "O bom seria unir uma profissão que temos afinidade com algo que dê dinheiro", disse.

Leonardo Constante da Silva Bicudo, 17 anos, é aluno do 3.º colegial e disse que até agora não conseguiu chegar a uma conclusão de qual carreira quer seguir, mas vai prestar vestibular para o curso de Educação Física. "Vou tentar para ver no que vai dar. Se eu não gostar desisto de estudar", afirmou.

Para Sérgio Tanikawo, 19 anos, que faz pela primeira vez o cursinho, há pressão de todos os lados, mas ele sabe bem como lidar com isso. "Não estou muito seguro, mas vou prestar vestibular para Engenharia de Produção porque muitas pessoas da minha família são dessa

área", explicou.

Os pais de Marina Pavão Bataglini, 17 anos, não interferem na sua decisão. Ela disse que vai prestar o concurso vestibular para Psicologia, mas não tem certeza se é isso que pretende fazer. "Se eu não gostar, volto e começo do zero", afirmou. Para ela, a orientação vocacional não é muito interessante porque indica apenas a área a qual o orientando deveria atuar.

Orientação vocacional

De acordo com as psicólogas Luciana Maria Biem Neuber e Gilda Maria Albaricci Nex, a orientação vocacional, que pode ser feita em grupos ou individualmente, auxilia os jovens que têm dúvidas em relação às profissões. Atualmente, o método utilizado para fazer essa avaliação conta com testes e auto-conhecimento, ou seja, diálogos que têm como objetivo verificar como as pessoas se comportam diante de outras escolhas que fazem na vida.

Para Luciana, há uma pressão da sociedade e, em alguns casos, da família em relação ao vestibular.

"Ao final do terceiro colegial, o destino é prestar o vestibular e ingressar na universidade", afirmou. Ela disse que há uma tolerância de um ano por parte até mesmo dos estudantes, que aceitam fazer cursinho pré-vestibular.

"Os jovens, muitas vezes, não estão preparados para uma escolha profissional, são imaturos para tomar essa decisão", afirmou.

A orientação vocacional é direcionada também para aqueles que já estão cursando a universidade mas não estão satisfeitos. Nesse momento há um conflito grande para a desistência. Os universitários se sentem, mais uma vez, inseguros em dizer o que querem. "Mais uma vez o peso da sociedade é grande, afinal os estudante já "perdeu", seis meses ou um ano cursando a faculdade", disse.

Luciana explicou que a faixa etária entre 16 anos e 18 anos é sacrificante emocionalmente porque para esses adolescentes

é difícil decidir o futuro. "Para eles, o futuro

é algo muito distante porque estão mais interessados em viver a fase atual", disse.

Ela ressaltou que "não escolher" também

é uma escolha. Os jovens, de acordo com Luciana, têm que contar com essa opção, porque talvez eles não estejam preparados para tomar essa decisão no momento em que estão vivendo.

Para Gilda, é importante o adolescente aprender a se conhecer, a saber quais são suas afinidades, descobrindo interesses e aptidões pessoais.

Influência dos pais

Algumas famílias influenciam muito na decisão dos filhos em relação ao futuro profissional. De acordo com a psicóloga Gilda Nex, tudo pode pesar para o adolescente que está vivendo a fase de escolha de profissão.

A profissão dos pais muitas vezes pesam, principalmente nas famílias tradicionais, como por exemplo as que o avô

é médico, o pai é médico e então o filho provavelmente acredita que também deve ser médico.

Há também os pais que exigem que o filho opte por uma ou outra profissão porque tem status ou porque é financeiramente aconselhável.

Outro caso, de acordo coma psicóloga, é quando o pai é frustrado profissionalmente e espelha no filho aquilo que gostaria de ter feito. "O pai embute uma vocação no filho. É uma pressão sutil e o adolescente acredita que tem o dom para aquela profissão porque vê o pai como uma figura importante", disse.

Arnaldo Antiliolli Neto, 17 anos, está estudando para prestar vestibular para o curso de Odontologia. Ele disse que o pai, Arnaldo Antiliolli sempre teve vontade de ser dentista, mas sua família não pôde financiar o curso e então ele se formou em Administração de Empresas. "Eu sei que ele quer ver o sonho dele realizado por mim, mas eu também gosto da profissão. Acho. Vamos ver no que vai dar", disse o garoto.

O pai afirmou que nunca obrigou o filho a fazer Odontologia, mas sempre falou sobre sua frustração. "Acho que ele quer me agradar, mas também acredito que se ele não tivesse um mínimo de interesse pela profissão, não estaria estudando para isso", contou.

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