Homem tem vez na capital do bordado
Texto: Adilson Camargo
Grande oferta de vagas em Ibitinga, acabou atraindo muitos homens. Hoje, eles são metade da mão-de-obra usada nas confecções
Considerada a Capital Nacional do Bordado, Ibitinga é uma das poucas cidades do País onde desemprego é uma palavra praticamente desconhecida. Pelo menos entre aqueles que trabalham nas indústrias de confecção de bordados. O centro da cidade está completamente tomado por lojas que vendem de cortinas a enxovais para cama, mesa e banho. São tantas que, fazer pesquisa de preço passa a ser uma tarefa tão fácil para o consumidor quanto cansativa.
Segundo estimativa da Associação Industrial e Comercial de Ibitinga, existem hoje cerca de 400 lojas espalhadas por toda a cidade, as quais vendem uma parte do que as indústrias locais produzem. A outra parte é vendida para grandes Departamentos de Lojas no Brasil e no Exterior, mais especificamente na América do Sul.
Como conseqüência de todo esse potencial de produção, a oferta de empregos na cidade não poderia ser melhor. Segundo a tesoureira do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Confecções e Bordados de Ibitinga e Região, Jôsi Camargo Souza, cerca de 80% da população trabalha na confecção do bordado, grande parte na infomalidade - trabalhadores sem registro em carteira. No início, o trabalho com bordado era feito quase que exclusivamente por mulheres. Hoje, porém, as estatísticas mostram que muita coisa mudou.
De acordo com dados do sindicato, hoje 50% de toda a mão-de-obra absorvida pelas indústrias é formada por homens. O que antes era um complemento no orçamento, agora passou a ser a principal fonte de renda da família. Mas engana-se quem imagina homens de agulhas em punho bordando sem parar, como fazem, por exemplo, as vovós.
O trabalho deixou de ser manual e passou a ser mecânico, feito em máquinas semi-industriais.
Além de operar essas máquinas, os homens trabalham também no corte e nas dobras dos tecidos, no empacotamento dos produtos e em todo e qualquer trabalho mais pesado. Se os empregos nas fábricas estão dividos em partes iguais entre homens e mulheres, o mesmo também acontece em relação ao salário. Segundo o engenheiro de produção, Ayrton Nicolau Galice, não há diferença salarial entre trabalhadores que exercem as mesmas funções.
O principal motivo que levou tantos homens a procurar uma vaga nas fábricas de bordados foi o nível quase zero de desemprego nessa área. "Quem trabalha com bordado em Ibitinga dificilmente fica desempregado", garante Jôsi. E diante das altas taxas de desemprego verificadas em outras áreas, não há preconceitos que não possam ser superados.
Atenção, homens trabalhando!
De acordo com dados fornecidos pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Confecções e Bordados de Ibitinga e Região, quase não havia homens trabalhando com bordado no começo desta década. A mão-de-obra utilizada pelas indústrias era quase que exclusivamente formada por mulheres. Com o crescimento das vendas e, como conseqüência, também da produção, o trabalho deixou de ser exercido somente por elas e passou a ser dividido cada vez mais com os homens.
José Benedito Custódio Souza, 30 anos, por exemplo, trabalha há um ano como dobrador de tecidos. Antes de conseguir o emprego, ele trabalhava na lavoura, debaixo de sol, chuva, frio e calor. Hoje, diz estar mais satisfeito com seu serviço.
Outra função que os homens estão dominando
é a de cortador de tecidos. Maurício Donizete Lopes, 35 anos, trabalha com o manuseio da tesoura, há seis anos. Antes disso, era segurança mas foi dispensado pela empresa quando esta resolveu cortar despesas.
Rubens de Oliveira, 52 anos, trabalha há apenas três meses em uma fábrica, mas é costureiro desde 1992, quando passou a trabalhar em casa. Luiz Tassi Neto, 26 anos, trabalha em uma das poucas funções que ainda são dominadas pelas mulheres: overloquista. Depois de ser motorista e cozinheiro, Luiz agora trabalha com bordado porque, segundo ele, "dá mais dinheiro" e, além disso, torna-se "mais fácil conseguir emprego" na cidade. Esse foi o mesmo argumento usado por José Aparecido Zanarde, 27 anos, também overloquista. Aparecido Donizete Bandeira, 36 anos, que trabalha no ramo desde a adolescência, vai além e garante que trabalhar com bordado é o melhor serviço que existe em Ibitinga.