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Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 4 min

Contra todos os muros

Texto: Fabiano Alcantara

Evenenando a máquina do mercado fonográfico mais uma vez, a banda Mundo Livre S/A mostra amanhã em Bauru o show de seu novo álbum, "Por Pouco"

Pilar da revolução estética do Manguebit no começo dos anos 90, o Mundo Livre S/A volta destilando veneno em seu mais novo disco, "Por Pouco". Ao mesmo tempo, traz músicas descontraídas como "Mexe, Mexe", de Jorge Benjor, "Minha Galera", de Manu Chao e "Melô das Musas", pout-pourri de duas canções do primeiro disco, o clássico "Samba Esquema Noise".

Para o ex-jornalista e vocalista da banda, Fred Zero Quatro, o grupo não fez concessões à gravadora Abril Music para conseguir manter seu perfil de crítica ao capitalismo selvagem. Zero Quatro atribui à própria banda uma vontade de mostrar, pela primeira vez, "mais o lado A que o lado B".

Leia a seguir, a entrevista que o líder da Mundo Livre S/A concedeu ao Jornal da Cidade por telefone, de Recife.

JC Cultura - No disco "Carnaval na Obra" (98) vocês declararam guerra aos armoriais (acadêmicos que estudam o folclore pernambucano), principalmente o Ariano Suassuna. Ouvindo o novo disco, no entanto, percebe-se uma aproximação com o folclore, com a participação de grupos como Mestre Ambrósio e Comadre Fulôzinha. O que aconteceu?

Fred Zero Quatro - Foi até engraçado porque na hora que o pessoal do Mestre Ambrósio chegou no estúdio para gravar eles disseram: "pô, a gente achava que só ia ser convidado lá para o décimo disco".

Nós sempre consideramos determinado tipo de conservadorismo cultural uma coisa opressiva em relação ao novo. Mesmo assim, eu nunca tive nenhum preconceito.

O Mestre Ambrósio surgiu dentro de um contexto, sendo meio apadrinhados pelo Armorial e tal, mas são caras cada vez mais antenados com outras coisas. Eles fazem turnê no mundo todo e tem um tipo de abordagem da cultura tradicional que não

é purista. Em "Loirinha Americana"(faixa de "Por Pouco") eles mandam uma zabumba que é um jungle.

JC Cultura - Você acha que ao dosar o folclore e as tendências mundiais uma forma híbrida e brasileira de música pode surgir?

Zero Quatro - Desde o início. Chico (Science), por exemplo, já incorporava ciranda, maracatu... buscando redimensionar a cultura tradicional, conectando a cultura popular a um universo de circulação de informação pop.

JC Cultura - Por que vocês escolheram o muro americano

(que separa o México dos Estados Unidos) para a capa do disco?

Zero Quatro - Desde o primeiro disco nós colocamos a coisa do capitalismo selvagem. Mas nunca essa necessidade de abordar a exclusão foi tão urgente. Esse muro da capa não é só um muro americano. Ele tenta simbolizar a exclusão em sentido mais amplo. A exclusão que essa globalização está promovendo ao concentrar a riqueza, a renda e até mesmo a difusão da cultura. Por exemplo, qual é a porcentagem da população brasileira que tem acesso à Internet?

JC Cultura - Apesar dos temas políticos, algumas faixas do disco são mais alegres e até fáceis.

É uma abertura?

Zero Quatro - Cada disco da gente foi uma parceria, como todo disco é uma parceria. E cada parceria proporciona um produto com um perfil coerente com aquela situação. O primeiro saiu pela Banguela, que era mais underground, e o segundo pela Excelente.

Nós somos banda de periferia e tivemos que fazer parcerias ao longo da carreira. Eu tenho plena consciência que tivemos mais autonomia de trabalho nesse disco que no primeiro.

A gente ficou marcado como uma banda mais lado B que lado A, não por uma coisa mais deliberada, mas por contingências das parcerias que a gente fez. Nesse disco, a gente optou por fazer um disco em que pela primeira vez a gente ia mostrar mais o lado A que o lado B. Mas isso não implica que você vai abrir mão da sua linguagem.

JC Cultura - Vocês acreditam na indústria cultural ou querem ser o veneno na máquina?

Zero Quatro - Este disco para mim é o mais punk da gente. Você faz uma parceria com o segundo maior grupo de comunicação do País, que tem um alcance monstruoso na sociedade e ainda assim consegue colocar o muro americano na capa. É uma questão de estratégia. O mínimo de contra-informação que eu consiga injetar, eu me sinto envenenando os canais oficiais.

Ao mesmo tempo em que a gente se considera dentro de uma célula política, disseminando certas idéias, nós também temos a consciência que estamos trabalhando no ramo da diversão, no entretenimento. É como Chico dizia, "diversão levada a sério".

Serviço

Mundo Livre S/A se apresenta amanhã, 23 horas, no "Arrasta-Pé Universitário", no Clube das Nações, rua Paes Leme, quadra 8. Após o show, forró com o Trio Sabiá. Ingressos: R$ 7,00 (homem) e R$ 5,00 (mulher). Realização: Cooperativa Brasil e Kaos Eventos. Informações: 227-9695.

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