Sem-terra não querem confronto
Texto: Adilson Camargo
Acampados desde o dia 16 de abril, integrantes do MST, em Gália, dizem que não querem confronto com a polícia
Os sem-terra acampados na fazenda Lutétia, em Gália, disseram que estão esperando uma notificação por escrito determinando a desocupação da área ocupada. Segundo eles, a ordem foi dada apenas verbalmente e, por isso, não teria validade. O oficial de justiça responsável pela notificação dos sem-terra, José Garcia, garante que eles foram informados da decisão do juiz, mas, segundo o oficial, os acampados disseram que não iriam sair.
No entanto, essa resistência é desmentida pelo líder dos acampados, Odair Lopes de Oliveira. "Nós não vamos resistir à força policial. Queremos uma negociação pacífica", afirmou Odair. De acordo com ele, a fazenda ocupada é "totalmente improdutiva". "Quando chegamos, o terreno estava ocupado pelo mato, e nós viemos para plantar."
A liminar pedindo a reintegração de posse foi expedida pelo juiz Jaime Garcia dos Santos Júnior, da Vara Distrital de Gália, no dia 17. A notificação, segundo o oficial de justiça, foi feita no dia seguinte. "Como houve resistência, foi pedido um reforço policial", disse o oficial. Agora, o juiz deverá analisar a situação e decidir quantos policiais serão precisos para cumprir o mandado de reintegração de posse. Além disso, o requerente, nesse caso os proprietários da fazenda, devem providenciar meios para a remoção dos acampados.
Os integrantes do acampamento pertencem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), conhecido em todo o Brasil e também no exterior por suas reivindicações, mas principalmente por algumas atitudes radicais tomadas por uma parte do movimento, como, por exemplo, enfrentar soldados da Policia Militar armados. Atitudes que o líder Odair garante que não fazem parte do modo de agir das 75 famílias acampadas em Gália.
"A gente fica até assustado quando algumas pessoas dizem que iremos resistir. Isso não é verdade."
De acordo com informações da assessoria de imprensa do Incra, em São Paulo, uma mediadora de conflitos está chegando à região para tentar negociar com as partes envolvidas. Essa visita é considerada oportuna pelo advogado dos proprietários da fazenda, Marino Morgato. Ele acredita que essa representante do Incra pode evitar eventuais conflitos.
"Se houver entendimento entre as partes é melhor, porém a ordem judicial tem de ser cumprida", disse o advogado. Os proprietários, Luiz Carlos Volponi e a esposa
Élcia Ferreira Volponi, disseram que estão aguardando as providências judiciais e esperam que nada de grave aconteça entre policiais e sem-terra.
A fazenda Lutétia foi invadida pelos integrantes do MST no dia 16 de abril. Ela fica a uma distância aproximada de seis quilômetros de Gália e, segundo seus proprietários, já foi uma grande produtora de café. Hoje, está improdutiva e em processo de litígio com a Nossa Caixa Nosso Banco por causa de dívidas não pagas.
Em Pederneiras, horto florestal continua ocupado
Outro acampamento de sem-terra que continua sem solução
é o do horto florestal de Pederneiras, onde cem famílias aproximadamente estão acampadas desde o dia 15 de julho.
De acordo com a Polícia Militar da cidade, ainda não foi dada ordem para a retirada das famílias. O cumprimento da liminar de reintegração de posse foi suspenso, de acordo com a Procuradoria do Estado, até que seja providenciado transporte para remoção de todas as famílias.
Ao contrário dos sem-terra acampados na fazenda Lutétia, em Gália, os de Pederneiras não pertencem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Eles dizem fazer parte de um movimento paralelo, o "Agricultura Familiar", que existe há 16 anos aproximadamente, segundo informações fornecidas por líderes do acampamento.
Representantes do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) estiveram no local, no começo do mês, para fazer um relatório de toda a situação. Esse relatório foi encaminhado ao governador Mário Covas, mas até agora não houve resposta.