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Gêmeos

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 8 min

Gêmeos: idênticos na aparência e na personalidade

Texto: Fabiana Teófilo

Principalmente os univitelinos carregam consigo, além da igualdade dos genes para a formação física, também a dos que interferem na personalidade

Quem tem gêmeos faz. Quem não tem faria se tivesse. Na hora de vestir as crianças, os pais, normalmente, colocam as mesmas roupas mudando apenas a cor. Os cortes de cabelo também são os mesmos e quanto mais parecido melhor. Mas, os protagonistas de tanta semelhança podem sofrer com esse comportamento. A atitude dos pais pode causar problemas estressantes como a insegurança e, ainda, causar certa rivalidade entre os irmãos. Tudo isso porque, além da aparência física, a personalidade também tende a ser parecida.

No Brasil, há poucos estudos sobre o comportamento dos gêmeos e como ele difere das demais crianças. Sabe-se que gêmeos idênticos tendem a ter seus primeiros relacionamentos amorosos na mesma época, se casam mais ou menos juntos e os filhos nascem quase ao mesmo tempo.

De acordo com o médico geneticista, Esiquiel de Miranda, comportamentos diversos, como fumar, ter insônia, divórcio, escolha da carreira, hobbies, consumo de café, têm mais chances de coincidir entre gêmeos idênticos do que entre gêmeos fraternos, uma descoberta que sugere que esses traços talvez sejam mais influenciados pelos genes do que se podia imaginar.

Os gêmeos mais freqüentes são os fraternos, heterozigóticos ou não idênticos, chamados também falsos gêmeos. Nesses, a fecundação ocorre simultaneamente em dois óvulos por dois espermatozóides. Eles podem ser do mesmo sexo ou não.

Os gêmeos verdadeiros, idênticos ou monozigóticos, resultam da fecundação normal de um único

óvulo por um espermatozóide, porém o ovo assim fecundado sofre uma clivagem em dois embriões distintos. Os gêmeos monozigóticos são duas cópias idênticas de um mesmo indivíduo e, portanto, são sempre do mesmo sexo.

Ana Clara e Ana Carolina Martins Ribeiro, 17 anos, gêmeas univitelinas, se dizem idênticas em tudo. "Somos iguais, pensamos igual e queremos sempre as mesmas coisas." Elas contaram que gostam do mesmo tipo de comida, mesmo tipo de roupa e querem seguir carreira na mesma profissão, no final do ano vão prestar vestibular para Biologia. "Na escola, sempre tiramos a mesma nota e quando vamos conferir os resultados, percebemos que os erros são idênticos", disseram.

Ana Clara e Ana Carolina também têm a sensibilidade para sentir as mesmas coisas. "Às vezes eu penso em fazer alguma coisa, e a Clara já está fazendo", contou Carolina.

Elas não gostam que as pessoas as tratem como se fossem uma. "Na escola, os professores falam que podemos fazer só um trabalho, as pessoas têm mania de lidar com a gente como se fôssemos uma e isso é ruim", afirmaram.

Carolina contou que o pai delas também se confunde. "Ele,

às vezes, fala duas vezes comigo achando que falou comigo e depois com a Clara", riu Carolina.

"Não gosto também quando as pessoas brincam do jogo dos sete erros com a gente", comentou Clara.

As duas disseram que gostariam de ter filhos gêmeos e até trigêmeos e, se tivessem, vestiriam os dois iguais. A mãe delas sempre as vestiu com a mesma roupa e até hoje elas não se importam com isso e, de vez em quando, se vestem igual.

As duas são muito unidas e amigas. "Às vezes discutimos, mas nada que seja diferente de outros irmãos e nunca ficamos sem nos falar", disseram.

Em relação a doenças, as duas sempre sentem as mesmas dores e nos mesmos horários. "Realmente somos idênticas", finalizam.

A ciência é pródiga em estudos sobre a influência genética na formação da personalidade dos gêmeos. Tanto empenho se justifica porque os gêmeos, quando univitelinos, são seres absolutamente iguais e, com base neles, consegue-se investigar o papel da herança biológica na vida de todos, inclusive na dos não gêmeos. Graças a esses trabalhos, sabe-se que os pais não passam aos filhos apenas a cor dos olhos ou a propensão para essa ou aquela doença, mas também uma série de características associadas ao temperamento.

Maioria são heterozigóticos

De acordo com Miranda, a crescente procura por clínicas especializadas em tratamento de inseminação artificial e fertilização in vitro dobrou a frequência de nascimento de gêmeos fraternos. A média de um caso a cada 80 partos, aumentou, nos últimos anos, para um caso a cada 40. "Entre as mulheres que se submetem a algum tipo de tratamento, mais de 20% dão à luz mais de uma criança", disse.

As gestações heterozigóticas representam 74,6% do total das gestações gemelares e as monozigóticas 25,4%. Os recém-nascidos triplos, quádruplos, quíntuplos e sêxtuplos são raros, mas sua ocorrência tem, contudo, aumentado devido ao tratamento da esterilidade feminina por anovulação. Os nascimentos múltiplos podem ser mono ou polizigóticos ou uma combinação das duas formas de gemelaridade.

Maria Helena e Maria Elisa Patrício, 45 anos, são gêmeas heterozigóticas e afirmam que suas vidas são marcadas por algumas coincidências, mas também são bem diferentes quando se trata de personalidade. Helena engravidou ainda solteira e foi Elisa quem a auxiliou nesse período sem saber que também já esperava um bebê. Os dois meninos nasceram com apenas nove meses de diferença.

"Esse é o fato que mais coincidiu entre nós duas", contou Helena. Ela disse também, que quando crianças, as duas sempre ficavam doentes na mesma época e tudo o que uma sentia a outra também sentia. Mas, por outro lado, afirmam que são bastante diferentes na personalidade.

"Nós pensamos de maneiras distintas", esclareceu Helena. As duas brigavam muito quando adolescentes e usavam o mesmo tipo de roupa só que Helena preferia a cor rosa e Elisa a azul. "Nossas brigas geralmente aconteciam por causa de roupa, mas agora já não brigamos muito", explicou Helena.

Elisa contou que "detestava" ter que usar as mesmas roupas que Helena. "Para os nossos pais era orgulho mostrar as filhas gêmeas e, por isso, nos vestiam igual e quanto mais parecida ficávamos, melhor era, mas eu nunca gostei disso", explicou. Ela disse, ainda, que consegue sentir quando Helena não está bem, mesmo estando longe. "Nós sempre nos telefonamos quando sentimos que algo não está bem", afirmou.

Amigos ou rivais?

Alguns estudiosos do assunto afirmam que o começo de vida dividido apertadamente durante nove meses no útero pode ter consequências sobre a personalidade dos gêmeos.

Um dos únicos estudos sobre a relação entre gêmeos foi feito pela neuropsiquiatra italiana Alessandra Piontelli. Ela estudou quatro pares de gêmeos. Durante a gravidez, a médica fazia de quatro a cinco observações de uma hora dos bebês dentro da barriga das mães, auxiliada por aparelhos de ultra-som. Depois, fez visitas semanais

às crianças até os 4 anos de vida. As irmãs Marisa e Beatriz se estapeavam no útero materno. Um radiologista narrou o que via no vídeo: "...o da direita reagiu. Este é o punho do da esquerda. Eles estão brigando, se esmurrando literalmente, vejam. A mão do da esquerda, agora a mão do da direita..., murros..., socos..., suas mãos estão muito próximas, é um soco atrás de outro. Incrível."

Na hora do parto, a disputa foi tanta que o obstetra teve que optar pela cesariana para salvar a vida de Beatriz. As irmãs continuaram brigando e se odiando pelo menos até os 4 anos. Os gêmeos Alice e Luca agiam de forma oposta, estavam sempre se acariciando, o que lhes valeu o apelido de "os gêmeos carinhosos" dado pela equipe médica que os assistia. A brincadeira preferida de Alice e Luca, quando completaram 1 ano, era cada um ficar de um lado da cortina da sala mexendo na cabeça do outro, exatamente como faziam no útero separados pelas membranas dos sacos amnióticos.

Fonte: www.gemelo.com.mx

"Não agüento mais ouvir"

Os gêmeos univitelinos, apesar de não dizerem, se sentem incomodados com alguns comentários que as pessoas normalmente fazem como piadas ou brincadeiras. Veja alguns exemplos:

"Cara de um, focinho de outro"

"Deixa eu ver se acho uma diferença"

"Quem é a gema e quem é a clara?"

"Você é você ou sua irmã?"

"Seus pais confundem?"

"Você é o xerox ou o original?"

"Tanto faz, são iguais mesmo"

"Vocês já trocaram de namorado (a)?"

"Quem nasceu primeiro?"

"Você tem o nariz um pouco maior"

Município no RS tem 18% da população de gêmeos

O pequeno povoado Linha São Pedro, que faz parte da área rural do município de Cândido Godói, no Rio Grande do Sul (RS) tem 18% da população total formada por gêmeos, ou seja, dos 375 moradores do local, 68 são gêmeos.

Levando-se em conta que a incidência normal de gêmeos em Porto Alegre, São Paulo ou Tóquio é de 1,25%, chega-se à conclusão de que em Linha São Pedro nascem, proporcionalmente, 14 vezes mais gêmeos que no resto do mundo. Dos últimos 70 bebês nascidos no povoado, 24 são gêmeos. No resto do município, a quantidade também é superior à considerada normal. Um levantamento extra-oficial registra mais de 100 casos, 3% da população.

A prefeitura de Cândido Godói realizou, no ano passado, a Primeira Festa Municipal dos Gêmeos. Mais de 50 pares com roupas iguais compareceram ao churrasco e à missa que foi celebrada por dois padres idênticos.

A cidade está atraindo cada vez mais cientistas que realizam estudos sobre o fenômeno. Comunidades pequenas que têm muitos casamentos entre os próprios membros, como em Linha São Pedro, são ótimas referências de estudo para a biologia. As uniões consangüíneas mantêm o repertório genético de cada membro da comunidade parecido com o dos outros. Como há pouca diversidade, fica mais fácil localizar os genes responsáveis por características comuns a várias pessoas. O ideal

é procurar diferenças entre o DNA desses indivíduos e o dos outros moradores. Esses estudos estão sendo realizados, mas até agora não se sabe nada sobre a pesquisa. Acredita-se, portanto que ainda não tenha sido encontrado o gene comum.

Fonte:www.uol/buscador/incidgemeos.com.br

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