Arte de fazer arte
Texto: Gustavo Cândido
Muitas vezes, reconstituir uma obra requer um trabalho muito maior do que o do artista que a criou. Fazer a reprodução de um quadro é o mesmo caso. A bauruense Maria Cabreira é uma das poucas restauradoras de obras de arte e antigüidades da cidade e região. Além disso, ela reproduz quadros de pintores famosos com grande perfeição. O talento para a pintura e as habilidades manuais corre no sangue da família. A mãe dela era uma boa desenhista ("muito melhor do que eu", ela confessa) e o irmão, escultor. A artista, que atualmente restaura peças do Instituto Lauro de Souza Lima, falou para o JC sobre o seu raro trabalho e o seu envolvimento com as artes.
Jornal da Cidade - Quando a senhora começou a pintar?
Maria Cabreira - Comecei há 11 anos, mas as restaurações eu faço há 5 anos. Comecei a estudar com o Vitório Putin porque sempre me interessei por pintura, mas nunca tinha tido a oportunidade de estudar antes. Depois fiz cursos em ateliês, não tenho formação acadêmica. A restauração veio paralelamente ao curso de pintura.
JC - Como?
Maria - Comecei a fazer restaurações em móveis, objetos antigos e obras de arte e para isso fiz cursos em Curitiba, São Paulo, para aprender as técnicas certas e o tipo de material a ser usado, porque em restauração a gente tem de respeitar o material que foi usado na confecção da peça e utilizar o mesmo para restaurá-la para não interferir no resultado final da peça. Por exemplo, uma santa que eu estou restaurando, tive que fazer um estudo de tinta usada para fazer mais ou menos igual ao original.
JC - Quando a senhora pega uma peça, restaura todos os componentes dela, mesmo os de material diferente?
Maria - Não, nem sempre. Eu não faço a parte de marcenaria, por exemplo, quando vou restaurar um móvel. Tenho um suporte de um marceneiro e de um tapeceiro.
JC - O trabalho é sempre muito demorado?
Maria - Na realidade, o trabalho da restauração me toma mais tempo do que o trabalho de pintura.
JC - É mais difícil restaurar do que criar uma obra nova?
Maria - Não é sempre mais difícil, mas você tem o trabalho de estar pegando a peça, restaurando e devolvendo para o cliente do jeito que ela era antes, ou seja, não pode criar em cima delas. Ainda em certas imagens é possível interferir no trabalho de pintura de planejamento, mesmo assim, sempre respeitando as cores originais.
JC - A senhora restaura tudo nas obras?
Maria - A única coisa que eu ainda não faço
é restaurar a tela em si. Se um quadro vem com a tela rasgada, por exemplo, eu não restauro a tela porque não tenho técnica para isso. Mas restauro tudo, até as molduras dos quadros antigos. Esse tipo de restauração só eu faço em Bauru.
JC - O que é mais difícil de restaurar, uma estátua ou uma pintura?
Maria - Não é uma questão de dificuldade, mas no caso da estátua eu posso garantir que o serviço vai ficar idêntico ao original por um tempo ilimitado. Na questão da pintura, dependendo da época em que a tela foi pintada e dependendo do material que foi usado, a tinta que eu usar pode interferir quimicamente com o que já estava na tela. Por isso ainda estou estudando a técnica de restauração de telas. Geralmente, dou uns retoques, mas ainda não restauro por completo. A questão da dificuldade às vezes
é grande com as imagens. Algumas vêm somente para serem pintadas, outras vêm faltando pedaços e eu tenho que refazer a peça, tendo um trabalho maior do que o que levou para ela ser feita porque, geralmente, as imagens são feitas em moldes. Se elas vêm faltando um pedaço eu tenho de esculpir essa parte e para isso preciso de noções anatomia, entre outras coisas.
JC - O que aparece mais para restaurar?
Maria - Depende, muita gente ainda não sabe ao certo o que é uma restauração e tem também a questão do custo. Restaurar requer materiais específicos, caros. Eu já trabalhei com peças simples e com peças de engenharia, que chegaram aqui porque o dono as queria guardar de lembrança. Tem também muita coisa que nem dá conserto.
JC - As peças que chegam geralmente são antigas ou são objetos que se quebraram por descuido?
Maria - Tem de tudo, às vezes são peças quebradas, outras vezes são objetos de valor sentimental, que não valem nada, mas a pessoa quer recuperar e muitas vezes quando a pessoa fica sabendo do valor da restauração acaba até desistindo de recuperar uma peça, mesmo que seja uma relíquia de família. Acho que falta um pouco de conscientização de estar trabalhando com a restauração e com a própria preservação das obras. Um quadro pode ser limpo sempre, passado um novo verniz para que dure mais, por exemplo.
JC - E as reproduções de quadros?
Maria - Eu as faço para a venda, Se me trouxerem um quadro ou uma foto eu faço reproduções.
JC - E o site na Internet?
Maria - Está há uma semana no ar, ele fala sobre o meu trabalho e tem fotos. Na parte de prestação de serviços nessa área acho que é o primeiro site do Interior do Estado.