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Cardiopatas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Cardiopatas exigem tratamento especial

Texto: Sabrina Magalhães

Toda pessoa portadora de problemas cardíacos deve informar isso ao seu dentista. Cabe ao profissional tomar as medidas adequadas para evitar que ocorra uma bacteriemia. É que, segundo o cirurgião-dentista Renato Baldrighi, as bactérias podem se instalar mais facilmente em áreas onde há alguma dificuldade para a passagem do sangue, o que acontece em pacientes que têm válvulas artificiais, prolapsos, alterações de aorta ou qualquer outra cardiopatia adquirida ou congênita.

Por isso, se o dentista vai fazer uma intervenção num cardiopata em que prevê-se sangramento, o paciente tem que ser previamente medicado. Geralmente ele é orientado a procurar seu cardiologista, que prescreverá um antibiótico preventivo.

O contrário também deve ser observado, segundo o cardiologista Max Grinberg, entrevistado pelo Jornal do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (junho/2000): "O Instituto do Coração possui um serviço de odontologia e todos os pacientes, antes de cirurgias de válvulas ou doenças congênitas, fazem uma completa avaliação dentária para eliminar focos de infecção. Esse trabalho visa a prevenção da endocardite no pós-operatório".

Ele comenta que, para se ter uma idéia da gravidade da situação, entre os pacientes que freqüentam os ambulatórios de cardiopatias valvares do Incor, apenas 10% podem ser considerados com boa saúde bucal. Ou seja, 90% dos pacientes apresentam problemas bucais de alguma natureza.

"Em geral, são pessoas que não têm cuidado odontológico, não costumam ir ao dentista com freqüência ou não realizam higiene adequadamente."

Comunicação

Na opinião de Grinberg, é extremamente importante a comunicação entre o dentista e o cardiologista no caso de pacientes cardiopatas. Além de trocar informações para melhor atender o indivíduo, eles precisam orientá-lo muito bem, no intuito de evitar as complicações.

Nesse sentido, o cardiologista afirma que o principal cuidado deve ser com o paciente que tem sopro no coração. Segundo ele, ao identificar um portador desta anomalia congênita, o dentista deve fazer a prevenção primária, ou seja, orientá-lo detalhadamente sobre o jeito certo de promover a escovação e sobre o uso regular do fio dental.

"(O dentista) também deve tomar cuidados adicionais, porque é fundamental que a manipulação seja feita com bastante assepsia. Antes de iniciar o tratamento, deve-se administrar doses preventivas de antibiótico. O mais importante

é a comunicação entre o dentista e o cardiologista."

Grinberg ressalta que esta integração entre os dois profissionais possibilita uma visão holística (integral) da saúde. Ele lembra que, afinal, a saúde bucal faz parte de um quadro geral do organismo e que muitas doenças têm expressiva repercussão na gengiva e nos dentes.

Alarme

O comentário de Grinberg se justifica no fato de que, além de darem origem a outras patologias, as infecções odontológicas podem ser um sintoma, um alarme da existência de outras doenças, como destaca o cirurgião-dentista Renato Baldrighi: "Até agora, falamos do caminho que leva doença da boca para o corpo. Mas do corpo para a boca também existem coisas que podem potencializar inflamações periodontais".

Um exemplo é a carência de vitamina C, uma doença chamada escorbuto, que facilita o aparecimento de inflamações na gengiva. Doenças que debilitam o sistema imunológico, como a aids e as disfunções de leucócitos

(células de defesa), também predispõem o periodonto a sofrer mais inflamações e sangramentos.

Outra alteração que pode ter repercussões no periodonto é a de hormônios. Baldrighi comenta que mulheres grávidas ou jovens na puberdade tendem a apresentar um aumento considerável do fluxo sangüíneo da estrutura gengival, resultando em sangramentos. E os pacientes diabéticos, por sofrerem várias alterações metabólicas, também tendem a ter mais episódios de inflamação periodontal.

Grinberg completa, lembrando que são muitos os casos de reação medicamentosa em que a boca funciona como alarme. Ele afirma que determinados antibióticos, por exemplo, descolorem os dentes. Que periodontites podem sugerir diabetes e vários outros tipos de afecções, como a leucemia.

"O dentista que tem esta visão mais genérica pode, inclusive, diagnosticar riscos ou doença já instaladas que, muitas vezes, não são percebidas pelo paciente. (...) Os dentistas precisam fazer estes diagnósticos e orientar o paciente a procurar o médico. Ele não pode ser, simplesmente, um técnico do dente", conclui o cardiologista.

Tabagismo

"Outra coisa que vem sendo muito estudada é a influência do fumo no aparecimento das alterações na estrutura periodontal e mesmo no mecanismo de defesa do organismo", ressalta Baldrighi. Ele lembra que as substâncias químicas do cigarro agridem a mucosa da boca, debilitando-a e criando um caminho para o aparecimento das infecções. E ao provocar uma constrição dos vasos sangüíneos, o fumo dificulta o deslocamento das células de defesa.

"Existe uma periodontite chamada refratária, que é de difícil cura e tem vários períodos de incidência na vida da pessoa. Sabe-se que ela é muito mais freqüente no fumante que no não fumante. Então, ao criar condições para que o periodonto tenha problemas, abre-se caminho para que esses problemas afetem todo o organismo."

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