Endocardites: 40% têm origem bucal
Texto: Sabrina Magalhães
"O Incor (Instituto do Coração), que é um centro de referência na doença, registra a cada mês entre dez e doze pacientes com endocardite. Cerca de 40% destes casos têm origem bucal", informa o cardiologista Max Grinberg, em entrevista ao Jornal do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp, junho/2000). Segundo ele, a patologia pode ser desencadeada tanto por infecções espontâneas resultantes de dentes ou gengivas em mau estado, quanto pela manipulação da área infectada para tratamento odontológico.
A endocardite é causada por bactérias que, ao circular pela corrente sangüínea, alojam-se nas válvulas do coração, dando origem a uma infecção considerada gravíssima pelos médicos. A doença pode provocar lesões nestas válvulas e compro-meter seu funcionamento. Desta forma, o fornecimento do sangue para algumas áreas do corpo pode ser interrompido, resultando em derrames.
De acordo com o Crosp, estudos demonstram que cerca de 20% dos pacientes morrem na fase aguda da doença. E outra parcela bastante significativa deles pode ficar com seqüelas graves, como a insuficiência cardíaca - que vai exigir tratamento permanente, com restrição para várias atividades habituais do indivíduo, prejudicando sua qualidade de vida.
Infecção
Grinberg explica que nesses 40% dos casos em que a endocardite se desenvolve a partir de infecções periodontais, o grande vilão é a bactéria Streptococcus viridans, que habita normalmente a boca. Via de regra, ela não causa qualquer dano. Mas, ao entrar na circulação, vai parar no coração, desencadeando a doença.
Segundo o cirurgião-dentista Renato Baldrighi, a boca abriga centenas de diferentes tipos de bactérias. Quando o indivíduo não cuida adequadamente da higiene bucal, essas bactérias invadem a área subgengival e instalam-se ao redor da raiz dos dentes, colonizando-os. É a chamada placa bacteriana. Ao perceber a colonização destas bactérias, o organismo ativa seu mecanismo de defesa, produzindo os anticorpos.
Então, ele cria vasos sangüíneos naquele local, para aumentar o fluxo sangüíneo na área e mandar os elementos de defesa, já que é o sangue que transporta esses elementos. Esse aumento dos vasos vai predispor a gengiva a sangramentos, sejam eles espontâneos ou provocados (pelo uso do fio dental, pelas cerdas da escova de dentes, pelo palito de dentes, pelo próprio tratamento odontológico ou mesmo pela mastigação).
O dentista explica que o sangramento em si, já não deve acontecer, pois ele é um sinal clínico de que existe uma inflamação provocada por infecção bacteriana. E isso já exigiria um tratamento. De qualquer maneira, havendo o sangramento, a bactéria Streptococcus viridans consegue entrar na corrente sangüínea e percorrer todo o organismo, indo alojar-se na válvula cardíaca. Este processo chama-se bacteriemia e vai dar origem à endocardite. Vale ressaltar que a bacteriemia pode ocorrer com outras bactérias, que dariam origem a outras doenças, em outros órgãos.
Além disso, os anticorpos produzidos para combater essas bactérias, que seriam inofensivos na boca, podem reconhecer outros tecidos do próprio organismo (paredes cardíacas, rins, fígado, pâncreas, etc.) como inimigos e combatê-los, causando lesões. São as chamadas doenças auto-imunes, em que o organismo agride a si mesmo.
Pesquisas
De acordo com Renato Baldrighi, vários estudos vêm sendo feitos ao longo dos anos para descobrir até que ponto as infecções periodontais estão associadas a outras doenças.
Uma das doenças estudadas é a arteriosclerose. Evidências epidemiológicas (número alto de casos em que as características coincidem) indicam que pessoas que têm infecções bucais freqüentes têm 25% mais chances de desenvolver a doença. A arteriosclerose pode levar ao infarto, por exemplo.
Outros estudos indicam que as infecções odontológicas podem agravar um quadro de diabetes. "As avaliações apontam que portador de diabete insulino-dependente, quando tem saúde bucal precária, precisa de uma quantidade maior de insulina do que aquele que tem saúde bucal ótima", comenta Baldrighi. Ele ressalta que os estudiosos ainda não sabem porque isso acontece, mas sabem que acontece. Como sabem que o diabético está mais suscetível a apresentar infecções bucais que a pessoa saudável.
Também vem sendo estudada a hipótese de que alguns casos de pneumonia tenham sido causados por bactérias provenientes da cavidade bucal. A idéia é que estas bactérias estariam sendo aspiradas para o pulmão, provocando doenças.
Outra hipótese que vem sendo avaliada é da relação entre periodontite com a gravidez. Dados epidemiológicos sugerem que mulheres com saúde bucal precária tendem a ter bebês menores e com peso abaixo da média. Além disso, exames já identificaram a produção do hormônio prostaglandina em pacientes com periodontite. A prostaglandina tem papel fundamental no parto e poderia desencadear nascimentos prematuros.
Evidentemente que tais hipóteses ainda precisam ser muito bem avaliadas antes de serem anunciadas como verdade e isso, certamente, ainda exigirá anos de estudo. Mas, na teoria, pode-se afirmar que qualquer inflamação, em qualquer parte do organismo, debilita o corpo todo. Então, o ideal
é prevenir as doenças ou tratá-las o mais rápido possível.