Geral

Campanha

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 7 min

Prefeitáveis querem ocupar Parque Ferroviário de Bauru

Texto: Daniela Bochembuzo

A preservação do Parque Ferroviário de Bauru passa pela ocupação de seus imóveis, afirmam prefeitáveis. A opinião dos candidatos à Prefeitura está em consonância com a de especialistas em história, geografia, arquitetura e engenharia civil, ouvidos em outras ocasiões pelo Jornal da Cidade, os quais entendem que a única forma de conservar os prédios da antiga Estrada de Ferro Noroeste é fazer uso de suas instalações.

Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado

(Condephaat) no primeiro semestre de 2000, o Parque Ferroviário de Bauru é patrimônio do Estado de São Paulo. O processo de tombamento assegura a preservação do estilo arquitetônico do imóvel (reformas que os descaracterizem são proibidas) e a autorização da ocupação apenas se a função for compatível com a estrutura física do prédio.

Com 40 mil metros quadrados, a área tombada inclui a antiga Estrada de Ferro Noroeste (atual Museu Ferroviário), a Estação Central da Novoeste, as oficinas e a Vila dos Funcionários. Os edifícios foram erguidos entre os anos de 1905 e 1939 e abrigam estilos arquitetônicos diversos.

Os imóveis pertencem hoje à Rede Ferroviária Federal e à Anália F. F. Martins, liquidante do patrimônio. Nilson Costa (PPS) já tentou negociar a cessão ou venda simbólica do prédio da Estação da Noroeste, cujo valor foi fixado em R$ 3,86 milhões pela proprietária. A quantia foi considerada impraticável, impossibilitando o sonho do prefeito de transferir a sede da Administração Municipal para o local.

Diante disso e preocupado com a degradação do patrimônio, Nilson Costa determinou levantamento fotográfico dos estragos ocorridos até agora nos imóveis do Parque Ferroviário e tem enviado correspondências para sensibilizar funcionários e autoridades responsáveis sobre a depredação do local. "A Rede Ferroviária Federal e a Ferroban têm a obrigação legal de garantir a segurança e a preservação porque os imóveis foram tombados", salienta o candidato à reeleição.

Paralelo às negociações, que continuam, o prefeito Nilson Costa e a secretária municipal do Planejamento, Maria Helena Rigitano, estão enviando ofício ao presidente da Ferroban, João Gouveia Ferrão Neto, solicitando a transposição em nível nas ruas Rio Branco e Gustavo Maciel com o objetivo de ligar o centro comercial

à avenida Nuno de Assis.

Objetivo semelhante tem o candidato Pedro Tobias (PDT). Com base em estudos realizados pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), o prefeitável propõe a utilização racional de parte de área dos trilhos para garantir melhor fluxo ao sistema viário local.

"Com pouco mais de 70 metros de asfalto é possível fazer com que a rua Gustavo Maciel sirva como acesso à avenida Nuno de Assis. Esses novos acessos também darão visibilidade a prédios históricos de nossa cidade que estão escondidos e que a população pouco conhece", afirma Tobias, que acredita na viabilidade de aprovação do projeto junto ao Condephaat.

Em relação à ocupação dos imóveis, o pedetista tem três propostas: implantação de centro de incentivo à educação, serviço social, cultura e lazer; instalação do terminal urbano de integração; e utilização como sede do governo municipal, para economizar aluguéis e promover a revitalização do centro da cidade.

"Vamos lutar sim, junto aos donos da Novoeste, ao Ministério dos Transportes e até junto ao presidente da República, se for o caso, para que o uso dos imóveis, que hoje estão abandonados, seja cedido para a Administração Municipal", garante Tobias.

Para Tidei de Lima (PMDB), a transposição de trilhos e a transformação do local em terminal de integração e sede da Prefeitura promoverá a liquidação da história do Município. "Essas são soluções que demonstram falta de criatividade e total desinformação em relação ao papel da ferrovia na economia", afirma o candidato.

Tidei lembra que, durante a elaboração do projeto para a construção do viaduto, requisitou estudos sobre a região da ferrovia ao Ministério dos Transportes, o qual, segundo o candidato, teria informado que a transposição dos trilhos e transferência dos locais da estação de embarque e da malha de manobra custariam R$ 300 milhões ao Município. "Perto disso, o viaduto se mostrou uma opção barata e que garante a preservação da ferrovia, que faz parte da história da cidade", argumenta.

Em relação à antiga Estação Ferroviária, o peemedebista defende sua ocupação com oficinas culturais, a exemplo do que foi feito com a Estação Júlio Prestes, em São Paulo. Outra proposta é que o imóvel receba projetos de lazer e turismo e repartições públicas que não comprometem a estrutura física do prédio. "Desta forma, iremos revalorizar a estação sem comprometer o trânsito daquela área", justifica.

Tuga Angerami (PSB) concorda com a ocupação do prédio, mas de maneira racional e sob o controle do poder público municipal. O candidato, porém, é contrário a negociar com a liquidante da RFFSA, como vem ocorrendo, apesar de reconhecer que a Administração municipal atual teve algumas iniciativas em favor do setor.

"Para nós, o ideal é que a ocupação se dê em torno da própria atividade ferroviária, mas também é perfeitamente possível criar espaços culturais e educativos, a exemplo de alguns que já existiram no passado. O que não admitimos é ceder esse nosso patrimônio à especulação e à pressão imobiliárias. Tudo o que nós faremos, vale lembrar, respeitará as decisões tomadas pelas instâncias envolvidas na questão", sustenta o prefeitável.

Entre as instâncias, Tuga defende a linha de ações traçadas pelo movimento S.O.S. Ferrovia. A entidade é contra, por exemplo, à retirada dos trilhos e favorável

à utilização da malha para o turismo regional ou para a instalação de formas de transporte alternativo, como o metrô de superfície. A idéia do candidato

é trabalhar ainda em parceria com a Câmara Municipal, o Museu Ferroviário, o Sindicato dos Ferroviários e os conselhos de defesa do patrimônio e se engajar nos movimentos que questionam a privatização do setor.

Politicamente, a proposta do candidato do PSB é articular um movimento forte com os municípios da região cortados pela linha férrea, no intuito de resgatar a importância econômica da ferrovia. O prefeitável não vê o transporte ferroviário como coisa do passado. "O desenvolvimento da cidade, no futuro, passa incontestavelmente por ela", enfatiza.

Estela Almagro (PT) também considera impossível discutir a utilização do patrimônio ferroviário de Bauru sem falar em transporte urbano. "Em primeiro lugar, devemos pensar o transporte da cidade, notadamente o coletivo, levando em conta a utilização das linhas férreas que ocupam boa parte da área central. Nos países desenvolvidos, os trens são utilizados para transportar passageiros em grande quantidade", informa.

No Brasil, argumenta a petista, o lobby dos grandes produtores de borracha, álcool e gasolina impõe o modelo ferroviário de transporte, desprezando por completo o ferroviário e provocando o encarecimento do frete, da passagem e o entupindo as cidades com ônibus, além de centralizar as ações governamentais para o transporte individual e não coletivo.

"Nossa proposta se baseia no princípio de que o coletivo deve prevalecer sobre o individual. Por isso, estamos propondo criar os trens urbanos, que garantirão transporte mais barato e criarão condições para a ocupação do espaço ferroviário e sua utilização de forma racional. Desta maneira, daremos todas as condições para que esse patrimônio seja utilizado e preservado", acredita Estela.

Para Carlos Sandrin (PT do B), a ferrovia deixou de ser utilizada por incompetência administrativa. "É um transporte espetacular, que desbrenhou sertões e que garantiu muitos empregos, além de oferecer uma passagem mais barata que os demais meios de locomoção", cita.

O candidato do PT do B vê o parque ferroviário como o berço de Bauru e, em razão disso, defende a sua preservação. A conservação desse patrimônio, no entanto, não deve ser uma preocupação da Prefeitura. "O Município não tem que se meter nisso aí. Ele não é capaz de endireitar as ruas quanto mais de cuidar de uma área tão complexa. A Rede Ferroviária que coloque gente para cuidar disso aí", sugere.

Thomaz Zamonaro (PRN) não tem projetos específicos para a utilização do parque ferroviário. O candidato considera necessário, primeiro, fazer um estudo sobre a situação do patrimônio e lutar pela cessão dos imóveis ao Município. "Depois disso, podemos pensar em firmar parceria com a União e com o Estado para oferecer cursos profissionalizantes e o que mais for de melhor para a cidade. O que não é possível

é manter aqueles prédios fechados, abrigando marginais, e sendo depredados", diz.

Comentários

Comentários