Ansiedade: o primeiro passo para o pânico
Texto: Fabiana Teófilo
A ansiedade é um sentimento de apreensão desagradável, freqüentemente vago, acompanhado de sensações físicas como vazio no estômago, pressão no peito, palpitações, transpiração, dor de cabeça ou urgência repentina de evacuar ou urinar, dentre várias outras.
A ansiedade é um sinal de alerta, que adverte sobre perigos iminentes e capacita o indivíduo a tomar medidas para enfrentar ameaças. A ansiedade alerta o indivíduo para situações potencialmente danosas como de possível punição ou privação de necessidades particulares, de separação de entes queridos e ameaça à unidade ou integridade pessoais, etc. Dessa forma, ela estimula o organismo a tomar as medidas necessárias para impedir a ameaça ou pelo menos diminuir suas conseqüências.
Uma vez que em certas situações ameaçadoras
é claramente vantajoso ter ansiedade, pode-se falar distintamente de uma ansiedade normal e outra patológica. A ansiedade
é normal para o bebê que se sente ameaçado de ser separado de sua mãe. Para a criança que sente-se desprotegida e desamparada longe de seus pais. Para o adolescente no primeiro encontro com sua namorada. Para o adulto quando contempla a velhice e a morte, e para qualquer pessoa que enfrente uma doença. A tensão oriunda do estado de ansiedade pode gerar comportamento agressivo sem com isso se tratar de uma ansiedade patológica.
A ansiedade é um acompanhamento normal do crescimento, da mudança, de experiência de algo novo e nunca tentado e do encontro da nossa própria identidade e do significado da vida. A ansiedade patológica, por outro lado, caracteriza-se pela excessiva intensidade e prolongada duração proporcionalmente à situação precipitante. Ao invés de contribuir com o enfrentamento do objeto de origem da ansiedade, atrapalha, dificulta ou impossibilita a adaptação.
Substância reguladora
A serotonina 5-HT é uma substância importantíssima no estudo neuroquímico da ansiedade. Tanto o bloqueio de seus receptores, quanto o bloqueio da sua síntese, produzem efeitos ansiolíticos. Comprovou-se, também, que a 5-HT exerce um duplo papel na regulação da ansiedade. Ela exerce um papel ansiogênico na amídala e ansiolítico na matéria cinzenta periaquedutal dorsal ( MCPD ).
A amídala parece ter a função de avaliar o grau de ameaça para, em seguida, instruir estruturas executivas quanto ao tipo de reação de defesa a ser programado. A MCPD deve ser acionada somente em casos de perigo iminente. Assim sendo, faz sentido que os sistemas neuronais serotoninérgicos inibam a MCPD, enquanto facilitam o processamento de informações relativas à defesa na amídala. Desse ponto de vista o duplo papel da 5-HT pode ser considerado como tendo um valor adaptativo.
O efeito ansiolítico da ritanserina pode ser explicado pelo bloqueio dos receptores de 5-HT na amídala. Do mesmo modo, o efeito dos agentes anti-depressivos, assim como dos ansiolíticos tipo bupirona (que aliviam a ansiedade generalizada após o uso prolongado), se dá pela diminuição do número e/ou sensibilidade dos receptores 5-HT. O efeito ansiolítico comum a todos esses agentes seria, sobretudo, devido à redução da eficácia da via serotoninérgica que vai do núcleo dorsal da rafe até a amídala.
As reações de pânico se dão ao nível da MCPD, onde a 5-HT parece exercer um papel inibitório sobre os neurônios que comandam a reação de defesa. Assim sendo, a ritanserina não exerce efeito antipânico, pois seu efeito se dá em nível da amídala.
Há fortes indícios da participação da 5-HT no mecanismo de ação dos diversos medicamentos antidepressivos e ansiolíticos e, ainda, na patogênese de certos distúrbios de ansiedade e depressão. Supõe-se que as diferentes vias serotoninérgicas e seus vários subtipos de receptores participem de forma seletiva em cada modalidade de distúrbio emocional e na sua resposta farmacológica, o que explica, de certa forma, as peculiaridades das respostas terapêuticas encontradas nas clínicas.
A seretonina
Os neurônios seretonérgicos localizam-se na linha média do tronco cerebral, formando um agrupamento denominado núcleos rafe. Deles partem fibras em direção ao cérebro que inervam inúmeras estruturas.
A seretonina é formada e estocada em vesículas de terminais nervosos. Pode ser liberada em virtude de um impulso nervoso atuando pós-sinapticamente em diversos subtipos e receptores. Em nível pré-sináptico existem receptores seretonérgicos inibitórios de sua própria liberação.
O medo alimenta o medo
A ansiedade generalizada é um estado prolongado de ansiedade sem motivo justificável. Nesses casos, a ansiedade varia de intensidade de um dia para outro, de uma semana para outra, de um mês para outro, mas na totalização os níveis gerais de ansiedade estão acima da média para cada condição individual. É comum que os próprios pacientes tentem se autodiagnosticar, mas quase sempre erram. Nenhuma ansiedade não justificável
é normal, mas o não-reconhecimento de um motivo não significa que esse motivo escondido não cause ansiedade. Algumas pessoas preferem afirmar que estão doentes do que reconhecer que um determinado acontecimento está lhe causando ansiedade, outras preferem supervalorizar acontecimentos corriqueiros para se justificar e encobrir o real transtorno de ansiedade.
As pessoas que sofrem com esse problema estão freqüentemente temerosas do futuro, aguardam pelo pior a todo momento, qualquer pequeno atraso, um telefonema fora de hora, um telegrama são vistos como a notícia de uma tragédia ocorrida com uma pessoa querida. Além de preocuparem-se irrealisticamente com os outros, preocupam-se consigo também, acreditando que podem vir a sofrer de uma grave doença a qualquer momento. A diferença da ansiedade generalizada para a hipocondria
é que o hipocondríaco acredita já estar sofrendo de uma grave doença que os médicos desconhecem, enquanto para o ansioso isto é um fato que pode vir a acontecer, não tendo já se consumado. A apreensão irrealista
é o aspecto mental da ansiedade generalizada, o aspecto corporal manifesta-se pela tensão muscular, com dores de cabeça por causa da contração dos músculos da nuca, inquietação, dificuldade de relaxar ou de ficar parado.
Patologias da ansiedade
A ansiedade é um fenômeno normal e necessário da vida, que todos sentem ocasionalmente. Como sintoma, é comum nos estágios iniciais da esquizofrenia, quando o indivíduo está tendo sensações novas e estranhas, freqüentemente ocorre também nos transtornos do humor. Em outro grupo de distúrbios, entretanto, a ansiedade
é o sintoma principal. Os distúrbios de ansiedade afetam com dados conservadores aproximadamente 10% da população em geral (dados estatísticos da população americana), já se estima 25% em curva ascendente e podem se apresentar de várias formas.
O distúrbio da ansiedade generalizada caracteriza-se por inquietação, irritabilidade, tensão, sudorese, palpitação e vários outros sintomas associados
à ansiedade. A pessoa se torna apreensiva, impaciente e tem dificuldade para dormir. Para a ansiedade ser considerada um distúrbio, os sintomas devem ser persistentes, continuando por várias semanas.
Pessoas com o distúrbio do pânico sofrem de ataques de ansiedade espontâneos que acontecem de repente, sem causa aparente. Ficam extremamente amedrontadas e, freqüentemente, têm a sensação de que vão morrer. Apresentam palpitações, tonturas, dores no peito e uma sensação de perda de contato com a realidade, entre outros sintomas. Esse distúrbio pode durar algumas semanas ou meses, porém o mais comum é que volte a ocorrer com o passar do tempo. Apesar de a crise propriamente dita durar, geralmente, apenas alguns minutos, a antecipação da sensação de desamparo ou da perda de controle que acompanha o ataque de pânico pode deixar a pessoa com medo de ficar sozinha ou sair de casa.
As pessoas, cujos ataques freqüentes de pânico limitam cada vez mais suas atividades normais, são diagnosticadas como tendo agorafobia. Esta é a mais incapacidade de todas as fobias, as quais são também consideradas distúrbios de ansiedade. A pessoa com agorafobia usualmente evita situações nas quais seria difícil ou impossível escapar - multidões, túneis, grandes lojas, pontes, elevadores e transportes públicos. Algumas pessoas com agorafobia ficam tão amedrontadas que às vezes não saem de casa por anos.
Outros tipos de fobia são as simples, que se caracterizam por medo persistente e irracional de um objeto, atividade ou situação específicas, e a fobia social, medo irracional de sentir-se humilhado ou embaraçado em público.
O distúrbio obsessivo-compulsivo (DOC) é um distúrbio de ansiedade que envolve pensamentos e comportamentos repetidos, que são difíceis ou impossíveis de controlar. Os pensamentos intrusivos e obsessivos podem girar em torno do medo de causar mal a outros ou de ser vítima de algum mal. Em resposta a esses pensamentos obsessivos, os pacientes com DOC freqüentemente se sentem compelidos a executar certos rituais
(comportar-se de um modo específico repetidas vezes) para afugentar o mal temido, mesmo estando conscientes de que seu comportamento
é irracional.
Outro distúrbio de ansiedade é o distúrbio de estresse pós traumático, que é uma reação. Freqüentemente recorre (que ocorre repetidamente), a um evento psicologicamente traumatizante, fora da vivência humana habitual. Combates em guerras, bombardeios, violência sexual, catástrofes ou tortura são exemplos do tipo de experiência que pode produzir esse distúrbio.
Os sintomas incluem a lembrança do evento, ausência de resposta a estímulos provindos de outras pessoas, pouco interesse por atividades externas, sonolência excessiva, problemas de memória e perda de concentração.
Numa perspectiva médica a ansiedade se caracteriza por uma sensação de perigo iminente, sem que se possa identificar uma ameaça real, ou sem que essa pareça, aos demais, proporcional à intensidade da emoção. Assim definida, a ansiedade é um estado patológico: medo exagerado de causa indefinida. Parece existir um fator genético que influencia na desordem generalizada, determinando um nível maior de ansiedade basal.
Estresse
Pessoas que vivem durante um significativo espaço de tempo um estado patológico de ansiedade, podem vir a desenvolver uma patologia muito conhecida da atualidade, que é o "estresse".
Do ponto de vista científico, o "estresse" é caracterizado como um conjunto de alterações físicas e químicas do organismo, desencadeando pelo cérebro, para tornar o indivíduo mais apto a enfrentar uma situação nova, que exige adaptação. Essa situação pode ser de perigo ou raiva, mas também de alegria e felicidade.
Vista desse ângulo, a ocorrência do "estresse"
é até normal e saudável. Mas quando sua intensidade
é muito forte, ou seja, sua freqüência alta demais, o organismo não resiste, enfraquece-se e pode entrar em colapso. É o que costuma chamar de cronificação do "estresse".
Como reação de adaptação, o "estresse"
é um fenômeno ancestral, tendo sido fundamental à sobrevivência do homem pré-histórico.
Sempre que o homem primitivo se encontrava frente a um perigo, seu sistema límbico, ou seja a parte do cérebro que controla as emoções, desencadeava uma série de reações, preparando-o para uma de duas respostas igualmente desesperadas: lutar ou fugir. E assim é até hoje.
Na sociedade, onde estímulos, ao mesmo tempo que são reforçadores são punidores, o que acarreta o problema da ansiedade. As políticas neo-liberais que não dão garantia de futuro, geram estressores, nos indivíduos, ou seja, o indivíduo escolhe uma profissão (reforço), mas não tem perspectiva (punição).
Estímulos ambientais que indicam perigo ou ameaça desencadeiam uma série de reações, cognitivas, sensório perceptivas e neurovegetativas. A ansiedade tem um grande valor adaptativo já que confere ao indivíduo melhores condições para
preservação junto ao meio físico e social em que vive.
Contudo, a ansiedade pode se tornar desproporcional ao perigo real assumindo um caráter patológico prejudicando certos desempenhos que são requeridos no dia-a-dia, já que impossibilita um melhor uso da concentração e sangue frio, inibindo muitas vezes o processo de pensamento. Podendo mesmo, o indivíduo que dela sofre, tomar atitudes infantis.