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Machões

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O crepúsculo dos machões

Texto: Gustavo Cândido

Eles já estiveram com mais moral no passado. Hoje, a figura do machão já não impressiona mais, pelo contrário, até provoca uma certa aversão em pessoas de ambos os sexos, que, por dividirem tantas tarefas e responsabilidades no dia-a-dia, passaram a não aceitar mais a idéia de uma pessoa dominadora e possessiva na relação. Espécie em extinção, os machões estão caminhando a passos lentos para se tornar o que gostariam (e deveriam) ser desde o início: apenas homens.

A confusão já começa nas definições: ser macho não é sinônimo de ser homem? Para o machão convicto sim, mas na realidade não é bem assim. De uma maneira simplificada, o machão ou o machista

é um exagerado, que busca reafirmar a sua condição de homem sendo mais agressivo e dominador do que o normal. "O machismo é uma caricatura exagerada das características masculinas", define o psicólogo José Luís Cremonesi. Os homens são, por natureza, mais agressivos e possuem um espírito de competição e iniciativa mais aguçado do que as mulheres. O machão procura exacerbar ainda mais essas características como se isso fosse fazer dele "mais homem". Isso se traduziria, na prática, em ser o durão que não leva desaforo para casa e o sedutor, que conquista o maior número de mulheres possível (de preferência ao mesmo tempo), para citar dois exemplos.

De acordo com a psicóloga Elaine Olmo, no dia-a-dia, o machão é dominador, dono da verdade e possessivo. Geralmente, os seus relacionamentos são marcados por cobranças, controle e domínio da situação. "O machão sente necessidade de dominar e decidir todas as questões para esconder suas inseguranças e medos", explica a psicóloga. Segundo ela, por trás de sua aparência inabalável, o machão esconde uma pessoa insegura e imatura emocionalmente, que precisa mandar e estar sempre à frente de tudo para se sentir superior e, assim, preencher as lacunas do seu auto-abandono.

A insegurança do machista envolve também o lado sexual. Ele precisa ser agressivo, forte e conquistador, para assim afastar completamente a possibilidade de alguém achar que ele é homossexual. Ter preconceito contra os gays, aliás, é praticamente uma regra para o machão, que não percebe que, no fundo, se sente inseguro quando a suas próprias preferências e sexualidade.

Em evolução

Não é possível precisar quando surgiu o machismo, mas é certo que essa visão está ligada ao fato de o homem ser visto como o chefe da família (do clã, da tribo, da nação...), o que remonta ao princípio das civilizações, onde a figura masculina sempre assumiu uma postura de liderança. "Nós nos acostumamos com a idéia de ver o homem como o chefe de casa, aquele trabalha, é poderoso e sustenta a família, enquanto a mulher cuida dos filhos", lembra José Luís Cremonesi.

Mas a situação está mudando. Hoje em dia a mulher ocupou o seu espaço em várias áreas, inclusive dentro da sua própria casa e o homem já não é o "poderoso provedor" sozinho. Um indício recente e curioso dessa queda do machismo entre os homens vem da indústria de cosméticos, que mostra um aumento muito grande das vendas de produtos de beleza para homens. Plásticas e a grande procura por academias de ginástica também são cada vez mais comuns entre a comunidade masculina. Ou seja: o homem está muito mais vaidoso do que era antes, assumindo uma postura que antes era vista como

"coisa de mulher".

Outro indício dessa mudança está na transformação do homem em "homem objeto", nas casas de strip-tease freqüentadas por mulheres e como garotos de programa. "O homem detinha o poder de 'pagar' pela mulher e hoje isso está igualado, a mulher tem o poder de pagar pelo homem se quiser, também", diz José Luís Cremonesi. É aí que a questão financeira faz diferença. Quando era o único chefe da casa - e, conseqüentemente, o dono do dinheiro - o homem tinha o poder. Hoje, um grande número de mulheres trabalha fora e divide o poder com os maridos. Algumas até ganham mais do que eles.

Homens perdidos

Essa mudança de postura que está acontecendo aos poucos tem deixado o homem "perdido", na opinião do psicólogo. "Como a mulher passou a competir com o homem, principalmente no mercado de trabalho, e, em muitos casos, de igual para igual, ele ficou sem saber o que fazer, pois estava acostumado com a soberania", explica. O resultado disso é que os homens devem se voltar para as coisas femininas para ser mais inteiros. José Luís Cremonesi esclarece: "Emocionalmente falando, o homem integral é tanto masculino quanto feminino, o mesmo acontece com a mulher. Quando um homem exacerba sua agressividade para se tornar 'mais homem', está valorizando o lado masculino e se esquecendo do lado feminino. O homem que está bem estruturado emocionalmente não tem medo de assumir que possui uma porção feminina, ele sabe e tem segurança na sua opção sexual".

Muitos jovens já mostram essa segurança hoje em dia, aponta o psicólogo. Ele lembra que é muito mais comum agora do que há anos ver homens se abraçando, por exemplo. "Antigamente, os homens nem eram estimulados a fazer isso ou demonstrar qualquer forma de carinho nesse sentido porque poderia ter uma conotação homossexual. Um pensamento machista. Hoje, isso está mudando, lentamente, mas está", diz. Em outras palavras: os machos, inseguros e prepotentes, estão se tornando homens.

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